O Comício do Carrasco

Não é porque você não vota ou porque não entende de política que você não vai ao comício. Eu comecei a ir aos comícios ainda pequena, com o meu pai. Ele era semi-analfabeto, sabia ler muito pouco, não escrevia mas assinava o nome e, talvez por isso, valorizava muito a história oral.

Era um ouvinte seleto, ligava o rádio nas primeiras horas da manhã, desligava quando saía para o trabalho e ligava novamente no final da tarde ou à noite. Lembro dele ouvindo um programa sertanejo,  quando amanhecia  e a Voz do Brasil, ao anoitecer.

E se estava em casa na hora do almoço, ligava no Corruchiado,  um programa que tinha nesse horário sobre futebol. Assim, ele sempre estava informado do que acontecia, inclusive na política, embora político não fosse, apenas um eleitor mais curioso.

Quando era tempo de eleição meu pai gostava de acompanhar a movimentação e gostava de ir aos comícios. Afinal, o que é um comício senão uma exposição oral dos vários candidatos?

Então, mesmo que você não saiba ler, sempre pode aprender alguma coisa. Apreciava os discursos políticos, no rádio e no palanque. Ouvia com atenção, falava do tempo de Getúlio Vargas, de suas mensagens no rádio quando era presidente, e falava daqueles tempos atuais, dos seus compadres ou conhecidos, alguns candidatos ou apoiadores de outros candidatos, naquela cidade do interior.

Cigano x Fechador

“Quando chegamos, eu, meu pai e minha irmã, já começara a distribuição. Eram brinquedos variados, bolas e bonecas de plásticos para as crianças,”

 O Comício do Carrasco ocorreu na década de 60, em Angicos, quando o Rio Grande do Norte tinha dois lados, o lado do Cigano e o lado do Fechador, referências aos candidatos que se alinhavam com Aluísio Alves, o Cigano, e os que eram aliados de Dinarte Mariz, o Fechador, dois nomes históricos da política no estado. O Carrasco era um bairro afastado do centro da cidade e que se desenvolvia pela proximidade do açude e da estação de trem.

O Comício do Carrasco, e eu não vou dizer que candidatos representava, juntou muita gente naquele fim de tarde, sem sol mas ainda de muito calor. Homens, mulheres e crianças que se espremiam, querendo chegar mais perto do palanque, armado em cima de um caminhão. Haviam anunciado que além da presença dos políticos haveria distribuição de presentes, o que aumentou o interesse da população.

Quando chegamos, eu, meu pai e minha irmã, já começara a distribuição. Eram brinquedos variados, bolas e bonecas de plásticos para as crianças, cortes de chita para as mulheres, e para os homens, potenciais eleitores, os discursos.

O locutor anunciava os candidatos cujos nomes eram antecedidos da expressão “agora vai falar, agora vai falar, agora vai falar… assim mesmo, incontadas vezes.

Depois seguia-se um rosário de adjetivos ressaltando as qualidades de cada um dos políticos presentes. Palmas se misturavam aos gritos das meninas da ala-moça, uma espécie de bloco que animava as concentrações políticas de então.

Com as meninas-moças vestidas nas cores do partido e sacudindo lenços e bandeirinhas, a performance  lembra hoje os jogos de times americanos que vemos na televisão.

Alô, alô, Dalva!

No meio do comício, atento ao que se passava no caminhão, meu pai se descuidou e quando se deu conta minha irmã não estava mais junto a nós. Procurou com os olhos, mas nem sinal.

Começou a se inquietar e dizia: – Eu não sei por que, mas menino cega a gente. E circulou várias vezes por entre as pessoas, na frente e atrás do caminhão, em cima da linha do trem, sempre me puxando pela mão, porque não ia arriscar de me deixar sozinha e na volta também não me encontrar.

Até que não teve mais paciência, e começou a abrir caminho no meio da multidão, em direção ao palanque.  Uma cotovelada aqui, um peraí acolá, um chegue minha filha, sem largar da minha mão.

Quando percebi a gente estava aos “pés” do caminhão, na beira do palanque. Encontada ao pneu eu ouvia, mas não entendia  o que o meu pai disse aquele homem que correu a chamar o locutor.

Só sei que de repente, ligeiro mesmo, pararam de anunciar o vai falar, pararam de anunciar os nomes dos candidatos, ninguém ocupou mais o microfone. 

O locutor se que se aproximara de nós conversou alguns instantes com o meu pai. Depois de afastou, resoluto. Tomou de novo e microfone e se dirigiu a multidão:

 – Alô, alô, Dalva… Alô, alô, Dalva… Seu pai chama!

E minha irmã, Dalva apareceu. Nada demais. Estava com as meninas da ala-moça, a maioria suas colegas de escola.

E o Comício do Carrasco continuou.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

treze + um =

ao topo