O desaparecimento na livraria

Edney, vamos Edney!

Virei-me para ver a mulher sentada, quase gritando, na porta da livraria. Voltei-me com a cabeça querendo identificar a pessoa com quem ela tentava se comunicar. Todos pareciam distantes e continuavam em movimento. Um homem no caixa pedia informações.

Não precisa olhar nem um livro não! Insistiu ela, forçando-me a devolver-lhe o olhar e desistir do que tinha na estante. Perdido, parei em seus olhos cansados e me dei conta de que eu poderia ser o sujeito com quem ela falava, embora fosse uma completa desconhecida. Naquele momento, nada mais fez sentido. Senti-me estranho a mim mesmo e despenquei numa sinuosa situação de esquecimento.

Olhei minhas mãos pensando ser ainda criança, das que dão trabalho aos pais e deixam nas mães aquelas rugas. Quisera eu não ter sido tão genioso e ter lhe causado tamanho desconforto. Porém, minhas mãos eram as mesmas, assim como o meu peso e os meus pés enfiados nos velhos sapatos sem meias.

Minhas mãos continham os mesmos traços de quando entrei na livraria e a mesma aliança no anelar esquerdo. Quem sabe aquela senhora fosse a minha esposa e o meu esquecimento fosse decorrência de alguma deficiência. Podia, ao contrário, estar tendo um lapso de lembranças.

Reparei que ela tinha olhos exaustos e o cabelo louro maltratado, insuficiente para esconder as marcas do tempo. Talvez, eu não fosse doente coisa nenhuma, só estivesse comendo um troco. Ela só agia assim para descontar as raivas que lhe fiz. O imperativo de suas palavras podia ser o descabimento de quem sofreu do marido uma vida inteira. Agora, não suportando mais, resolvera impor-se, levando-me a temer o desprezo. Eu estava resignado por não compreender seus atos e só me restava obedecê-la devido ao medo de perder o que antes parecia impossível.

O alheio logo faria sentido. Em breve eu estaria reconhecendo a vida que, por um instante, deixou de existir. Não me lembrava dela, mas também não me lembrei mais de mim. Eu era também um estranho. Apenas um indivíduo com os mesmos sapatos, a aliança na mão esquerda e nenhuma memória. Somente um corpo diante de outro corpo, ambos desconhecidos.

Ela então juntou os papéis que folheava sobre a pequena mesa e ergueu-se da cadeira onde estava sentada desde que a vi. Esperei que agarrasse a minha mão e me levasse consigo de volta para a nossa vida, quando fomos atravessados por um senhor com a aparência debilitada de quem sofreu algum trauma cerebral. Com dificuldade, ele catou a mão dela e os dois saíram porta a fora.

Minha mulher que estava num dos departamentos na entrada da livraria, aproximou-se de mim concentrada numa revista e eu a segui até a seção de livros de bolso.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

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