O editor que não sou (versão completa)

Amigos e amigas:

Por erro de computação, enviei uma versão incompleta deste post. Por favor, desconsiderem a anterior.

Li o texto “O romancista que não sou” de Luiz Schwarcz, proprietário e dirigente da Cia. das Letras. É sempre interessante ver a auto-imagem de um editor: eles têm poder de decisão sobre o que sua empresa publica ou não. Sua auto-imagem requer uma contrapartida de nós, que escrevemos e não somos editores: como nos vemos, como vemos os editores?

Começando por nós, falarei de mim. Sou historiador, escrevo textos em minha área profissional desde o fim da graduação em História (publiquei meu primeiro artigo remunerado em 1975 e o primeiro livro individual veio 7 anos depois). Escrevo porque sinto vontade e é meu direito. Conseguir publicar é outra etapa: não sou proprietário de editora, submeto meus textos a esses empresários, que escolhem o que querem publicar de acordo com diferentes critérios, destacando-se o de mercado porque editoras são empresas.

Tenho publicado textos nos campos de História do Brasil republicano, Ensino de História, Relações entre História, Cinema e Literatura; eles saíram em editoras como Brasiliense, Papirus, Perspectiva, Paz e Terra, Marco Zero, EDUFRJ, EDUFRN e outras. Além de História, também estudei Artes Visuais e aplico no primeiro campo de pesquisa questões que aprendi no segundo.

Nenhum editor é obrigado a publicar meus textos nem eu sou obrigado a delegar a avaliação intelectual de meu trabalho aos editores. Trato-os respeitosamente como empresários de quem dependo para levar meu trabalho e um público ampliado. Debato intelectualmente meu trabalho com qualquer pessoa, sem lhes delegar a elas os rumos embora seja grato ao que me disserem.

Editoras são empresas poderosas. Algumas investem bastante em divulgação na Imprensa (anúncios, convites para jantares e outras atividades etc.). Fazem bem: livro é mercadoria. Mas não é só mercadoria.
Editoras não são críticas da Cultura. Li alguns textos debochando de Autores que enviaram seus originais para editoras: dá a impressão de que as últimas detêm a verdade do saber. Aviso aos navegantes: ninguém detém isso. Erros históricos clamorosos de editoras existem aos montes – Rimbaud, Cruz e Souza e Lima Barreto, para ficar somente em três, publicaram pouco, a duras penas e por conta própria. Sobreviveram suas obras ou as editoras que os recusaram?

Penso que seria melhor uma relação de respeito recíproco: os escritores escrevem seus livros bons ou maus, as editoras publicam o que quiserem, bem ou mal, porque são empresas privadas e detêm poder para isso.
Importante: a qualidade de um livro não deriva da editora que o lançou. Esse lançamento pode contribuir muito para a divulgação do livro (notícias em grandes jornais e revistas, entrevistas em programas televisivos de prestígio) mas não o torna bom. A Cia. das Letras, dirigida por Schwarcz, publicou tanto obras-primas (O mundo de ponta-cabeça, de Christopher Hill) quanto junk-books (Filmes proibidos, de Bruna Lombardi – uma senhora muito bonita que escreve num nível muito fraco).

Schwarcz evoca o exemplo editorial dos EEUU, onde editores recebem livros apenas através de agentes literários. O que isso significa? Antes de mais nada, estamos diante de uma estrutura altamente profissionalizada, que PAGA a escritores e agentes pelas mercadorias que eles geram ou fazem chegar às empresas editoras. No Brasil, o descalabro não se limita ao tempo de Lima Barreto ou Cruz e Souza: Orides Fontela morreu à míngua. A melhor poesia brasileira, hoje, circula em blogs, inclusive neste Substantivo Plural.

Examinar originais dá trabalho e requer gente especializada. Sei de editoras que jogam no lixo (ou deixam mofando num depósito antes de serem incinerados), sem lerem, originais de autores desconhecidos ou conhecidos mas pouco rentáveis. É um direito delas. Agora, não venham com argumentos de suposta alta cultura porque estamos diante de barbárie mesmo. Barbárie de mercado mas barbárie.

Precisamos discutir mais nosso direito à escrita. A internet ajudou a uma difusão mais democrática de produtos culturais, demonstrando que nem tudo deriva das mãos de grandes empresas – bons livros derivam do trabalham de bons escritores.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 15 de setembro de 2010 14:56

    Gustavo:

    Vc tem razão: é preciso separar a maioria das editoras (mercado, mercado) e uma minoria que tem um cunho autoral. Existe isso, aparece pouco – ausência de dinheiro que as legitime junto à midia.
    Abraços:

    Marcos Silva

  2. Marcos Silva 15 de setembro de 2010 13:02

    João:

    Considero Bruna muito bonita, má atriz (Diadorim, na Globo, foi patético! ponto para Tarcísio Meira, que desencantou em Hermógenes), má escritora. Aproximá-la de Zila Mamede é um convite à criação de uma Sociedade de Proteção à Memória de Zila Mamede!
    Mas faz sucesso, bem como Jô Soares e Chico Buarque (editados na mesma companhia, por sinal) – portanto, gera mercadorias lucrativas.
    Até avalio que Chico romancista, sem ser bom no ramo, estudou um pouco mais que os outros dois mas deveria continuar no ramo anterior – canção popular.
    Obviamente, ser bonita não é defeito. Acontece que uma coisa é uma coisa etc. E Cecília e Clarice eram lindas de cara e de escrita.
    Não lembro da face de Orides nem preciso lembrar disso para me extasiar com seus textos.
    Abraços:

    Marcos Silva

  3. João da Mata 15 de setembro de 2010 11:30

    Rapazes e Moças,

    Gosto da Bruna Lombardi, noa só pela beleza

    Escreve bem . É inteligente. Uma boa atriz
    .

    Eu editaria ela. Assim como edito a melhor poesia erótica feita no Brasil .

    Olga Savary, Hilda Hist, Leila Micollis, etc

    Assim tambem como edito

    Renata Pallottini, Zila Mamede, etc

    Maravilhoso e necessário o trabalho das editoras universitárias.

  4. Gustavo de Castro 15 de setembro de 2010 10:39

    Creio que não existe nenhuma diferença entre o “grande negócio da cultura” (aspas minhas), aplicado ao livro, tv, cinema, música, publicidade, etc. Tudo exercer a mesma lógica como vc bem frisou, Marcos. O VALOR CULTURAL está dissociado do PRODUTO CULTURAL mas parecem ter relação com a lógica do mercado. Ao contrário de vc, Marcos, acho que algumas editoras (não sempre) exercem sim a crítica cultural. Mas é raro. Qualquer análise mais distraída pode entender rapidamente que a Cia das Letras, a Record, a Objetiva, a Planeta (e todos os grupos portugueses e espanhóis), etc tem o mercado na mão. Existe também um c´riculo cultural viciado, por exemplo, entre Folha/Estadão X USP X Unicamp X grandes editoras que também precisa ser questionado. Outra crítica que precisa ser construída é para as editoras dos livros didáticos e para-didáticos que circulam para milhões de brasileiros. Conta-se aqui em Brasília que um dos lobbys mais forte do Congresso é dessas editoras. Belo texto. Marcus, sugiro que vc envie este texto para o Schwarcz. Abraço.

  5. Carlos de Souza 15 de setembro de 2010 10:02

    Concordo plenamente, professor Marcos. As editoras deveriam contratar pessoas especializadas para ler os originais enviados. Quem conhece do assunto não precisa ler mais que dez páginas para saber se o livro presta ou não. Depois é preciso também pagar bem ao autor, e fim de papo.

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