O dinheiro na ficção machadiana

Por Ivan Maciel de Andrade
TRIBUNA DO NORTE

O romance “Quincas Borba” de Machado de Assis focaliza algo novo na ficção brasileira: a importância fundamental do dinheiro nas relações humanas, no plano das amizades e no das considerações sociais. Era uma temática até então inédita em nossa tradição romanesca. E que ainda se mantém muito pouco explorada em nossa literatura. Coube a Machado – emérito dissecador dos aspectos psicológicos de seus personagens – realizar essa nova abordagem de tom materialista.

Para começo de conversa, o dinheiro (para ser mais preciso: a inesperada fortuna de que se tornou herdeiro) é que trouxe Rubião de Barbacena, onde morava quando servia ao filósofo Quincas Borba. A herança iria transformar profunda e definitivamente sua personalidade e toda a sua vida.

Da mesma forma, o dinheiro é que o faz relacionar-se com o ambicioso e inescrupuloso Palha, que tinha como grande trunfo para ascender econômica e socialmente a sua belíssima mulher, Sofia, que ele expunha como valioso troféu. Palha usava o poder de sedução da mulher para realizar seus projetos de enriquecimento (sempre o dinheiro) e de consequente mudança de classe social.

Rubião, já no trem que o levava de Barbacena ao Rio de Janeiro, capitulara rápida e completamente aos encantos sempre oferecidos, mas nunca efetivamente entregues, da fogosa e sensual Sofia, tornando-se sócio de Palha (que o levaria à falência, apossando-se pouco a pouco, ardilosamente, de seu patrimônio). Na verdade, esse triângulo – que Rubião, e somente ele, supõe amoroso – tinha com vértice a estratégia de Palha para, através da mulher, esbulhar o apaixonado Rubião, fazendo-o acreditar na possibilidade de um romance que nada tinha de real, pois inteiramente baseado em mentiras e simulações. A beleza e sensualidade de Sofia levam Rubião às atitudes mais ingênuas e perdulárias. Palha assume uma posição dominadora, a que Rubião se submete, imaginando, com isso, conquistar a mulher do amigo, enquanto este o arruína impiedosamente. O ardil amoroso funcionou, portanto, às mil maravilhas, levando Rubião à miséria e finalmente à loucura.

Todo o entrecho do romance, em suma, é conduzido pelo poder dionisíaco e afrodisíaco do dinheiro, visto sob uma perspectiva humana, social, ética, comportamental (de amor e sexo), estimulando sonhos, traições, indignidades e até mesmo estados de desespero e perturbação mental (quando o dinheiro some e a pobreza reaparece para Rubião, revelando o que há de falso, hipócrita e interesseiro nas relações sociais em que ele se envolveu, na condição de homem detentor de grande riqueza). Estão presentes nesse quadro as tintas sutis da ironia e da visão pessimista da natureza humana próprias da filosofia machadiana, criando um cenário em que sobressaem a ganância e falta de escrúpulos de Palha, a frieza da bela e astuciosa Sofia (que serve de isca para fisgar Rubião e depená-lo) e o próprio Rubião, com um perfil de herói de tragédia grega adaptada ao capitalismo.

Evidente que esse é apenas um dos ângulos de abordagem dessa obra-prima da ficção machadiana. Ou seja, da literatura brasileira. E, não tenho receio de dizer, da literatura universal.

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