O dualismo eleitoral

Por Ricardo Antunes
FSP

Se a Bolsa Família é exemplo do mais puro assistencialismo, ela fez os “programas sociais” de FHC assemelharem-se a esmola dada ao final da missa

Terminou o processo eleitoral pautado pelo dualismo eleitoral, sem empolgação e exíguo em emoção. Resumido a uma disputa entre os dois blocos da ordem: de um lado, postava-se o tucanato desencantado e fraturado; de outro, o lulismo em alta, empurrado pelo líder, forçando para além do limite que a imagem da criatura fosse associada ao seu criador.

Na base, os capitais poderosos encontram-se ancorados em porto seguro, com a certeza de que, qualquer que fosse o resultado, a fonte do saque estaria preservada.

A eleição era, enfim, uma disputa definida pelos embalos do marketing -“ciência” que os capitais tão bem conhecem.

Por fora desse espectro, mais de 36 milhões de eleitores optaram pela abstenção ou pelo voto nulo ou em branco, numa manifestação multiforme, eivada de significação.

Foi também como escoadouro desse descontentamento que Marina decolou. Mas não sem assumir a questão ambiental sem tocar em nenhum ponto essencial, visando sempre acomodar e nunca atritar.

Posição que não poderia ser assumida por Plínio, uma vez que sua campanha dizia o que precisava ser dito sem fazer qualquer concessão midiática, herdando uma pequena, mas qualitativa, parcela do voto dissidente.

Dotados de uma programática muito assemelhada, a campanha não poderia ser diferente no segundo turno. Superavit primário, alta remuneração dos juros, política de estabilização monetária, incentivo ao grande capital, tudo isso era consensual no dualismo eleitoral.

Se FHC criou o Plano Real, Lula o continuou. Se o tucanato sempre remunerou os capitais, Lula, tal qual um Bonaparte, incrementou-os, levando até o agronegócio aos céus e deixando a reforma agrária no purgatório. Suas diferenças estavam, no fundo, pautadas pela intensidade da privatização e pelo elitismo do assistencialismo.

Se o primeiro governo Lula causou inveja ao tucanato, pelo arrocho realizado (basta pensar na taxação dos aposentados e nas “parcerias público-privadas”), foi na disputa eleitoral para a reeleição, em 2006, que uma jogada de marketing no comando da campanha lulista descobriu que a população estava exaurida, cheia de privação decorrente da privatização.

E fez dessa máxima não só a pedra de toque da vitória da reeleição contra Alckmin como da virada de Dilma sobre Serra. O tucanato, associado até a alma ao privatismo, não imaginava que a população pudesse dar o troco que deu.

Isso sem falar no fato de que, se a Bolsa Família é exemplo do mais puro assistencialismo, no seu aspecto puramente quantitativo, ela fez os “programas sociais” de FHC assemelharem-se a esmola distribuída aos pobres ao final da missa.

E, ainda, se o salário mínimo de Lula é um acinte para país que quer ser economia avançada, comparado ao de FHC ele se infla e exacerba o vilipêndio que o tucanato fez com o salário dos trabalhadores.

Por fim, deve-se acrescentar, pela importância que teve na eleição, que, durante a crise financeira, Lula acelerou o peso do Estado como forte antídoto, criando no imaginário popular a falaciosa ideia de que seu governo foi mais intervencionista do que de fato o foi.

Mas quando, com calma, se puder melhor compreender o reinado de Lula, seu primeiro mandato não poderá ser colocado debaixo do tapete.

Para concluir, vale recordar que são mesmo curiosas as similitudes e diferenças entre FHC e Lula: aquele terminou em alta o primeiro mandato e borrou-se no segundo; com Lula, deu-se o exato inverso.

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