O Dia dos Cachorros – Capítulo II

Publicamos hoje o II capítulo do romance “O dia dos cachorros”, de Aldo Lopes. A obra, revista pelo escritor e que ganhará em breve uma segunda edição impressa pela Editora Linha D”’Agua, será publicada aqui, em capítulos, semanalmente. TC

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AGORA O MUNDO NÃO PRECISAVA MAIS de fio para transmitir o assombro do moderno, as patifarias dos homens embebedados pelo poder. Japonês estava debruçado na mesa da estação do telégrafo, quando recebeu a mensagem vinda da capital por obra e graça dos ares e do amigo de sempre. Ele pedia ao coronel que deixasse livre o caminho para os cavaleiros.

— Eu sei escolher meus inimigos — disse Barbaciano, olhando para o tempo e vendo ao fundo o lombo verde-escuro da serra do Livramento, talvez o único obstáculo no caminho de qualquer vivente.

É sempre assim: enfadado de léguas e planuras, de repente o cristão vê o chão se levantar em matos e lajedos, como os milagres difíceis dos santos de penhasco. É a serra no meio do tempo. Ele espia o sol, suspira e sente vontade de voltar ou ficar por ali mesmo, como fizera o velho Clementino, avô de Barbaciano, num tempo em que Princeza era só a lagoa e nem nome tinha. Quando o cavalo atolou os cascos na lama para beber água, Clementino viu que estava num lugar com vocação para povoado. Então desceu e riscou o chão com uma vara, já antevendo a casa, o curral e o arruado subindo a ladeira, as mãos estiradas em direção à capela.

Do Pajeú ao Piancó, Clementino deitou sementes na fertilidade dos baixios recortados pelas águas vadias e estradeiras dos riachos. Ali ele espalhou seus gados e seus domínios. E suas últimas palavras, entre um espasmo e outro, foi um pedido aos filhos: construíssem só para ele um túmulo dentro da capela. E todas as missas ali celebradas fossem em sufrágio de sua alma, para sempre, enquanto os tempos durassem.

Foi o mais jovem dos quebra-quilos, um bando de loucos que se bateram contra o Sistema Métrico Decimal. Encarcerado em Vila Nova da Rainha, Clementino teve a sorte de fugir. Sorte, porque o imperador deu ordens para executar todos os que participaram do levante. Os revoltosos invadiram as cidades, arrancaram editos reais, incendiaram cartórios, deram surras em juízes e combateram ferozmente as milícias das províncias. Quem não fugiu, acabou vestindo a “casaca de couro”, suplício em moda aplicado pelos puxa-sacos do imperador para seviciar os quebra-quilos. Os carrascos vestiam os prisioneiros e depois de jogar água sobre eles, deixava-os secando ao sol. Com o tempo, o couro comprimia o tórax, até acabar a última gota de oxigênio nos peitos do infeliz.

Depois da fuga, Clementino tomou o rumo do poente e parou para descansar numa fazenda das Espinharas, mas acabou arranjando trabalho. Dois anos de labuta. Em troca, tinha o de-comer e ainda ao final do tempo acertado — garantira-lhe o senhor daquelas terras —, casaria com uma moça da fazenda. Ao cabo de dois anos, viu que precisava da mulher por quem esperara tanto. O pai da moça não cumpriu o prometido. Mas quando a noite chegou, ele selou o cavalo, catou a moça e foi embora. Uma semana depois, comendo as frutas do mato e as caças que eram fartas, acabaram avistando a Serra do Livramento. Perto dali, se arrancharam para sempre. O lugar era lindo e mais adiante havia um rio que arrastava as águas dos córregos, das grotas, dos riachos, e metia tudo em cima de um serrote.

Princeza era um arruado de nada, quando apareceu um estrangeiro. Chamava-se Thompson e trazia um mapa com as indicações da lagoa, do rio das Bruscas e das cachoeiras onde se localizavam as minas. Pela primeira vez Clementino via um mapa. Mas o mundo que aquele desconhecido trazia enrolado debaixo do braço era um mundo de ouvir dizer. Naquele couro velho não apareciam onças, boqueirões, matas e travessias perigosas. Muito diferente do mundo conhecido de Clementino, palmo a palmo, pé a pé, no giro do poente, que se estendia até o recanto azul mais distante que ele um dia avistou da Serra do Pau-Ferrado, quando subiu no pico para fincar uma cruz.

