O Cristo Recrucificado

Reli semana passada esse bonito romance de Nikos Kazantzakis. Na adolescência, assisti ao bom filme “Aquele que deve morrer”, de Jules Dassin, baseado nesse livro, exibido em Natal no Cinema de Arte do Cineclube Tirol. Em seguida, li o escrito . Na época, não percebi tantas diferenças entre um e outro. Agora, o livro me pareceu mais denso, sem que o filme deixe de ter qualidades – a presença de Melina Mercouri é uma delas, a atriz é uma daquelas forças incomparáveis em cena, muito bonita mas muito mais que apenas bonita.

Na releitura, lembrei da peça “Um inimigo do povo”, de Henrik Ibsen. Embora Kazantzakis trabalhe com o sagrado, espaço alheio ao drama social de Ibsen, os dois autores têm em comum a impossibilidade da verdade no mundo real do século XX, a violência da dominação contra quem ousa cobrar coerência dos valores alardeados socialmente.

A crítica ao sagrado que se metamorfoseia em ideologia, garantindo a dominação, se associa também ao anúncio da revolução socialista, efetivamente feito por seus inimigos pois os miseráveis sequer sabem o que é bolchevismo. Lido depois que a URSS deixou de existir, o romance reforça a nostalgia da revolução que não veio. Ainda hoje, inimigos da revolução derrotada continuam a reforçar seus privilégios com o espectro de sua iminente eclosão (lembram do “perigo vermelho”?). A revolução acabou mas a exploração dos mais fracos pelos dominantes continua de vento em popa.

O filme optou por um final em aberto – o combate entre as forças dominantes e os pobres deserdados está prestes a começar, os últimos têm tudo para serem derrotados, mesmo que sejam portadores metafísicos  da verdade. No livro, os deserdados retomam a estrada.

São desfechos igualmente fortes. Infelizmente,  o mundo continua entre eles.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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