O “Efeito Zumbi”: fármaco-conservadorismo na chamada “Geração Y”?

Do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”

Banalização do consumo de antidepressivos e inibidores de apetite estaria criando uma nova forma de conservadorismo: o fármaco-consevadorismo? O chamado “efeito zumbi” (efeito colateral desses medicamentos caracterizado pelo mix de euforia, apatia, perda da capacidade crítica e sensação de irrealidade) estaria criando indivíduos meramente replicadores de clichês conservadores nas redes sociais?

Com a experiência de usuária assídua de redes sociais na Internet, minha esposa Tatiane fez recentemente uma interessante constatação e levantou uma hipótese. Primeiro a constatação: a crescente banalização do consumo de medicamentos antidepressivos e inibidores de apetites entre jovens na faixa dos 20 anos. Nas redes sociais trocam-se informações e experiências sobre estes medicamentos como se trocassem receitas culinárias ou links de vídeos do Youtube.

Ao mesmo tempo, Tatiane tem observado nessa faixa etária um mix de conformismo e apatia em relação aos problemas políticos ou do dia-a-dia (trânsito, enchentes, violência etc) combinado com conservadorismo político e moral.

Agora a hipótese: seria esse mix de apatia e conservadorismo uma decorrência de um chamado “efeito zumbi” desses medicamentos? Explicando melhor, sabendo que os efeitos comportamentais desses medicamentos vão desde a euforia até sonolência e sedação, isso não afetaria as avaliações cotidianas do indivíduo resultando em perda da capacidade crítica, incapacidade de se indignar e apatia gerando um novo tipo de “conservadorismo” baseado na mera replicação de clichês políticos conservadores e até de direita ? Estaríamos diante de um novo fenômeno de, por assim dizer, “fármaco-conservadorismo”?

Pesquisadores como o psicanalista francês Christophe Dejour e o historiador norte-americano Richard Sennett constataram que os problemas psíquicos como depressão, esquizofrenia, ansiedade são sintomas não apenas decorrentes da “vida moderna nas grandes cidades”, mas de um específico tipo de moderna organização do trabalho de empresas dos setores financeiros e de serviços.

Indo mais além na hipótese descrita acima, sabendo-se que o Estado de São Paulo (o estado onde é mais presente a tendência da des-industralização pela expansão dos setores financeiros e de serviços) é, atualmente, um dos estados de maior conservadorismo político (a perpetuação dos governos tucanos por 20 anos seria um exemplo), poderíamos estabelecer uma relação de causalidade entre o fármaco-conservadorismo e o conservadorismo político?

Hipótese meramente paranoica e conspiratória? Ou estaríamos diante de um novo conservadorismo das classes médias, desta vez não mais explicada por instâncias ideológicas, morais ou religiosas, mas, agora, resultante de uma fármaco intervenção que resulta em controle (intencional ou efeito colateral) comportamental e psíquico?

Vamos reunir algumas informações que talvez ajudem a corroborar com essa hipótese.

O “Efeito Zumbi”

Um artigo de Mark Gould, publicado em março no jornal inglês The Guardian em março passado, relata a declaração de uma paciente submetida a um tratamento psiquiátrico para depressão, Reka Krieg : “tornei-me zumbi depois de 12 meses, quando fui obrigada a tomar medicamentos estabilizadores do humor e anti-psicóticos”.

No jornal Folha de São Paulo de 03 de abril a matéria “Drogas Psiquiátricas provocam ‘efeito zumbi’ em pacientes”cita o depoimento de um operador de telemarketing sobre o efeito de um antidepressivo: “Sabe quando você está numa ressaca brava? Era pior. Saía da cama e sentia uma coisa paranormal, como se não fosse eu. Era outra pessoa me controlando e eu assistindo à cena, sem controle. O remédio fazia eu me sentir assim, um zumbi.”

“clínica ordinária que é a clínica das defesas individuais e coletivas mobilizadas e utilizadas pelas pessoas no exercício do seu trabalho para não enlouquecerem. [Essas defesas] têm uma coisa em comum: só funcionam com a condição de entorpecer a capacidade de pensar. A maneira de agüentar é não pensar, não se faz outra coisa senão trabalhar. Concentra-se e focaliza-se exclusivamente sobre o trabalho, pensa-se na eficiência do trabalho sem que se raciocine sobre as conseqüências do trabalho sobre o outro…” (VOLICH, Rubens Marcelo, “Entrevista com Christophe Dejours” In: Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, V. 4, número 3, p. 163).

Jovens de classe média na faixa etária dos 20 anos (a chamada “geração Y”) formam a geração totalmente imersa nas chamadas organizações de trabalho flexíveis. Como aponta o historiador norte americano Richard Sennett, a ênfase na flexibilidade levam essas organizações a mudar o significado de “carreira profissional”. A linha reta da carreira foi substituída por “Jobs”: as pessoas fazem blocos, partes de trabalho no curso de uma vida. De repente se desvia os empregados de um tipo de trabalho para o outro.

A Geografia da Depressão

O Sistema Nacional de gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) monitorou em 2009 o consumo de cloridrato de fluoxetina e do cloridrato de metilfenidato, que são, respectivamente, um antidepressivo e um estimulante do sistema nervoso central utilizado para combater o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. No ano passado, 3,5 toneladas do antidepressivo e quase 175 quilos do estimulantes foram consumidos.

Segundo a Anvisa, a fluoxetina apresenta indícios de abuso e desvio de uso para outras finalidades. Já o metilfenidato é foco de estudos e questionamentos sobre a utilização em massa e efeitos secundários. Esse medicamento vem sendo usado para emagrecer, por exemplo, por empresários e estudantes.

E por que os bordões e clichês replicados são sempre conservadores ou de direita? Por trazerem soluções fáceis e de desgaste psíquico menor. Lembra a expressão “pressuposto da privada” formulada pelo sociólogo norte-americano Philip Slater : para problemas críticos, soluções simples, como apertar o botão da descarga (“A Busca da Solidão”, Zahar, 1977).

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