O declínio do cinéfilo público

Por Amir Labaki
NO VALOR

A batalha em defesa do Cine Belas Artes, ao que parece perdida com o fechamento (definitivo?) marcado agora para a próxima semana, diz muito mais sobre o estado das coisas no campo da fruição cinematográfica entre nós do que qualquer tentativa de polêmica em torno da tépida luta pelo Oscar deste ano, que se encerra neste domingo. Afinal, tenho me perguntado cada vez mais, por que ainda se vai ao cinema?

As novas gerações baixam na internet, e danem-se as leis, os filmes que regularmente mais lhes interessam, muitas vezes antes que estejam estes acessíveis no circuito nacional. Outros preferem o mercado igualmente ilegal de dvds piratas, disponíveis nas calçadas do Oiapoque ao Chuí, por mais precárias tecnicamente sejam essas cópias.

Os cinéfilos menos ansiosos e eticamente mais responsáveis não têm problema em esperar a difusão dos filmes no mercado de dvds, de pay-per-view ou mesmo dos canais de televisão por assinatura, com intervalos progressivamente menores entre suas estreias em salas e nessas outras janelas. A transmissão paga pela internet é outro meio de consumo que se tornará mais comum no futuro próximo.

A experiência social do espetáculo cinematográfico cobra no Brasil um pedágio cada vez mais elevado, à parte o inflacionado preço dos ingressos, pelo desconforto do convívio concreto com os colegas de sessão. A domesticação da fruição fílmica, pela banalização das enormes TVs e dos potentes “home theaters”, parece ter eliminado a fronteira entre a sala de casa e a sala de cinema. Hábitos privados invadiram a esfera pública, tornando-se normal, por exemplo, falar alto e utilizar celulares durante as projeções.

É possível, claro, ver neste fenômeno uma extensão para a sala de cinema da barbarização da vida cotidiana nas cidades. Todos os dias testemunhamos, quando não sofremos diretamente, a selvageria de motoristas que desrespeitam faixas de pedestres, avançam sobre transeuntes, desprezam semáforos e guerreiam outros carros. No mais das vezes, por aqui, são curiosamente aqueles que dirigem os automóveis mais caros e, quase sempre, empunham os celulares de última geração.

A privatização egocêntrica da esfera pública tampouco se resume às poltronas dos cinemas. No mais sofisticado restaurante, somos submetidos aos detalhes da agenda pessoal ou das miudezas profissionais de portadores de celulares das mesas ao lado. O assalto à paz e aos bons modos é rotina em qualquer local de compras ou academia de ginástica, pouco importa a região da cidade. A sala de cinema é assim uma lâmina apenas talvez mais transparente colocada ao microscópio para se examinar o esgarçamento da civilidade na vida urbana.

Para entendermos o que se passa nos cinemas, para além do espetáculo fílmico específico, antes que ler nossos críticos de predileção, é muito mais iluminador conhecer os argumentos do sociólogo americano Richard Sennett em “O Declínio do Homem Público – As Tiranias da Intimidade” (Companhia das Letras, 1988).

No mundo contemporâneo, escrevia ele já em 1974, “originou-se uma confusão entre a vida pública e a vida íntima: as pessoas tratam em termos de sentimentos pessoais os assuntos públicos, que somente poderiam ser adequadamente tratados por meio de códigos de significação impessoal”.

Cada pessoa, mergulhada em sim mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ela a totalidade da espécie humana. Em suas transações com seus concidadãos, pode misturar-se a eles, sem no entanto vê-los; toca-os, mas não os sente. Existe apenas em si mesma e para si mesma.

O parágrafo acima não foi escrito por Sennett sobre a Nova York dos anos 1970 ou por mim sobre a São Paulo atual. É uma citação de Alexis de Tocqueville, datada da primeira metade do século 19 e extraída do segundo volume de “A Democracia na América”, que serve de certeira epígrafe para “O Declínio do Homem Público”.

Ao discutir como uma certa “geografia pública” nasceu com a definição dos comportamentos tidos como adequados para a participação numa platéia de teatro da burguesia ascendente nos séculos 18 e 19, Richard Sennett nos convida a esboçar uma releitura para os dias presentes, em que este outro “conjunto de estranhos”, os espectadores das atuais salas de cinema, ajudam a erodir a vida pública, pelas tiranias da intimidades e outras mais.

Paradoxalmente, acho que as pessoas ainda vão ao cinema em busca de um certo tipo de comunhão social, provocados por um evento que passa pelas telas mas muito a transcende. Que tantos se empenhem em inviabilizá-la, talvez seja mais um dos processos de inversão pelos quais, segundo Sennett, o narcisismo se dá a conhecer.

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