O estrangeiro ficou uns dias, depois perdeu a paciência, enrolou o mapa, agradeceu a hospitalidade e enfiou-se no meio das onças, com dois negros e quatro índios, aboletou-se na Cachoeira das Minas e nunca mais voltou ao povoado. Impossível precisar a data exata em que surgiu pela primeira vez a conversa. Alguém andou espalhando que soubera por alto, assim, não muito direito, porque estava ventando demais e três meninos tangiam umas criações do outro lado da estrada. Um barranco — isso a criatura afirmou ter escutado bem — havia soterrado o estrangeiro e seus companheiros.

Mais tarde, a essa conversa somara-se outra, a de que Thompson havia matado os homens e, ao fugir, teria sido mordido por uma cobra, vindo a bater a caçoleta. Depois, outra versão, que se pensou definitiva, indicava que realmente o barranco despencara, sepultando os infelizes, mas acabou descobrindo um veio. E foi tanto ouro que o estrangeiro deu carga a três burros e sumiu com a fortuna.

Anos depois, uma macaca apareceu na história e mudou o rumo de tudo o que se sabia até então. Dizem que na hora em que o estrangeiro se preparava para partir, o animal saltou sobre uma das cargas e tomou o relho. O homem foi mordido ao tentar retirá-la da montaria. De manhãzinha a mão estava inchada e escura. Dois dias depois ele desconfiou que era gangrena e pegou o facão e decepou-a de um só golpe.

Na segunda noite, enquanto os animais pastavam e ele tentava dormir, o braço latejava. Desesperado, tomou novamente o facão, encostou o cotovelo numa árvore e com três golpes separou o antebraço do corpo. Não se sabe se ainda tivera forças para ir tocando os animais, ou se resolvera arriar as cargas e enterrar o ouro em algum lugar para vir buscar depois. Se alguma providência tomara, teria sido antes da dor atroz que foi decepar o braço por completo, aplicando golpes bem na junção da omoplata, na última e vã tentativa de conter os avanços da gangrena.

Muitos anos depois deram notícia de um relho ferindo o silêncio das noites mal-assombradas. A macaca tocando os burros carregados de ouro, sem destino, na noite eterna, enchendo de medo aqueles socavões. Os tangerinos bananeiros, que traziam de Misericórdia arroz, jabá e bacalhau, evitavam andar à noite pelo estradão. Muitos até penduraram as cangalhas e aposentaram os animais.

O mistério por fim estaria esclarecido se alguém um dia viesse a saber o que a alma teria dito a Caluzinha quando ela foi limpar a capela para os ofícios da novena. Caluzinha espanava as teias de aranha e espantava os morcegos. E nem tinha acabado de remover a sujeira, um clarão intenso inundou tudo. Então ela viu um velho de barbas brancas no centro da nave.

— O senhor é Deus? — perguntou Caluzinha, santificada, mandando a primeira chispa de idéia que lhe viera na cabeça.

— Quem sou eu, minha filha? — trovejou a visagem, apontando para o letreiro na pedra retangular, encravada na parede, a única sepultura existente na capela.

Caluzinha, que conhecia a capela como a palma da mão, nunca havia reparado no letreiro nem na pedra. Por isso prometera a si própria lembrar-se de mais tarde ir dar uma conferida. É que naquele instante, no rumo da aparição, tudo se diluía numa mancha borrada de poeira, nuvem e luz. Caluzinha tinha os olhos fora de órbita, embalada por um torpor que a mantinha quase levitando. A luz que vinha de lá entrava nela e ela ia entendendo tudo sem precisar de palavra alguma,

— Diga isso a seu pai! — ordenou a visagem — e foi-se com o turbilhão de luz, deixando atrás de si a penumbra e o eco de sua voz.

Caluzinha correu para casa e desmaiou no vão da porta.

— Essa menina precisa se casar! — disse a tia Minervina, enquanto a tomava no colo, tentando reanimá-la.

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