O conferencista e seu fantasma

Por José Castello
A Literatura na Poltrona

Chamam-me, cada vez com mais frequencia, para falar do destino do pensamento e das palavras em um mundo gerido pela web. Foi o que aconteceu na semana passada, quando estive no Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, para uma palestra sobre o futuro da subjetividade em um mundo amarrado pelas redes de informação. Recebi o convite de Carmem Da Poian, uma amiga preciosa, que nunca me falha. Precisava corresponder à confiança que ela depositava em mim. Decidi ir.

A sala de palestras estava lotada. Apesar de depender cada vez mais da web, de já não conseguir viver sem ela, continuo a sentir um mal-estar vago, uma espécie de aflição silenciosa, cada vez que nela me embrenho. Achei que podia falar deste incômodo, que certamente não é só meu. Não sou um teórico da web. Tampouco um estudioso das reviravoltas que ela desencadeia em nossas vidas. Sou, como muitos, um beneficiário, e também (a palavra talvez seja exagerada) uma vítima das novas tecnologias.

É dificil pensar a respeito da permanência da subjetividade em um mundo dominado pela exteriorização e pela impermanência. Tudo hoje nos joga para fora e para longe de nós. Meus arquivos pessoais do Gmail, me disse outro dia meu técnico, pobres arquivos que eu julgava depositados em algum lugar bem a meu lado, podem estar guardados na Noruega, ou na Tailândia, isso embora eu consiga acessá-los com um simples clique. O longe está perto. O perto está longe. Na era da web, a ideia de distância ruiu. Que distância?

E, no entanto, tudo hoje nos joga para bem longe de nós mesmos. Neste mundo, em que as palavras escorrem e se esvaem, em que os interiores se tornam exteriores, muita gente acredita que não tem mais, ou que é vergonhoso ter uma “vida interior”. Lembro de Clarice Lispector, que um dia nos mostrou que até as galinhas têm uma vida interior _ e que ela se manifesta na perfeição do ovo. Por que nós, humanos, a perderíamos? Em nosso caso, a palavra é o ovo. Mas como acreditar em um ovo que não se vê?

A vida interior parece cada vez mais inútil, ou inatual. Muitos a consideram só um vício antigo e doentio, como se os longos pescoços dos dinossauros fossem transportados para os homens de agora. Eles não só se tornariam cômicos, como limitariam nossa mobilidade, nos impedindo de existir. A vida interior, ou o que dela resta, seria, portanto algo de que devemos nos livrar, ou que devemos “superar”. Uma lembrança arcaica que, em contraste com a imensa rede em que estamos hoje amarrados, se torna só uma sombra.

Não é que a web, por derramar nossas almas sobre o mundo, nos roube a subjetividade. O avião não cortou as nossas pernas, nem o telefone encolheu nossos ouvidos. Ainda assim, muitos preferem pensar que em nosso mundo, com as mentes expostas em telas luminosas e multiplicadas em sites, e com nossos pensamentos mais íntimos dependurados no escandaloso varal da virtualidade, a vida interior se torna dispensável e também estúpida. Tudo nos empurra para o mundo exterior. Tudo nos leva a agitar, desnudar e correr.

Penso em minha amiga Carmen, em uma de suas longas caminhadas silenciosas pelo Jardim Botânico. Quantos de nós conservamos a mesma serenidade? Será que ainda conseguimos manter este lugar interior, no qual o mundo se aquieta e podemos, de novo, abraçar as coisas? Tentava falar disso, expor um poucos estes pensamentos que me atordoam. Esforçava-me. As palavras (como sempre) me pareciam insuficientes. Mas foi pior que isso: me pareciam falsas. Observava os que me ouviam. Eles me escutavam com carinho e confiança. Será que eu merecia?

Na noite anterior, eu terminara de ler A humilhação, a bela novela de Philip Roth. Sempre sofro dos livros que leio e ali, diante daquela platéia interessada e cordial, e não por culpa deles, isso se repetia. Roth conta a história de Simon Axler, um consagrado ator de teatro que, de repente, no alto de seu prestígio, aos sessenta anos de idade, não consegue mais representar. A causa de sua impotência é simples: Axler não pode mais acreditar em si. No palco, tudo o que consegue fazer é repetir e simular. Já não pode mais ser. Passa, então, a “ver” sua atuação _ não está mais “dentro” dela, apenas a observa de fora, como se assistisse a performance de outro ator, o que lhe rouba a fluência e a naturalidade. A crítica o massacra, as platéias o desprezam. Ele fracassa.

