O dia de Bloom again – “o Bloomsday” 2010

Odisseu (Ulisses) – aquele que sofre o rancor dos deuses.

O dia 16 de junho é o dia de Bloom. O dia em que transcorrem as ações do romance Ulisses, escrito pelo irlandês James Joyce (1882- 1941). A vida toda são vários dias, um após o outro como na vida do sr flores (Leopold Bloom) doido para ter menino. O Ulisses de Joyce é um banquete literário dos deuses fundindo gêneros, épocas, o popular e o erudito. Um dia na vida de uma personagem. Um dia comum, uma vida comum como a nossa transformada em arte por um artífice de palavras que podem ser criadas: verdemuco, azulargênteo, sandalizantes, etcetal. Uma linguagem cheia de “puns” e outros sons. O Ulisses é um livro sobre o amor.

“Ele beijou os fornudos ricudos amareludos cheirudos melões do seu rabo,
em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga rêga, com
obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação.”

Joyce é um tenor/ musicista que fala constantemente de música. Em Ulisses ouvimos as personagens muito mais que as vemos. “Deus é um barulho na rua”

“Todos esses ruídos convergiram numa única sensação vital para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma multidão de
inimigos”

Bloom fala através de clichês. Por uma notação rápida, em stacatto, prosaica mais vivida e alerta, jorrando em todas as direções.

A primeira edição do Ulisses foi publicada no dia 02 de fevereiro de 1922, por uma pequena livraria-editora de Paris, a Shakespeare and Company, da poetisa Sylvia Beach. Uma verdadeira saga a edição desse livro que precisaria sair no dia do aniversário de Joyce (na capa o azul do mar grego). Joyce, um aquariano obcecado pelas datas e números.
Ulisses é uma epopéia moderna, considerado o maior romance moderno. Um romance enciclopédico e fragmentário. Romance enigma e labiríntico. Uma trepada lingüística. A 1ª edição brasileira foi publicada em 1966, com tradução do filólogo Antonio Houaiss. Em 2005, saiu uma outra edição com tradução da professora Bernadina da Silveira Pinheiro.
A estrutura do livro é composta de 18 capítulos, ou melhor, episódios. Os episódios são muitos diferenciados, não somente no conteúdo tratado como na técnica narrativa e estilo empregado. O Ulisses de Joyce acompanha a Odisséia Clássica, tanto no tema quanto na forma, e o significado dos personagens e incidentes têm correspondência com o romance de Homero, iniciador da literatura ocidental. Leopold Bloom é Ulisses e Stephanus Dedalus é Telêmaco, um poeta-artista jesuíta que sofre de consciência pesada por não ter atendido ao pedido de sua mãe para rezar quando ela se encontrava no leito-de-morte.

Penélope é a mulher de Leopold Bloom, que no romance recebe o nome de Molly Bloom. Cada hora do dia 16 é representada por uma ação-lugar-som-cor. Os dezoito capítulos podem ser assim nominados numa correspondência com a Odisséia, de Homero. Telemachia: 1-Telêmaco, 2-Nestor, 3-Proteu; a Odisseia: 4-Calipso, 5-Os lotófagos, 6- O Hades, 7-Éolo, 8- Os Lestrigões, 9- Cila e Caribdes, 10-Rochedos Errantes, 11- As sereias, 12-Ciclope, 13- Nausícaa, 14-Os bois do Sol, 15-Circe; Nostos: 16-Eumeu, 17-Ítaca e 18- Penélope.

O jovem Stephen sai da fortificação onde mora com dois colegas (a torre do Martelo), vai dar uma aula e depois passa na redação do jornal e segue vagueando pela cidade meditando e filosofando em um fluxo de consciência, “Vê agora. Aí todo o tempo sem ti: e sempre o será, mundo sem fim…”

O Ulisses de Joyce é um homem de meia idade, judeu dublinense, angariador de anúncios e chifrudo. Stephen Dedalus-Telêmaco, é um filho à procura de um pai ou destino, e Bloom o pai que vê em Stephen a possibilidade de uma transmigração afetiva em substituição ao vazio deixado pela morte prematura do filho. Stephen é o alter-ego do Joyce jovem. Uma mente brilhante povoada de imagens poéticas, de recordações de leituras e abstrações fragmentárias. Bloom fala através de clichês, numa linguagem prosaica que jorra em todas as direções. Enquanto Bloom está almoçando, observa duas moscas copulando, e lembra dos seus primeiros encontros com a sua esposa. – “ ela me beijou. E eu fui beijado. Entregando-se, acariciava seus cabelo. Beijou, ela me beijou. Eu, e eu agora”. Esse “stream of consciosness” é uma das características marcantes de Joyce. As personagens joyceanas pensam muito. Para Stephen, a arte possui dimensões moral e social. Só a belez é imortal, “ as frias estátuas da arquitetura grega oferecem refúgio temporário a um passado e presente igualmente insuportáveis…”
Ao fim do episódio de Nausícaa (cap.13), o “relógio de cuco” informa a Bloom que ele é agora um corno. Cuco, cuco, cuco… (cukoo-cloc; relógio de cuco e cuckold- corno).

Ele chega a um estado mental, onde sente menos ciúmes que resignação. O amor – fala Bloom: “Quero dizer o contrário de ódio…” E segue num fluxo de consciência em uma féerie verbal -sexual: “ ele cheirou os fornudos ricudos ameruludos cheirudos melões de seu rabo, em cada fornido melonoso hemisfério, na sua riquêga amarelêga rêga, com obscura prolongada provocante melonicheirosa osculação”
No final, Ulisses “retorna” para casa (Ítaca) e encontra Penélope (cama). A mulhervaginabismo onde o homem se perde e jamais retorna. Ítaca distante e labiríntica. O romance encerra com um pungente monólogo de Molly Bloom. “yes, I said yes I will Yes oui jái dit oui je veux bien. SIM EU QUERO SIMS.
O modernismo literário resgatou dois dos mais importantes legados os gregos: Ulisses ( séc VIII – IX a.C) de Homero, o movimento circular, que determinam a estrutura cíclica do Finnegans Wake – “Fnnicius Revém” ( Haroldo de Campos).
Os caminhos do criador não são nossos caminhos – replicou o sr Deasy (cap. 2). Os caminhos de toda a cultura ocidental começam na Grécia e terminam em Joyce, para recomeçar não sabemos ainda.
FIM AGAIN FIM AGAIN FIM

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