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Você está disposto a ouvir o chamado do mundo para que você mude?

As crises atuais se apresentam de forma global sob diversas formas (pandêmicas, climáticas, econômicas e políticas) e nos desafiam a nos reinventar.

Se Albert Einstein já dizia que não podemos resolver um problema partindo do mesmo nível de consciência que o gerou, parece claro que as soluções para problemas de dimensões tão grandiosas necessitam de um transformar-se.

Os conhecidos caminhos que nos trouxeram até aqui, até certo ponto funcionaram, porém não parecem ser mais sustentáveis.

Sem grande esforço é fácil de perceber, por exemplo: que os recursos naturais, tratados como infinitos para produção de bens descartáveis, escasseiam com rapidez exponencial; que as desigualdades convenientemente enviadas para debaixo do tapete batem na porta dos bairros nobres sob a forma de pedintes ou refugiados, tanto em países ricos quanto em nações subdesenvolvidas; e que a menos valia de algumas vidas fortemente se evidencia nos vídeos gravados espontaneamente que denunciam os maus tratos que sistematicamente sofrem alguns grupos minoritários.

Além disso, parece cada vez mais inadequado fingir que a roupa barata que compramos numa loja de grife não inclui no seu custo a mão de obra mal paga sob condições desumanas do empregado que a fabricou, ou que o prazer de degustar o filé mignon exclui o sofrimento desumano de animais mortos em abatedouros industriais.

Enfim, o desconforto com o status quo atual e com o nosso estilo de vida torna-se cada vez mais pungente e difícil de ser relevado.

Resistimos olhar no espelho

mudança interiorContudo, ainda assim resistimos olhar no espelho e perceber que os problemas do mundo pedem que realizemos uma grande mudança interior. Continuamos adiando o nosso encontro com o que precisa ser feito e assim, buscamos realizar contornos, atalhos e pequenas correções nos problemas que vivemos.

Porém, em tempos atuais e face a uma crise pandêmica mundial, a ideia de que pequenos ajustes no sistema econômico e político podem nos trazer de volta ao que considerávamos normal parece alimentar mais a negação da realidade do que propriamente oferecer uma solução promissora e eficaz aos nossos problemas.

Em todo caso, é necessário lembrar que a tão desejada normalidade não é saudável, não é sustentável, e nem representa o mais elevado de nossa humanidade. Diferentemente de um retorno ao passado, é preciso uma nova direção, um novo rumo para que continuemos nossa jornada na Terra.

Para tal, precisamos aprofundar nossa compreensão sobre a natureza comum dos problemas críticos que criamos. E se assim o fizermos, podemos perceber que as crises por nós produzidas se desenvolveram em grande parte devido a uma visão restritiva e míope de nós mesmos.

Esta auto-percepção, por sua vez, acaba gerando uma experiência de desconexão e fragmentação com relação aos outros seres humanos e com relação ao planeta.

Consumidores, é apenas o que somos?

Na vida contemporânea desempenhamos vários papeis, porém é notório que a base da nossa sociedade se sustenta sobre nossa capacidade de consumir e a nossa função como consumidor é primordial para a manutenção deste sistema.

Constantemente bombardeados por campanhas publicitárias, somos estimulados para consumir incessantemente adquirindo bens com a promessa de prazer ou felicidade, para que de tal forma a economia continue sua locomotiva idealmente ininterrupta. Nos mantemos enfeitiçados e roboticamente agimos sem muita consciência das consequências dos nossos atos de consumo para outros grupos humanos ou para o planeta.

Neste paradigma individualista e restritivo nos vemos como indivíduos isolados, e assim tratamos a natureza como mera fonte de recursos para manufatura de objetos de consumação.

Além disso, esta mentalidade mercantil transborda e inevitavelmente intoxica nossas relações interpessoais, e assim inconscientemente terminamos por nos tratar também como objetos.

Inseridos neste modo de viver, até a vida preciosa e imensurável recebe valores específicos e acabamos agindo como se umas vidas valessem mais do que outras.

