O cheiro do saber

Por Elias Thomé Saliba
Carta Capital

O historiador Robert Darnton analisa por que a realidade digital pode tornar opaco o conhecimento acumulado durante anos nas estantes

Biblioteca Angelica, Roma, Itália

Em 1771, o obscuro escritor iluminista Louis Sébastien Mercier publicou O Ano 2440, uma utopia futurista na qual o narrador cai no sono e acorda sete séculos depois em uma Paris harmoniosa, livre dos males do Antigo Regime. No principal capítulo do relato, visita a Biblioteca Nacional, esperando encontrar aquele templo do saber ultraorganizado e acessível, mas encontra apenas uma sala modesta, com quatro estantes. O bibliotecário lhe explica: “Descartamos tudo. Cinquenta mil dicionários, 100 mil livros de poesia, 800 mil livros de viagem e 1 bilhão de romances. Uma comissão de sábios virtuosos leu todos os livros, eliminou o que era falso e resumiu tudo em algumas verdades e preceitos morais básicos, que cabem sem dificuldade nestas quatro estantes”.

Mercier nunca defendeu o descarte de livros. Mas sua fantasia expressou um sentimento já forte no século XVIII e, na nossa época, tornado obsessão: a sensação de estar sobrecarregado de informações, impotente diante da necessidade de encontrar material relevante em meio a futilidades. A utopia de Mercier anunciava algo que hoje deixou de ser utopia: uma biblioteca sem livros. Em lugar das três estantes residuais, terminais de computador com acesso a gigantescos bancos de dados e hiperlinks de livros digitalizados, onde os leitores encontrariam o que desejassem por meio de mecanismos de busca perfeitamente afinados, segundo os algoritmos mais recentes.

Esta é uma das muitas provocações do historiador Robert Darnton em A Questão dos Livros – Passado, presente e futuro (Companhia das Letras, 231 págs., R$ 42,50), um guia apetitoso para alimentar o debate sobre o lugar dos livros no ambiente digital que se tornou uma realidade para milhares de seres humanos. Difícil encontrar uma trajetória mais apropriada para encaminhar a discussão sobre o futuro do livro nesse universo. Após uma breve carreira de repórter policial no New York Times, Darnton, que estará presente na Festa Literária Internacional de Paraty, em agosto, tornou-se professor universitário e um pesquisador dedicado ao estudo da história do livro e da leitura no século XVIII.

Darnton, de 71 anos, trabalhou por quase duas décadas com o manancial de 50 mil cartas da Societé Typographique de Neuchâtel (STN), o único arquivo completo de uma casa editorial franco-suíça do século XVIII que sobreviveu. Dessa enorme pesquisa produziu livros importantes, como Boemia Literária e Revolução, Iluminismo como Negócio e The Devil In The Holy Water – esse último, um estudo sobre a calúnia na França do século XVIII ainda não traduzido no Brasil. Foi editor na Oxford University Press e passou um ano como “acadêmico residente” (no Brasil não há nada parecido) na rede de tevê CBS. Atualmente, dirige a Biblioteca de Harvard, que se transformou nos últimos quatro anos em epicentro da discussão sobre o processo de digitalização de acervos.

“Seja qual for o futuro, ele será digital”, resume Darnton, que, contudo, não se mostra nada ansioso em trocar o reino do iluminismo esclarecido pelo alvoroço do capitalismo corporativo. Segundo ele, deve-se olhar para o futuro digital com adesão crítica, sem nunca deixar de olhar pelo espelho retrovisor. A internet, como toda inovação tecnológica, apresenta-se, ao mesmo tempo, como bênção e maldição.

Para Darnton, ela tem a largura de uma galáxia e a profundidade de um dedo. Embora útil na maioria das situações, tornou-se a maior fábrica de rumores da história, na qual afirmações falsas estabelecem sua veracidade pelo peso das infinitas repetições. A maioria dos sites faz um trabalho muito ruim ou inexistente no sentido de documentar suas fontes ou oferecer referências básicas. Todas as informações vêm com uma forte embalagem de onisciência – ou seja, toda narrativa se passa como se fosse destituída de fonte.

É com essa atitude cuidadosa que Darnton discute em todos os seus detalhes a iniciativa do Google de digitalizar o acervo de grandes bibliotecas públicas. O professor estimula iniciativas parecidas em vários países. A escala da democratização do livro é quase imbatível. No Brasil, a Brasiliana digitalizada de José Mindlin é exemplo recente do sucesso de tais empreendimentos. Mas Darnton demonstra sua insatisfação com o Google Book Searc-h formulando questões até agora irrespondíveis.

