O coração de papel

Por José Castello
Blog A Literatura na Poltrona

A poeta Maira Parula me envia uma história que, de forma muito forte, ilustra algumas das coisas que tento, precariamente, pensar. Uma história do escritor britânico William Boyd. Chama-se “O fantasma de um pássaro” e está em Fascinação, livro a ser lançado, em breve, pela Rocco. Como ainda não li o livro, me detenho no breve resumo que Maira me trouxe.

Ferido em uma guerra, um escritor perde a memória. Não se lembra de mais nada, a não ser de um precário passado que, muito vagamente, tenta reconstituir. Parece ser a história de sua vida. Não é _ é um conto que ele escreveu. Tudo o que o escritor guarda de seu passado não é algo que viveu, mas algo que escreveu. Algo que inventou.

A história parece assombrosa. Mas será? Vivemos enroscados em ficções íntimas _ e é por isso, eu creio, que grandes romances e grandes contos nos soam tão verdadeiros. Quando lemos uma ficção, sabemos do que estamos provando. É como se saboreássemos, embalado em palavras precisas, um pouco do caos que levamos dentro de nós. O relato de Boyd ilustra isso. Quando nada mais resta, ainda resta a ficção, matéria de que somos feitos. Núcleo inaceitável, mas luminoso, de nossa existência.

Outro leitor, Alaor Mattos, me ajuda quando compara a literatura a uma “mulher enigmática”. Diante de uma mulher enigmática, todos nos sentimos cegos. Juramos que ela tem algo “a mais”; temos certeza de que esse “a mais” está ali, mas não conseguimos vê-lo. Eis o enigma de que se fala.

Nesse sentido, sugere Alaor, a literatura se aproxima da psicanálise. Cegas como o Édipo, ambas passam a “enxergar outras coisas” onde, com nossos olhos de preguiçosos, vemos sempre o mesmo. Qual é o enigma da mulher enigmática? Parece ser, antes de tudo, algo que supomos que ela tem. Algo que “inventamos” para ela. Uma ficção, não da mulher, mas de quem a vê. Ela é só um personagem que criamos.

Mastigo em minha mente os comentários que Maira e Alaor me ofereceram. Ocorre-me, então, que a literatura talvez opere _ como nos rituais primitivos _ com estados modificados de consciência. Exagero? Não me parece. Júlio Cortazar contava que adoeceu de muitos de seus livros. Houve um conto, em especial, creio que “O perseguidor”, que o deixou de cama. Não conseguia fazer mais nada, não se interessava por nada, estava inteiro dentro do conto. Cortazar “era” o conto _ repetindo, ou melhor, antecipando, a situação do personagem de Boyd. O resto (a vida) parecia não mais existir.

Para que a devastadora alteração não o matasse, a mulher lhe dava comida na boca. Cuidava dele, agarrando com firmeza os últimos laços que ainda o ligavam ao real. Foi nesse estado, de decomposição interior, que Cortazar terminou de escrever seu magnífico conto. Decomposição? Ou, prefiro pensar, de reinvenção?

Tais estados alterados de consciência _ se é que a expressão dos etnólogos nos serve mesmo _ não são sinais de demência, de possessão, ou de opressão. Ao contrário: era através deles que Cortazar se libertava das amarras do medo. Nenhuma magia, nenhum misticismo, nada de extraordinário! Só um simples homem que, ciente da potência das palavras, entrava _ como Alice em seu espelho _ em seu próprio livro. E como isso é simples! Mas como é difícil!

Também o leitor, é bom lembrar, “se ausenta” para ler. Sim: um leitor dedicado parece estar mundo da lua. Você o encontra em um vagão de metrô, agarrado a uma narrativa de Boyd. Ele está ali, bem vivo como qualquer um, exposto aos mesmos eventos e aos mesmos ruídos. No entanto, “não está” ali. Onde está então? Dentro do livro. Preso? Não: liberto. De repente, o trem para em uma estação, ou alguém o chama. Ele desperta, retorna ao real, e age como qualquer um.

Quando chega sua estação, o leitor se levanta e desembarca. Carrega o livro (carrega a si mesmo) debaixo do braço. Se alguém grita seu nome, ele responde. Mas logo depois mergulha de novo no livro de Boyd e “desaparece”. Todos o vemos, ele parece inteiro e sereno, dono de si. Mas, na verdade, não está mais ali. Como o personagem de Boyd, habita a narrativa que lê. Dela faz não apenas seu passado, mas seu presente.

Às vezes, nem chega a estar dentro de um livro, mas no interior de algo que alguém lhe contou. Eu mesmo experimento isso agora. Não li o conto de William Boyd. Tudo o que tenho são as breves palavras de Maira e nelas, confiante, mergulhei. Não existe leitor desconfiado, todo leitor acredita no que lê. Transporta seu coração para o papel, faz do papel o seu corpo, ou não merece esse nome.

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