O dia em que o Presidente morreu

Por Demétrio Diniz

O ACONTECIMENTO COINCIDIU COM O DIA da morte de Getúlio Vargas. Foi uma alegria doida saber que o presidente morreu e naquela manhã não haveria aula. Os meninos atiraram os cadernos para cima, as folhas esvoaçando no ar, e um deles, mais afoito, e na euforia, chegou a esfarelar o cuscuz do lanche na cabeça do bedel.

No meio dessa farra ela surgiu de repente, enrolada num lençol de fogo. Pedia que a acudissem pelo amor de Deus. Os meninos atiraram punhados de areia, mas não houve jeito: o corpo da moça, ali mesmo no pátio da escola, estrebuchava e dava os últimos sinais de vida.

Avani foi o alumbramento da minha infância. Chegou lá em casa adolescente, e graças a ela tive pela primeira vez a noção de desejo. Em pé, na escada do muro, sorria posando para mim. Seu púbis era tão belo que hoje, quase cinquenta anos depois, ainda o tenho guardado na lembrança, com o mesmo fascínio de quando o vi aos dez.

Altas horas da noite sentia-a dentro da minha rede, o seu calor me aliviando da friagem do lençol ensopado de mijo. Chegava sem fazer zoada, deitava-se nua e me apertava contra o seu corpo. Amanhecia com a sensação esquisita de um estremecimento me sacudindo à noite.

Durante o dia não dava importância a seus olhos me pastorando, vigiando-me, o que me leva a concluir ter sido este o meu primeiro desperdício de amor, dos inúmeros que na vida se sucederiam.

Esteve um tempo alegrando uma casa triste, dentro da qual o meu pai, havendo tirado os pés do chão, e deslocado no ar como se atingido por uma bomba, esquecera as coisas boas da vida.

2.

A desgraça de Avani foi ter ido trabalhar na casa do juiz. Era um senhor falante, com a mania de fazer citações em latim. Gabava-se de falar o aramaico, a língua doce de Jesus, que aprendeu no mosteiro de São Sérgio, no alto de um penhasco, nas suas andanças pelo Oriente Médio. Cercava-o uma estória que, pela gravidade do conteúdo, se tinha medo de comentá-la.

O juiz Deocleciano morava com uma menina trazida da roça. Depois de muitas visitas à casa dela, e sendo ainda pagã, cavou o convite para ser seu padrinho. Após o batismo, levou-a consigo como filha adotiva.

Iracema já era uma moça por ocasião do sacramento. As poucas pessoas que a viram – pois o magistrado a mantinha trancada em casa – disseram ser uma mulher branca e muito bonita, mais formosa que a mulher do prefeito e a do doutor Nepomucemo.

A vizinha um dia ouvia-a vomitar seguidas vezes, um vômito curto, de engulhos, e desconfiou maliciosamente. Inventando de colher limões de um pé que estendia galhos para as duas casas, passou a espiar com mais atenção. Viu, numa das saídas da menina para o quintal, os peitos inchados, a barriguinha saliente e o olhar rasgado. Com sua experiência de mãe de oito filhos, jurou a uma amiga que a filha do juiz estava grávida.

Uma semana depois, pela manhã, Deocleciano escancarou a porta da frente de sua casa, chorando para todo mundo ver:

– Minha filha se matou.

Encontraram Iracema na despensa da casa, dependurada num caibro, balançando para um lado e para outro porque o cachorro Simão, a ela apegado, a empurrava com o focinho.

A estória do suicídio foi se diluindo, como se diluem as coisas no tempo. Deocleciano andou mostrando umas cartas vindas de Brasília, supostamente endereçadas à filha. E Iracema ficou na lembrança como a moça que morreu porque, apaixonada por um candango, não suportou o fim do namoro.

Quando Avani foi trabalhar na casa do juiz, cinco anos haviam moído a estória de Iracema, e o enforcamento não passava agora de uma notícia rala, como um vento pequeno que penetra nas frinchas das venezianas e não se percebe. Só os mais velhos se recordavam por completo da tragédia, e por serem cautelosos não queriam saber dela. De modo que, adolescente ainda, chegou à casa do magistrado sem ao menos saber que ali já morrera gente.

3.

Alguns meses depois, lustrando os móveis, Avani teria quebrado o vidro de uma cristaleira. Magoada com a admoestação grosseira do juiz, ficou vários dias sem comer e sem querer falar com ninguém. Naquela manhã de agosto ensopou o vestido com um litro de querosene, riscou um fósforo e chegou tangida pela morte no pátio da escola.

Mas outras versões surgiram. Numas delas se estranhava a frase que a moribunda, quase sem voz, soprou no ouvido de um dos alunos que a socorreram: ¨Esse menino não podia nascer¨.

A cidade era atrasada, iluminada por um motorzinho que funcionava num semestre e se quebrava no outro, e não se cogitava em fazer autópsia ou exumação. Por isso essa estória, como a de Iracema, e outras, foi sendo soterrada pelo tempo. E não se soube o motivo certo da morte de Avani.

Os anciãos mais uma vez preferiram não tocar no assunto. Mas aqueles que, por ventura chegaram à velhice desfrutando de intimidade com os amigos, comentavam entre eles ser muito estranho dois suicídios numa mesma casa.

4.

O juiz passou a entrar e sair rápido do fórum, e não despachava mais nos autos, só os folheando para frente e para trás. Andava inquieto e falando sozinho uma língua cheia de erres como o turco, o som parecido com latido de cão, em nada recordando o aramaico de Jesus. Gastou uma manhã carimbando folhas em branco. Já havia desperdiçado uma resma e pedido a segunda, quando o escrivão o tirou daquele transe, lembrando a hora do almoço.

Um dia se deixou seduzir pela magia de um circo e fugiu com a trupe. Muitos anos depois, uma romeira que voltava do Cariri, revelou tê-lo visto no Juazeiro. Envelhecido, a barba comprida e branca, vendia óleo de sucuri para asma e reumatismo. O réptil, capaz de moer um boi, enroscado em seu pescoço.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Vianês Júnior 30 de agosto de 2011 19:36

    Bravo, Bravíssimo!!!
    Maravilhoso, e esse “lance” do cachorro Simão, foi perfeito, arrebatador…
    Parabéns.
    Vianês Júnior

  2. Carmen Vasconcelos 19 de agosto de 2011 16:05

    Muito bom! Gosto que gosto dessa prosa de Demétrio.

  3. chico m guedes 19 de agosto de 2011 13:25

    me mate, mas não me maltrate, Demétrio

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