Dentro desta realidade, vidas humanas são mais preciosas que outras formas de vida, como as plantas e os animais, assim como certas vidas humanas são melhores protegidas e cuidadas dependendo da origem racial, do gênero, da orientação sexual, da origem do país, etc…

Por conseguinte, ao continuarmos a interagir dentro da rede de vida como apenas um consumidor, nos vemos cada vez mais ilhados e nos dissociamos da nossa real identidade, profundamente ligada à teia da vida, e desta forma acaba se tornando muito difícil sentir nossa conexão ao próximo e ao planeta.

Se faz necessário então, uma reconexão ao todo, um aprofundamento na nossa humanidade.

O Interser

O monge vietnamita budista Thích Nhất Hạnh, introduz o conceito de interser. Nesta perspectiva nós, humanos, não somos apenas indivíduos ilhados, tais quais objetos em um mundo newtoniano independentes e isolados.

Nós fazemos parte de uma teia de vida que inclui outras formas de existir no universo: as estrelas, os vegetais, os animais, os minerais, o reino microscópico e o macroscópico, o visível e o invisível. Todos estes elementos estão em conexão conosco nesta rede da vida.

Todo o tempo o interser está em relação com o Todo. Suas ações afetam o todo e vice-versa. Além disso, na rede da vida temos aglutinado ao nosso ser as relações com os outros elementos da teia. Thích Nhất Hạnh sugere que para compreendermos o conceito da interexistência, o interser,olhemos para uma folha de papel e reflitamos sobre as interconexões existentes na mesma:

“A nuvem é essencial para que o papel exista… Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer, e sem árvores, não podemos fazer papel… E se continuarmos olhando, podemos ver o madeireiro que cortou a árvore e trouxe para a fábrica para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Sabemos que o madeireiro não pode existir sem seu pão de cada dia e, portanto, o trigo que se tornou seu pão também está nesta folha de papel. E o pai e a mãe do madeireiro também estão nele. Quando olhamos desta forma, vemos que sem todas essas coisas, esta folha de papel não pode existir.”

Ou seja, este papel existe porque tudo existe, este papel é porque tudo é. Esta compreensão da nossa interdependência nos faz perceber que através de uma percepção mais aguçada do pertencimento da individualidade no todo, é possível uma experiência de uma individualidade conectada. E se trouxermos esta compreensão para o campo humano, aplicando-a no nosso dia-a-dia, abrimos possibilidades para curar a nossa experiência de cisão com a teia de vida.

Seria então, esta nova maneira de ser individual e conectada que o mundo nos desafia a implementar neste momento?

Diante deste senso de existir conjuntamente, consequentemente brotaria de nós uma afinidade irresistível por harmonia entre os diferentes grupos humanos e as diferentes formas de vida?

Estaria o cultivo desta interconexão associada a um sentimento de amor, de compaixão e assim, ao incorporá-la nas nossas vidas veríamos rescindir o egoísmo?

Por fim, seria utópico considerar esta nova forma de ser no mundo onde reconhecemos, acolhemos e fortalecemos nossos laços entre os humanos e com a teia da vida?

Possibilidade irreal e utópica?

Se olharmos para nossa história, tão recheada de conflitos, atrocidades, misérias, e desigualdades parece que estamos fadados a nos repetir e que qualquer possibilidade mais elevada de coexistência seria irreal e utópica.

Porém, não podemos esquecer do vasto potencial humano e da nossa capacidade criativa de se adaptar a novos desafios.

Além disso, há alguns exemplos históricos de pessoas que se deixaram guiar por grandes princípios e cujas ações ainda reverberam e inspiram mudanças nos dias atuais.

Alguns destas pessoas incluem Mahatma Ghandi, Marther Luther King jr, Nelson Mandela, David Suzuki, Roberto Freire, Carl Rogers, Mother Teresa, J. Krishnamurti, Dalai Lama, Buddha, Jesus, etc.

Estes, personificam, cada um do seu jeito, uma maneira de ser no mundo cujas ações refletem uma consciência mais expandida onde a percepção dos problemas coletivos se baseiam: em fundamentos sublimes de compaixão, não-violência e amor; na busca por justiça; na preservação de direitos humanos, dos animais ou da natureza como um todo.

