O Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo em 12ª edição

Edição refeita conforme a ultima edição revista pelo autor

“Já consultou o Cascudo? Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo”.  Carlos Drummond de Andrade

No mês do folclore leio a nova edição do Dicionário do Folclore de Câmara Cascudo. Fico feliz que a nova  edição tenha sido refeita conforme a ultima edição revista pelo autor. Edição conforme a 5ª e melhor edição do Dicionário, pelas Edições Melhoramento.

Valeu demais o nosso grito de repúdio ao que havia sido feito desde a Nona edição do “Dicionário do Folclore Brasileiro”, obra de uma vida inteira escrita por Luís da Câmara Cascudo. Edição da editora Global – Revista, atualizada e ilustrada (sic). E desfigurada. Verbetes e referências bibliográficas foram suprimidos e outros acrescentados.

Moacy Cirne escreveu um livro comentado as atrocidades cometidas ao Dicionário do Folclore Brasileiro – Uma Edição Desfigurada. Edição Sebo Vermelho 2010

Moacy comparou, contou e criticou a diminuição de verbetes, supressão e acréscimos sem justificativas. O dicionário é um livro que pode ser lido como um outro qualquer. É realmente um crime o que foi feito com o Dicionário do maior folclorista do Brasil. Referencia internacional. Edição finalmente refeita e restabelecida conforme escreveu o grande polígrafo.
Da 9ª a 11ª edições, versões capitaneada pela editora Global – além de todas as desfigurações semióticas, textuais, conceituais, históricas, regionalistas, etc, etc. -, impuseram uma auto-censura, impuseram censura onde não pode existir.
Não podiam ter expurgado, num index pessoal, palavras como Fumar, Ipandu, Mascar Fumo, etc.

Só para ficar no verbete Mascar Fumo, dicionarizado por Cascudo e suprimido na versão da Global desfigurada de Della Mônica et al.

Mascar fumo era uma verdadeira instituição no nordeste brasileiro. Um hábito arraigado e praticado por muitos que tinham no fumo de Arapiraca. Uuma verdadeira panacéia. Meu querido tio João Caicó (irmão de Papai) tinha os dentes todos amarelos de mascar fumo. Não passava sem um rolo de fumo > comprado nas feiras da cidade do Natal. O fumo servia para tudo, além de diversão e mascagem muito melhor que o chicles. Qualquer ferida, qualquer machucado meu tio colocava fumo mascado. Li muitos folhetos de cordel para o meu tio João que adorava-os.

Como querer mudar uma cultura. Como desfigurar a obra do nosso maior escritor do Rio Grande do Norte. Numa coisa não concordo com Moacy. Cascudo era, sim, um grande estilista. Escrevia gostosamente como um dengo. Como uma estória contada em noite de chuva pelas veias xerazades do nordeste.

O Dicionário de Cascudo é obra de uma vida. Uma obra coletiva onde jamais podia ter sido omitido as referências bibliográficas e colaborações que Cascudo obteve a duras penas com suas cartas perguntadeiras.

Moacy observou que escreveram um outro livro mantendo o mesmo título e autor. Não pode!

Finalmente temos de volta o grande Dicionário do Dicionário Brasileiro. A nova edição da editora Global repõe o que Cascudo escreveu e mantém os indispensáveis prefácios às várias edições. Ao final a Bibliografia de Luís da Camara Cascudo, por décadas.

Tenho todas as edições do Dicionário do Folclore de Câmara Cascudo. Atesto e dou fé sobre tudo que foi feito. Foram suprimidos verbetes com esse. – “GALINHA, Homero não a cita”. Uma referencia digna de Cascudo, que unia o universal com o regional. Que trouxe a grande literatura para o nosso folclore.

A 1ª edição do Dicionário foi publicada em 1954. A 2ª ed. 1959. A 3ª ed., 1972. No prefácio da 4ª ed., escreve Cascudo, em 1979. “Para essa 4ª ed., aliás 5ª por ter havido da 2ª uma reimpressão nas Edições de Ouro, trago correções, melhoria bibliográfica, alguns verbetes lembrados e reclamados pelos leitores e originais de Carlos Krebs e Moarci Sempé, gaúchos, e a homenagem aos companheiros falecidos depois de 1972”. No prefácio da 5ª ed. em 1983, Cascudo anuncia não haver alteração no texto do Dicionário devido ao seu estado de saúde.

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