Como diretor da Biblioteca de Harvard, ele visitou várias vezes o Google. Em uma delas, perguntou à funcionária que o recepcionou como ela descreveria a hierarquia de status da corporação. “É fácil”, ela lhe retrucou. “Primeiro vêm os engenheiros, depois os advogados e, por fim, os cozinheiros.” Atrás da ironia, havia uma verdade: o Google emprega milhares de engenheiros, mas não tem um único biblió-grafo em sua equipe. Esse descaso é lamentável quando se considera a história das publicações. Nenhum exemplar isolado de um best seller do sécul-o XVIII, por exemplo, fará justiça à variedade infinita das edições. Neste caso, a edição escolhida (de forma arbitrária, pois como determinar qual a edição válida?) será a única a que o leitor terá acesso.

À decisiva questão da relevância, os engenheiros do Google respondem que planejam digitalizar muitas versões de cada livro, à medida que os exemplares forem aparecendo ao ser retirados das prateleiras, como numa linha de montagem. Mas qual versão será colocada no topo do ranking de busca? Será que o Google determinará o ranking de relevância dos livros da mesma forma que faz com todo o resto, de cremes dentais a artistas de cinema?

Será capaz de criar um algoritmo que levará em conta os padrões prescritos pelos bibliógrafos, tais como a primeira edição a ser impressa ou a que melhor corresponda à intenção expressa do autor? Além disso, antes de se revolverem os problemas da preservação digital, todos os textos nascidos “digitais” pertencem a uma espécie em risco de extinção.

Bits se degradam com o passar do tempo e documentos se perdem no ciberespaço por conta da obsolescência da mídia em que foram registrados. Empreendimentos eletrônicos vêm e vão. Bibliotecas de pesquisa, quando não destruídas por vândalos ou fascistas, duram séculos. A obsessão por desenvolver novas mídias inibiu os esforços de preservar as antigas (e o melhor sistema de preservação que já se inventou é o antiquado livro pré-moderno), já que o papel manufaturado antes do século XIX se mostrou o mais durável até agora.

Com a digitalização e a criação de redes entre grandes bibliotecas, o alcance da informação será ampliado e democratizado a uma escala nunca antes experimentada. Mas queremos realmente que um empreendimento comercial detenha o controle exclusivo de tanta informação? A maioria das bibliotecas norte-americanas oferece algum tipo de entrada livre a todo material, e o acesso a revistas é feito mediante pequenas taxas. Quem intervirá, contudo, quando a única empresa que controla o acesso resolver cobrar taxas cada vez mais altas? Como o pessoal da Google não gosta da palavra “monopólio” e Darnton, de ferir suscetibilidades, ele a define como uma “empresa hegemônica, financeiramente imbatível, tecnologicamente invencível e legalmente invulnerável, capaz de esmagar quaisquer concorrentes”. Se a definição peca pela sutileza, corrija-a o leitor.

Darnton não menciona as experiências recentes com o Kindle e o iPad, mas é muito bom ao pinçar exemplos da história do livro, de editores, de livreiros e das bibliotecas, relembrando personagens que, acima de tudo, viveram uma renitente história de amor ao livro impresso. A melhor história é a dos leitores que mantinham seus livros pessoais de lugares-comuns, os commonplace books, magistralmente analisados no ensaio Os Mistérios da Leitura. As mais surpreendentes são as daquelas pessoas que, por medo de parecerem antiquadas demais, não revelam seu amor pelos livros.

O bilionário Bill Gates confessou, em palestra recente, que prefere o material impresso às telas do computador: “Ler na tela ainda é uma experiência vastamente inferior à leitura em papel”, registrou. E confessa: “Mesmo eu, que tenho telas caríssimas e gosto de me considerar um pioneiro da vida web, prefiro imprimir qualquer coisa que ultrapasse quatro ou cinco páginas. Assim posso carregar o texto comigo e fazer anotações”. Gates diz que os livros têm até mesmo cheiros especiais. Numa sondagem de 2005, 43% dos estudantes franceses consideraram o cheiro uma das características mais importantes dos livros impressos, importante a ponto de os levar a rejeitar a compra de livros eletrônicos “inodoros”. A CaféScribe, uma editora on-line francesa, já está oferecendo aos seus clientes um adesivo que exala um cheiro agridoce de livro antigo ao ser colocado próximo ao monitor.

Não é preciso chegar a tanto, já que, segundo Darnton, o livro com páginas supera o computador em muitos quesitos. É resistente a danos, soberbo para o armazenamento e com um design prazeroso. Não precisa de upgrades, down-loads ou boots nem ser acessado, conectado a circuitos ou extraído de redes. Podemos folheá-lo, fazer anotações em suas margens, levá-lo para a cama e guardá-lo numa prateleira. Além disso, nunca enguiça. O iluminista Mercier não conheceu computadores, mas sabia disso. E de muitas outras coisas.

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