Estes e outros seres menos conhecidos nos mostraram o caminho e demonstraram que é possível uma nova forma de ser humano, mais aprofundada, mais conectada com o todo, fundada em valores, e guiada por princípios mais elevados.

O momento pede novas relações e novas ações

O momento crítico em que nos encontramos coletivamente pedem novas relações e novas ações. Neste contexto, se aprofundarmos nossa compreensão do que é ser humano, talvez possamos, como consequência, desenvolver um sentimento de pertencimento aos outros e ao planeta e suas diversas formas de vida, de forma tal, que eventualmente este sentimento transforme nossas relações econômicas e políticas.

Sem dúvida, podemos dizer que diante das múltiplas crises globais atuais ao menos duas possibilidades se apresentam para nós: a eminente autodestruição ou um grande ponto de mutação, um momento de renascimento, um novo tipo de Renaissance, onde o ser humano emergirá de seu estado bárbaro maquiado de civilização para manifestar um novo ser mais profundamente humano e conectado.

Se bem pouco tempo atrás a nossa ideia de futuro se referia a um ser humano interconectado, em comunicação instantânea imerso no mundo virtual, na internet e nas redes sociais, agora para se vislumbrar um futuro precisamos contemplar seriamente a nossa capacidade de ser de uma nova forma: o interser, o humano consciente de suas interconexões com a vida e que age baseado nesta consciência.

Desta maneira, provavelmente poderemos nos desviar da rota em direção a um futuro distópico, e mirar uma ‘utopia’ aspirando por torná-la real em nome da nossa sobrevivência e das vidas futuras neste planeta.

Coragem, atenção amorosa e o chamado do mundo

Cabe aqui relembrar que para manifestar esta nova forma de ser humano é preciso se abrir para a realidade tal qual ela se apresenta, e consequentemente ouvir o chamado do mundo para que mudanças se realizem.

O escutar deste chamado prescinde que estejamos atentos ao que se passa em nós e nos outros grupos humanos e formas de vida, que nos permitamos sentir como a realidade do mundo tal como nos parece nos afeta.

O quão você realmente se deixa tocar pelos gritos dos “George Floyds” e pela indignação de Greta Thunberg, pelos índios dizimados pelos invasores de suas terras, pelos países subdesenvolvidos e seus inumeráveis problemas, pelas pessoas doentes morrendo as minguas seja de fome ou pela falta de cuidados sanitários ou médicos?

O quão você se permite sentir o desespero dos que sobrevivem com o mínimo possível sem sucumbir e excluir a alegria de viver a sua própria vida com todos os seus dons?

É preciso coragem para se permitir sentir o sofrimento do mundo, mas se cultivarmos um olhar amoroso para as dores contemporâneas e se nos ancorarmos nos nossos valores, poderemos ir além deste desconforto e nos direcionar para o novo, e assim contribuir para a emergência de uma nova realidade.

Uma vez que damos espaço para estar com as realidades do mundo e para ouvir a voz sutil dentro de nós mesmos para que sejamos mais totalmente humanos, surge eventualmente um novo relacionamento conosco e com a existência, e consequentemente, energia e criatividade vitais são adicionadas à tão necessária onda de transformação coletiva

À medida que expandimos nossa consciência para incluir aqueles que estão em desvantagem no sistema atual bem como os lugares esquecidos de nossa psique pessoal, ao abraçarmos o mundo em nós e sentirmos seus risos risos e lágrimas, o pedido por mudança se torna mais presente. Este chamado por profundas mudanças só pode ser ouvido no espaço mais íntimo de si, e é somente neste lugar pessoal que nasce uma mudança coletiva profunda.

O chamado do mundo para que mudemos está cada vez mais alto. Você está disposto a escutá-lo?

Artista e Ph.D. em psicologia, autor da tese “Music as vehicle for self-transformation” e do romance “ A Mulher que Nunca Recebeu Flores”. Cantor e compositor dos álbuns Bossa a Trois e Conscious (Original Movie Soundtrack). Co-diretor do filme “Conscious: Fulfilling our Higher Evolutionary Potential”. www.josehgarcia.com [ Ver todos os artigos ]

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