O desencanto com a política

Por Homero de Oliveira Costa

No dia 4 de outubro de 2012, a três dias das eleições para prefeitos e vereadores, o jornalista Ricardo Kotscho publicou um artigo com o título “Desencanto com a política na eleição em São Paulo”. Para ele nem parecia que estava a 72 horas das eleições “O único sinal de que teremos eleições em São Paulo neste domingo se encontra nas bandeiras empunhadas por cabos eleitorais contratados pelas campanhas e ouve nos carros tocando jingles dos candidatos”.

Para ele “O desencanto com a política domina esta eleição em São Paulo como nunca viu antes, nem mesmo na época do regime militar, em que não havia eleições diretas para prefeitos de capitais, governadores e, claro, presidente da República” e continua “Caiu à audiência do horário eleitoral na televisão, sumiram os militantes não remunerados, com camisetas, broches e argumentos, tentando convencer eleitores a votar no candidato do seu partido. É absoluto o desinteresse em discutir as propostas dos candidatos”. Para ele, há a responsabilidade também da mídia “com o julgamento do mensalão dominando o noticiário político nos últimos dois meses, a campanha eleitoral acabou ficando em segundo plano”.

De fato, havia um clima de indiferença não apenas em São Paulo, mas por todo o país. A campanha mesmo era basicamente na televisão. Como disse Kotscho, mesmo em São Paulo, com seus 12 milhões de habitantes, os comícios não conseguiam reunir mais de 3 mil pessoas.

O resultado das eleições confirmou o diagnóstico de Kotscho. Mesmo com voto obrigatório em torno de 1/3 do eleitorado, mais de 35 milhões de pessoas ou se abstiveram ou votaram em branco ou anularam o voto. Em são Paulo, foram 2.490.513 de pessoas aptas a votar, mais dos que os votos de José Serra (que teve 1.884.849 de votos). O mesmo ocorreu em várias capitais (Em Natal, o 2º. colocado, Hermano Morais, teve menos votos do que a abstenção eleitoral: 87.330 votos, com abstenção de 96.422 (18,32%) somados aos votos nulos e em branco, ultrapassou os 146 mil, próximo dos votos do 1º. colocado, Carlos Eduardo (PTD) que teve pouco mais de 153 mil votos). No Rio, a abstenção foi de 20,45%, equivalendo a 965.214 votos, que somados aos votos em brancos e nulos, chegaram a quase 1 milhão e 500 mil.

Para o senador Álvaro Dias (PSDB/PR) as eleições demostraram o desencanto dos eleitores com os políticos e a falência dos partidos que para ele “são apenas siglas para registro de candidaturas”. O senador também criticou as “incoerências das alianças partidárias” que “visam tão somente ampliar o tempo de propaganda gratuita”.

O desencanto com os partidos e a política de uma maneira geral tem sido constatado em várias pesquisas, como as do Instituto Latinobarômetro na América Latina, pelo menos desde 1995. Nos Estados Unidos, para Michael J. Sander “a desilusão com a política aumenta entre os cidadãos, cada vez mais frustrados com um sistema incapaz de atender ao bem público ou enfrentar questões que realmente importa” (“O que o dinheiro não compra”, p.18). No Brasil, o Ipos Public Affairs fez uma pesquisa para o TSE, como parte da campanha voto limpo, fez uma pesquisa qualitativa de 12 a 18 de junho de 2012 nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Goiânia, Salvador e Manaus e uma das constatações foi uma profunda descrença em relação aos partidos, os políticos e candidatos (“que prometem e não cumprem”) por uma parte expressiva dos pesquisados. Eles não percebem o voto com instrumento de mudança e mais: se o voto não fosse obrigatório não votaria.

A meu juízo, trata-se de uma questão mais ampla, uma crise do próprio modelo de representação, que não é específica do Brasil, embora o seu sistema partidário e eleitoral, contribua para ampliar a crise. O desencanto com a política é expressão de um hiato entre sociedade e Estado, da não participação ativa dos cidadãos, de sua inserção no espaço público que se reduz apenas ao direito de votar periodicamente, ou seja, inexistem canais de participação que assegurem uma interação mais permanente dos cidadãos com o Estado.

Os cidadãos não percebem os representantes como defensores dos seus interesses. O “homem comum” tem dificuldades de participar na politica tradicional, reduzido a simples espectador de uma encenação na qual se sente menos partícipe (embora sofra as consequências das decisões tomadas pelos que estão no poder). Há também o cansaço com os escândalos políticos que se sucedem e a consequente impunidade. Esse me parece ser o “pano de fundo” para tentar compreender o desencanto com a política.

Professor de Ciência política/UFRN

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