O código Vieira

Por Paulo Werneck
FSP

A introdução que Alfredo Bosi fez para sua recém-lançada antologia “Essencial” do Padre Antônio Vieira (1608-97) [Peguin- Companhia, R$ 35] é quase um livro à parte: ocupa 127 das 760 páginas do volume. Questionado sobre quanto tempo levou para escrevê-la, ele responde: “A vida inteira, mas para redigir demorei talvez uns seis meses”.

É mais do que uma “boutade”. Desde os anos 1950, no curso clássico, como então se chamava o ensino médio voltado para humanidades, o professor emérito da USP se vê às voltas com o padre Vieira, autor que seria central em sua produção crítica. “Foram dois os critérios: os textos clássicos e os que de alguma maneira correspondiam às indicações da introdução”, disse Bosi à Folha em sua casa, na Granja Viana, em Cotia, na Grande São Paulo, ao explicar a seleção feita para o lançamento.

É lá que, na companhia de sua mulher, Ecléa, Bosi se dedica a outra paixão, que já completa 30 anos: o ativismo ecológico, em particular contra as usinas de energia atômicas. Além disso, prepara com entusiasmo, para a Editora 34, uma edição comentada de “Minha Formação”, de Joaquim Nabuco, cotejada com uma versão em francês até agora ignorada.

Entre os achados da antologia de Vieira, há nada menos do que passagens de um texto do padre inédito em português. Redigida em latim, “A Chave dos Profetas” é, segundo Bosi, uma suma dos argumentos proféticos de Vieira em favor da ideia de que d. João 4o, seu protetor e amigo, seria o “verdadeiro” d. Sebastião, que voltaria para instaurar o reino de Cristo na Terra. Um trecho de “A Chave dos Profetas” pode ser lido em primeira mão à pág. 8 desta Ilustríssima, na seção “Imaginação”.

A história do texto é “um conto policial”, diz Bosi. Escrita entre Roma –onde um Vieira condenado pelo Santo Ofício luso obteve o salvo-conduto papal que o tornou isento da Inquisição portuguesa– e a Bahia, onde morreria aos 89 anos, “A Chave dos Profetas” sumiu num episódio rocambolesco.

Com a morte de Vieira, autoridades eclesiásticas determinaram que seus escritos fossem reunidos numa arca e embarcados para Roma. Numa escala em Lisboa, membros da Inquisição portuguesa encapuzados invadiram a nau e confiscaram a arca, dando sumiço aos originais da “Chave dos Profetas”.

Vieira, entretanto, pedira secretamente a seus auxiliares que fizessem cópias do manuscrito. Uma delas foi parar no mosteiro Casanatense, na capital italiana, e em 2009 foi publicada em latim por um erudito amigo de Bosi.

Por sua iniciativa e com ajuda de dois amigos latinistas, Anna Lia Prado e Ariovaldo Augusto Peterlini, pela primeira vez esse texto conheceu a língua portuguesa -da qual, segundo Fernando Pessoa, seu autor foi imperador.

A aventura completa do manuscrito pode ser lida em trecho desta entrevista disponível em folha.com/ilustrissima.

*

Folha – Como o sr. avalia as críticas feitas a Vieira, de que não passaria de um agente da colonização?

Alfredo Bosi – Eu estranho quando se faz tanta crítica ideológica de Vieira. É uma coisa anacrônica. Dentro do mundo dele, ele enfrentou o poder. Valeu-se do poder e, quando estava por baixo, enfrentou-o. A amostra é o que aconteceu no Maranhão e no Pará, onde ele encontrou um hábito arraigado dos colonos.

Quando chegaram lá, os portugueses imediatamente tomaram os índios como mão de obra, e ele percebeu isso: que os colonos escravizaram os índios contra os alvarás dos reis. Porque tanto os reis espanhóis, como Filipe 2o, como d. João 4o, proibiram expressamente a escravização de índios.

Havia leis que se colocavam nos muros, nas paredes, que eram letra morta. Ninguém obedecia. Ele percebeu que os colonos usavam subterfúgios para burlar a lei. A lei dizia que não se podia escravizar índios, a não ser em dois casos: de guerra justa, quando os próprios índios atacavam, e dos chamados índios de corda, aqueles que eram escravizados por outros quando perdiam em lutas de tribos.

Em muitos casos, os vencedores prendiam os derrotados e logo em seguida os matavam, aquele famoso caso dos antropófagos, matavam os coitados para comer ou por vingança. Quando os portugueses resgatavam os derrotados, dando aos caciques sei lá que vidrilhos para comprá-los, eles podiam escravizar esses índios.

Vieira percebeu que muitas dessas situações eram forjadas e exigiu que se fizesse uma junta em que houvesse governador, jesuíta, franciscano, carmelita e outras autoridades para julgar cada caso.

E ele percebia então que o governador, André Vidal Negreiros, e ele, que eram muito amigos, eram sempre votos vencidos. Via que os franciscanos, os carmelitas, os mercedários e os governadores estavam todos conluiados para votar favoravelmente aos colonos e contra os índios. Então, ele escrevia ao rei e dizia que havia problemas.

