O Edward Hopper da Literatura

Por Sergio Augusto
ESTADÃO

Demorei a pôr os olhos no pote de ouro de John Cheever. Não por falta de pressão de dois ou três admiradores amigos, sobretudo de Ivan Lessa e Paulo Francis. Vivia então a trocar dicas sobre novos autores americanos com Rubem Fonseca (já leu Burt Blechman? Que tal James Kirkwood?), e por mais que também ele enchesse a bola de Cheever, fui empurrando com a barriga. Passava batido por suas histórias na revista The New Yorker; preconceito gratuito, envergonhado confesso.

Imaginava-o um precursor de Sloan Wilson e Grace Metalious, leitura mais fina porém redundante. Há, de fato, muitos “homens de terno cinzento” e cafard suburbano em suas narrativas, mas é outro o diapasão. Em algum ponto de 1973, intrigado com a canonização de Cheever pela crítica e por seus pares (Saul Bellow e John Updike não foram os únicos a considerá-lo “il miglior fabbro” da turma – “ele escreve como com a pena da asa de um anjo”, reverenciou o segundo), baixei a guarda e experimentei The World of Apples. A conversão foi imediata, com direito a êxtase e overdose.

É preciso ter um coração de pedra e a sensibilidade de uma alface para não se emocionar com os últimos dias de Asa Bascomb, uma espécie de Cézanne dos poetas que Cheever na certa criou pensando em Jorge Luis Borges e outros esnobados pelo Nobel. Liguei-me de tal modo ao protagonista de The World of Apples que, por algum tempo, ruminei a petulância de cometer um romance em que ele apareceria como amigo e confidente de um Borges brasileiro, exilado na Europa pela ditadura militar.

É possível que Paulo Francis tenha publicado algum conto de Cheever na revista Senhor, nos anos 1950; mas, que eu saiba, só em 1986 uma obra de sua autoria ganhou tradução no Brasil: a novela Até Parece o Paraíso, a última (e mais fraca) criação literária de Cheever, publicada pouco antes de sua morte, em 1982. Não era, muito pelo contrário, a melhor maneira de se introduzir entre nós o magnífico contista americano, mas foi o que a Companhia das Letras pôde fazer.

Estranhamente, nem a novela nem a pequena seleta de contos (O Mundo das Maçãs) que a editora em seguida lançou constam de seu catálogo online, esta semana enriquecido com o que há muito deveria ter sido feito: uma compilação mais robusta de narrativas curtas do autor, 28 Contos (357 págs.), selecionadas por Mario Sergio Conti. É menos da metade da coletânea The Stories of John Cheever, editada por Robert Gottlieb em 1978, mas o essencial da obra do contista ali está, impecavelmente traduzida por Jorio Dauster e Daniel Galera. Sua ficção mais longa – A Crônica dos Wapshots, O Escândalo dos Wapshots, Falconer (Acerto de Contas) e uma nova tradução de Ah What Paradise It Seems – saiu pela Arx, ao longo dos últimos oito anos.

Cheever levou para o túmulo o epíteto de “o Tchecov dos subúrbios americanos”, maneira chique de caracterizá-lo como um sutil observador da vidinha aparentemente feliz daqueles enclaves da classe média alta ao norte de Nova York ou já na Nova Inglaterra, onde o escritor passou a maior parte da vida. Cheever às vezes parece Tchecov, mas só parece, e só às vezes. O outonal cotidiano de Bascomb me lembrou mais o Vasco Patrolini de Crônica Familiar do que Tchecov, até por conta de seu pano de fundo, a região italiana dos Abruzzi.

Também o compararam a John O”Hara, cujo realismo, a rigor, pouco o influenciou. Cheever é um observador mais lírico, indulgente e irônico da burguesia ianque e seus percalços com o alcoolismo, a infidelidade conjugal e os efeitos corrosivos de tudo quanto é tipo de desapontamento. A solidão é o ar que seus personagens respiram, mesmo quando cercados de familiares e amigos. Secretamente desiludidos com seu modo de vida, quando liberam seus demônios interiores, o inferno toma conta do paraíso. Impressionado com sua rica fauna de desiludidos e excêntricos, Alfred Kazin qualificou os contos de Cheever de “lamentos sociais”. Acertou na pinta.

Celebrando a banalidade das pessoas e a “beleza moral” da natureza (para ele, numinosa em todas as suas manifestações), Cheever, difusamente influenciado por Fitzgerald, Hemingway e O. Henry, gerou, além de Updike, Richard Yates e Rick Moody. “Você é mais transcendentalista”, disse-lhe Updike, num tête-à-tête televisivo mediado por Dick Cavett, disponível no site do New York Times. Cheever concordou. O misticismo panteísta de Emerson também faz parte do seu acervo de influências – assim como, segundo o crítico Robert Towers, D. H. Lawrence e William Faulkner, dois mestres na fixação das qualidades sensoriais de um dado momento ou de um lugar em particular, não como adornos descritivos, mas como elementos essenciais da vida e do mood dos personagens. O conto O Enorme Rádio é puro Kafka.

Cheever é, acima de tudo, o Edward Hopper da literatura. Ele e Hopper compartilham o mesmo interesse pela solidão e pela luz, pela solaridade e pelo sombrio, pelas melancólicas residências da Nova Inglaterra e pelos soturnos quartos de hotéis de Manhattan. A poesia elegíaca que ambos extraem de realidades e figuras as mais prosaicas talvez explique a perene reputação de suas obras. Já vi referências a Cheever até nas telesséries Seinfeld e Mad Men (os Drapers moram em Bullet Park Road, endereço tão fictício e mítico quanto Shady Hill, Proxmire Manor, St. Botolphs e outros imortalizados pelo escritor). E a Hopper, well, até no romance Bullet Park ele aparece, oculto por elipse.

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