Também eu _ de alguma forma “despossuído” de mim, como se me observasse em uma tela de computador _ continuava, ainda assim, a falar sobre as inquietações e os sentimentos que a convivência com a web provoca em mim. Tentava, mas não conseguia, as palavras não correspondiam ao que eu sentia e ao que me esforçava para dizer. Não sou um especialista, não estava ali para defender uma tese, ou dar uma aula. Lutava, apenas, para expressar coisas que sinto, sensações vagas, mas marcantes, que não me deixam. Tentava falar um pouco do que penso e do intuo. Expor, de alguma maneira, as rachaduras que, em um mundo que se desdobra mais e mais para fora, ameaçam meu mundo interior. Mas algo me emperrava. O próprio tema que eu precariamente tentava fisgar, ele mesmo me fisgava. Eu era uma demonstração viva do que tentava dizer. Era meu melhor exemplo. Tornara-me um objeto. De quem? Quem se apossara do lugar de Sujeito?

De repente, deparei, na primeira fila da platéia, com a figura gorducha e sonolenta do Padre Guy. Lá estava ele! Não era uma visão _ suponho que ele esteja morto, porque quando eu era um menino, já era um sacerdote muito velho. Também não estava delirando: o resto da realidade (a platéia de psicanalistas, a mesa com seu microfone, meu copo de água) tudo permanecia serenamente em seu lugar. Não era um malentendido, ou uma impressão falsa. Era o Padre Guy mesmo que, sentado bem diante de mim, me ouvia. Padre Guy estava, de fato, ali. Estava não porque estivesse, mas porque eu o imaginava, com a barriga espremida pela batina justa e suas olheiras de cocker. Porque meu mundo interior (este pequeno mundo em que existo, mas que dizem não existir) o produzia. Era isso: eu o criava, ou recriava. E ele agora, aboletado em seu lugar de sujeito imaginário, se lançava contra mim.

Primeiro, tentei fingir que não o via, o que era absurdo, pois ele estava a pouco mais de 2 ou 3 metros de minha mesa, e ocupava uma cadeira colocada bem à minha frente. Apertando uma ponta da batina, tentava chamar minha atenção: “Xiiii, xiiii”. Ninguém o ouvia, só eu o ouvia, o que era razoável, já que ele não estava ali, mas eu, sim, o imaginava ali. Tentei fingir que não notara sua presença. Mas tanto insistiu com suas caretas e sinais que resolvi lhe dar ouvidos e o encarei. “Vamos, pare com isso”, ele resmungou. “Você acha que os outros acreditam nas coisas que você diz?” Pensei que, de alguma forma, ele queria me intimidar. Na verdade, queria me apagar _ do mesmo modo como deletamos um arquivo desnecessário, ou um rascunho inútil. Ou excluímos uma mensagem contaminada por um vírus.

Ele queria me deixar como o personagem de Philip Roth, que faz o que sabe fazer mas, como já não acredita que sabe fazer o que sabe fazer, fracassa no que sabe fazer.

Na verdade, assim que comecei a falar, ouvi os primeiros resmungos de Padre Guy. “Tudo o que você está dizendo já foi dito”, ele reclamava. “Você não passa de um ladrão de palavras”. Tirou do bolso, então, uma caderneta, arrancou uma folha em branco e nela anotou dois nomes: Fábio Malini e Ivana Bentes. Sei disso porque expos sua anotação _ como uma ameaça _ sobre o peito. Talvez fosse uma acusação, talvez fosse um deboche. Os dois nomes, Fábio e Ivana, me fuzilavam. Era uma maneira de me arrancar de mim.

Dias antes, eu assistira a uma palestra de Ivana Bentes, sobre as mudanças radicais que a web provoca no mundo humano. As ideias de Ivana me atordoraram e passei a noite sem dormir. O desconforto se agravou porque, depois do seminário, em um restaurante, o destino me colocou ao lado de Fabio Malini _ e suas ideias sobre o mundo virtual, embora um pouco distintas das expostas por Ivana, também me inquietaram. Sempre reduzimos um pouco as dimensões das coisas que nos atordoam. Como se deparássemos com um tigre e tentássemos nos convencer de que ele não passa de um gato. Com suas falas agudas, Ivana e Fábio me arrancaram essa ilusão. Eu não tinha mais a que me apegar, e desabava.

E agora vinha o Padre Guy piorar as coisas com suas acusações. “Você é um ladrão de palavras. Você não sabe o que diz. Não passa de uma tela em que as palavras alheias se projetam”. Como poderia, porém, roubar algo _ palavras firmes e contundentes _ que eu mesmo não suportava encarar? Como é possível raptar um leão cheio de dentes sem que ele nos devore? Ainda assim, pensei em citar Ivana e Fábio, dividir com eles o peso de minhas palavras, que talvez não passassem de murmúrios. Mas o sacerdote não parava de resmungar e me infernizava com suas advertências. “Você pensa que está sendo sincero, que está falando de suas apreensões. Mas está só roubando as palavras dos outros. Nada do que você fala é seu. Nada disso lhe pertence”, ele me ameaçava.

