O conservadorismo brasileiro

Por Francisco Bosco
O GLOBO

As jornadas intensificaram ou enfraqueceram as forças progressistas da sociedade brasileira?

A votação expressiva a candidatos conservadores nestas eleições frustrou os que esperavam que as manifestações do ano anterior se consumassem em uma inflexão progressista nas urnas. Na esteira da decepção, não faltam os que têm reaquecido o discurso governista de que as jornadas de junho foram um tiro pela culatra da esquerda, agora supostamente respaldados pelo resultado em parte desastroso das urnas (de que, portanto, junho seria a causa). Gostaria de complexificar essa perspectiva.

Se entendo bem o argumento, a dimensão negativa de junho, contra a institucionalidade, contra os partidos políticos, logo destituída de pautas concretas (como aquela que esteve no estopim do movimento, pelo MPL), teria tido afinal um efeito de despolitização, enfraquecendo a diretriz institucional progressista representada pelo PT no âmbito do executivo e por deputados e senadores progressistas no legislativo — esses em parte substituídos por conservadores, aquele enfrentando uma disputa mais dura que as dos anos anteriores. Assim, a crítica radical ao sistema político, ao recusar participar de sua lógica, teria, da perspectiva prática, apenas o efeito de abrir espaço para a ocupação do espaço representativo pelos conservadores.

É oportuno problematizar essa perspectiva sob vários aspectos.

Há diversas hipóteses para a intensificação do conservadorismo nestas eleições. Uma delas é a de que uma parte da classe média, afetada em seus privilégios pela ampliação de direitos aos mais pobres, votou contra essas transformações, nos candidatos que melhor encarnam a recusa à democratização da sociedade brasileira em todos os aspectos (direitos de minorias, economia sustentável, programas de moradia popular etc.).

Seja como for, é fundamental notar, como o fez Diego Viana, que o conservadorismo brasileiro atual é um reacionarismo, logo não deixa de ser um sintoma evidente da atuação progressiva de forças progressistas. Daí ele falar de uma “dialética do triunfo conservador”: seu triunfo é sempre o atestado, ao mesmo tempo, de sua derrota.

Por outro lado, é importante observar que uma espécie de conservadorismo é inerente à condução política petista, desde que assumiu o poder. O reformismo fraco é a condição imposta pelo sistema político brasileiro — cuja lógica Marcos Nobre chama de peemedebismo — para que haja qualquer avanço social. É isso o peemedebismo: para cada passo à frente, um passo atrás.

Desse modo, lembremos que foi o PT — refém, como qualquer outro partido, do peemedebismo — quem permitiu o crescimento de um reacionário histriônico como Feliciano (ao rifar, em nome de outros avanços, a presidência da Comissão de Direitos Humanos); foi o PT quem anulou o ganho de junho da aniquilação da figura política de Sérgio Cabral, ao insistir na aliança em prol da eleição de seu sucessor, Pezão, em detrimento de um apoio maior à candidatura de Lindbergh Farias; foi o PT quem deu respaldo à bancada ruralista, sem cujo apoio a governabilidade é prejudicada (sem falar no financiamento de campanha que recebe do setor).

Então, quanto a junho: as jornadas intensificaram ou enfraqueceram as forças progressistas da sociedade brasileira? Justamente, não se pode medir essas últimas apenas da perspectiva eleitoral. Os protestos obtiveram vitórias sociais concretas expressivas, como a dos garis, no Rio; permitiram a movimentos sociais um poder de barganha muito maior junto ao governo (como no caso do MTST); e, principalmente, produziram um desrecalque dos conflitos sociais, dali em diante explicitados, sem o quê não se obtêm maiores avanços (quanto a isso, o hilariante lamento de alguém no hilariante “Encontro dos artistas pró-Aécio” é também sintomático: “As pessoas não se abraçam nas ruas”).

Tudo somado, entendo o argumento dos que consideram junho um tiro pela culatra, mas o caráter conservador desse próprio argumento (que, admitido, eterniza o reformismo fraco), no mínimo nos coloca em situação de impasse. Diante dele, tendo a pensar como Marcos Nobre: “É certo que a canalização da insatisfação pode se dar em um sentido progressista ou em um sentido regressivo. Esse é o risco inerente a qualquer aposta no aprofundamento da democracia. Mas uma coisa é certa: recusar o risco é jogar fora a oportunidade de transformação”.

Desde que, diante do risco regressivo, firme-se o pé nas conquistas possíveis. Por isso sou contra o voto nulo da esquerda neste momento. Há um conservadorismo inerente ao governo PT (é o que André Singer chama de “pacto lulista”). Mas é fundamental enfatizar que foi o PT quem melhor conseguiu, desde a redemocratização, dirigir o peemedebismo, extraindo dele os maiores avanços.

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