O Dia dos Cachorros – Capítulo I

TC

Com exclusividade, o SP inicia hoje a publicação, em capítulos, do romance O Dia dos Cachorros (Prêmio Câmara Cascudo – Prefeitura de Natal), do escritor paraibano Aldo Lopes. Esta segunda edição foi revista pelo autor e deverá ser publicada em breve pela editora Linha D’Água. Em e-mail, o escritor explica sua decisão de mexer no livro: “Eu não resisti e reescrevi. Não sou daqueles que santificam o texto depois que ele sai em livro. Texto é para ser remexido e reescrito, acho que o escritor não se livra nunca, nem quando o publica, contrariando o que disse um dia William Faulkner. Você pode anunciar que eu vou publicá-lo inteiramente no SP, em forma de capítulos. ( se você concordar, é claro). Somente assim terei o privilégio de estar perto dessa turma fodinha que colabora com o espaço, pois aceito sugestões e estou aberto a qualquer tipo de crítica. Vou botar meu pescoço na guilhotina. Com muito prazer”.

Leia crítica de Hildeberto Barbosa e André Ricardo sobre a primeira edição de O Dia dos Cachorros: aqui.

Abaixo o capítulo que abre a nova edição.

UM

JOÃO SEM-MEDO ESPERAVA DO CORONEL Barbaciano uma atitude mais dura, um chamamento às armas, e não aquela resposta sem firmeza, como se a dentadura estivesse fora do encaixe da gengiva. As palavras do coronel se espatifaram na ventania, uma ventania doida, prenúncio dos tempos da debulha. Toda época de colheita era assim: Nosso Senhor assoprava aquele mundão todo com os imensos foles do seu pulmão e mandava para os ares nuvens e mais nuvens de cisco e pó, deixando o milho em límpidas tulhas oleosas. Só na cata do algodão, em setembro, é que vinha a calmaria.

E lá se foi João no meio do tempo, capote desabotoado e as mãos nos bolsos, brigando com a ventania. O sol da tarde bordava a sombra de um morcego descomunal, enquanto ele imaginava os cavaleiros prestes a saltar sobre Princeza, as patas dos animais tirando faíscas nas pedras da Rua Grande. Mas João Sem-Medo sentiu o primeiro coice da velhice, sentiu e disfarçou, como se não fosse nada demais um homem maduro esmagar a própria sombra com suas alpercatas.

Antes do sol se pôr, o filho riscou o cavalo na porta. Pelo jeito, devia trazer notícia de desgraça, notícia ruim debaixo do chapéu, desgraça em primeira mão. Ele arrastou as esporas até o meio da casa, empinou o nariz e o verbo.

— Atacaram Piancó e mataram o padre!

— Miseráveis! — berrou o pai.

O cavalo depressa focou as orelhas no giro da porta, socou o barro com mais vigor e, empinando as patas dianteiras, relinchou com toda a força dos seus bofes. .

O resto da história veio depois, devagar, tão natural quanto o desatino do padre e seus companheiros empurrados para a morte, tão natural quanto o fato de homens cansados decidirem acampar às portas da cidade e pela manhã dois emissários marcharem em missão de reconhecimento. Piancó parecia deserta, mas alguma coisa não estava cheirando bem. A suspeita acabou se confirmando no momento em que um tiro esbagaçou o silêncio e arrancou um dos homens da montaria. O companheiro tentou em vão reanimá-lo e correu em busca de reforço.

Em pouco tempo os cavaleiros da Coluna concentravam fogo no rumo da casa do padre, de onde partiram os tiros. Ao cair da noite, suspenderam a ofensiva. O céu estendeu um cobertor escuro de nuvens, talvez para que ninguém visse as estrelas, talvez para que ninguém percebesse o que estaria para acontecer pelas ruas e becos onde vultos e mais vultos se moviam na escuridão.

Ao clarear da barra, viúvas inconsoláveis erravam de cadáver em cadáver, sob os olhares de curiosos amontoados na ponte para ver os dezessete corpos pendurados nos galhos de um enorme mulungu. Estavam todos despidos e sem o couro da face, mas apenas de um deles mulher nenhuma havia se aproximado, exatamente do homem que tinha as banhas da barriga lhe cobrindo a genitália, e a corda do pescoço dobrada em quatro, pois só assim pode suportar por toda a noite o peso do padre e seus pecados.

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