Estava claro o que Padre Guy queria: me afastar de meu mundo interior. Massacrá-lo, diluí-lo, fazer dele só uma nuvem de poeira. Levar-me a crer que ele não existe, ou, se existe, é só uma cópia, ou uma reverberação. Uma simples opinião, uma “falação”. Algo de que eu tinha, no máximo, a posse imaginária. Em um mundo em que nada mais pertence a ninguém, falar se torna muito difícil. Em um mundo em que as palavras, ou são sagradas e definitivas, ou pertencem a todos e perdem todo o sentido, falar de si e falar por si se torna uma tarefa impossível. Torna-se mais: uma rebeldia. Para isso Padre Guy estava ali: para me controlar e amordaçar.

Era uma situação estranha: eu tinha plena consciência de que Padre Guy não passava de um efeito de minha imaginação. Portanto: de que, mesmo estando fora, sentado à minha frente, ele era só um pedaço (incômodo, opressor) de meu mundo interior. Ele não estava ali presente em seu próprio nome, mas como um representante. De quem? De mim mesmo. Era isso: eu usava minha imaginação para atacar minha imaginação. Usava minhas próprias palavras (colocadas na boca do velho sacerdote) para me impedir de falar. Eu imitava Simon Axler, o ator que, um dia, não conseguiu mais representar o Hamlet sem se ver como um homem que representava o Hamlet, e não mais _ como fazem os grandes atores _ como o próprio Hamlet. Eu me tornava meu pior inimigo. Como se meu mundo interior se tivesse derramado e agora eu me afogasse em minhas próprias ideias. Haverá algo mais parecido com o mundo sem limites em que vivemos?

Iludem-se os que acreditam que a imaginação é só um adorno, ou um escudo. Que ela é algo que “vestimos”, ou sob o que nos escondemos. Ela está dentro de nós. Mais que isso: ela nos constitui. Nosso coração é uma ficção. Naquele auditório, porém, incapaz de tomar posse de minhas próprias palavras, não sei como cheguei ao fim de minha fala. As perguntas propostas pelos ouvintes foram variadas, sempre estimulantes, mas nem por isso me tranquilizaram. Enquanto eu tentava responder, Padre Guy balançava a cabeça, como se dissesse: “Como você pode ter coragem?” Ele repuxava minha imaginação para fora e a rasgava _ como se me arrancasse a própria pele. Transformava meu mundo interior em uma ameaça exterior.

Arrisquei-me a pensar, cheio de receios: que outra coisa, senão isso, faz a web? De repente, me vi enroscado na rede, eu que estava só em uma sala de conferências. O tempo se esgotou e recebi aplausos que não merecia. Quando dei por mim, Padre Guy desaparecera. Sei que tentei, mas sei também que não consegui dizer o que queria dizer. Com suas admoestações e suas caretas, o sacerdote me deslocara de mim mesmo. Roubara meu centro _ e eu deixei que ele fizesse isso. O mais grave: como ele não passava de um ser imaginário, como era só um sangramento de meu mundo interior, devo dizer melhor: eu mesmo fiz isso. Eu mesmo me impedi de falar. Eu mesmo me despi de mim.

Na saída, encontrei um querido amigo de juventude, o cineasta Murilo Salles, que se escondera em algum lugar da platéia. “Você viu o padre que não parou de me perturbar?” _ eu lhe perguntei. Foi gentil, mas firme: “Não havia padre algum”. Notou, porém, meu desamparo e se esforçou para me ajudar. “Mas, se você diz que ele estava ali, ele estava ali”. Era só o que eu precisava: de cumplicidade. Quanto a Padre Guy, ele foi só uma imagem, como esses milhares, milhões de imagens que inundam a web. Foi só uma voz, desse emaranhado de vozes em que nos enroscamos cada vez que acessamos a rede. Uma parte de mim que, derramada no mundo enloquecido das imagens, enfurecida, passara a me atacar. Pensei tudo isso, mas nada comentei com Murilo. São ideias que, provavelmente, um cineasta não poderia aceitar. Um dia, conversarei com ele sobre isso.

Agora, graças à força das palavras, eu trago Padre Guy de volta a meu mundo interior. Agora ele está aqui, preso a essas linhas finíssimas, que nada são diante da brutalidade do mundo, mas que me sustentam (nos sustentam). Delicados fios de palavras, a que me agarro e que constróem aquilo que muitos julgam não mais existir, mas que apesar disso existe: a vida interior. Agora, novamente dentro de mim, eu o levo a se calar, e consigo escrever, sem a sensação de que um outro escreve em meu lugar. Ninguém mais escreve em meu lugar, eu mesmo escrevo. Pode não prestar, mas quem escreve sou eu. Isso aqui sou eu.

Já posso imaginar a mensagem de algum leitor furioso: “Você continua a não escrever para a web. Seus textos são longos demais, reflexivos demais, não trazem informações relevantes. Seu blog não é um blog”. É Padre Guy que, agora disfarçado de internauta, reaparece mais uma vez. Só pode ser.

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 + 14 =

ao topo