Foi se formando uma animosidade contra ele. Os jesuítas eram vistos como inimigos. Foi difícil, porque eles queriam ir à vias de fato, insultar, prender, bater nos jesuítas. Mesmo assim, ele conseguiu, diplomaticamente, protelar a situação. É curiosa essa tensão, alguém devia fazer um filme sobre isso, porque era uma situação de conflito.

Ele devia estar apavorado, sozinho, ele e uns poucos jesuítas, mas, usando toda a autoridade dele e a língua, conseguia protelar. Ficou, acho, uns nove anos. Até que os vereadores, os “homens bons”, como se dizia naquela época, exigiram que eles fossem expulsos, e Vieira nunca mais voltou ao Maranhão.

Quando se faz a análise ideológica, os historiadores concluem que Vieira era um agente da colonização portuguesa. Até historiadores eméritos me falaram isso. Eu sempre dizia: sim e não. Ele era o homem que queria a grandeza de Portugal, era fanático pela grandeza de Portugal, mas, no caso particular dos índios, ele queria um outro tipo de tratamento, ou então poderia fazer como os franciscanos e as carmelitas, que se entregaram ao poder. Ele lutou até o fim, até a expulsão.

Essa expulsão é uma prova do caráter que eu diria contraideológico. Naquele momento, foi contraideológico.

Isso seria um traço moderno?

Eu não diria moderno, é tão perigoso usar essas palavras… Mas é um traço de inconformismo dentro de uma cultura profundamente conservadora.

Em que sentido é possível falar que Vieira é moderno?

Vieira vive numa sociedade de estamentos. Isso era uma verdadeira metafísica, no sentido de que o nobre é nobre, o plebeu é plebeu, não só por condição econômica, mas até por herança, a ideia do sangue azul, de que os nobres geram nobres. É uma coisa incrustada no ser humano.

Quando Vieira vai para Portugal, sai daqui da missão, jovem ainda, e está diante de d. João 4º e dos nobres todos, ele prega aos nobres, naquele momento em que deseja que haja a Companhia das Índias Ocidentais, em que os judeus não sejam perseguidos. Está numa fase muito juvenil, não tinha 40 anos de idade ainda. Mas já foi elevado a pregador real.

Vieira quer que a nobreza e o clero contribuam e deixem de ter isenções. Eles eram isentos de imposto, não precisavam pagar nada, porque estavam sempre apoiando o rei. Quem pagava era a burguesia, era o povo. Então ele procura demonstrar que todos devem contribuir. Até aí, era do interesse dele que os capitais não fossem subtraídos ao erário real.

Mas, mais do que isso, ele faz uma análise da palavra fidalguia, mostrando que a única fidalguia é a das obras. A fidalguia que vem do alto, isto é, a nobreza que vem da família, não é a verdadeira nobreza. Isso me parece uma ideia muito moderna, colocada num contexto da Revolução Francesa, claro, que ia ser cem anos depois.

Ele diz assim: “O que fazemos, isso somos, nada mais”. Vem primeiro a ação, depois vem a formação, o ser. A ação, o agir, o existir, é anterior ao ser. Nesse ponto ele é herético até em relação ao tomismo: Santo Tomás coloca o ser no começo e depois a existência. Mas ele não faz em termos metafísicos. Ele diz: “Não vades revolver as matrículas dos vossos avós”.

Por que Vieira não fez uma defesa dos negros como fez dos índios e dos judeus?

Esse é um ponto doloroso para a pessoa que admira Vieira, que é o meu caso. Sem dúvida nenhuma, é muito decepcionante. Primeiro, porque ele fazia uma distinção quase jurídica: os índios são livres. Uma distinção que hoje nós consideramos capciosa e absolutamente intolerável entre o legítimo e o legal. A escravidão não é legítima nunca, isso ele diz em vários sermões: Deus fez os homens iguais, não havia escravidão no tempo de Adão. Há um direito natural, pelo qual todos os homens nascem livres. Isso é legitimidade.

Mas ele fazia a distinção: os índios nasceram livres, foram os donos das terras, não têm que ser subordinados. Podem ser até contratados, deve-se pagar um salário, mas não escravizados. E os negros vieram da África já escravos, já foram vendidos e comprados como escravos.

Todos os sermões dele nessa linha deploram de maneira pungente o sacrifício dos negros, dizem que eles parecem Cristo na cruz. Os sermões parecem até revolucionários, dizem que eles trabalham, que a vida é um inferno, o “doce inferno”, por causa do açúcar, mas tudo o que eles fazem não é para eles, é para os outros.

Eu até aproximei isso de um texto de Marx em que ele diz a mesma coisa: o operário faz a casa bela, mas para os outros, faz roupas belas, mas não vai vesti-las, faz comidas excelentes, mas não vai comê-las. Claro que Marx coloca essas ideias num contexto diferente, revolucionário.

Então dá a impressão de que Vieira está dizendo: vocês são alienados, explorados. Depois, quando a gente vai lendo esse sermão, vem uma revirada: é melhor vocês estarem aqui do que na África, porque na África vocês seriam pagãos, ou escravos dos maometanos. Aqui, não, aqui vocês conheceram a verdade, e esse sacrifício é um sacrifício provisório, você vão ganhar a glória. É a própria alienação.

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