O elogio sem truques do amor comum

O amor não é assunto para os jovens, intensos e sempre insatisfeitos. A escritora inglesa Lisa Appignanese participa desse ponto de vista e não teme defendê-lo vivamente. Em recente entrevista à imprensa, a pretexto do lançamento do seu livro “Tudo sobre o amor” (“All about Love”) em nosso país, ela antecipa que faz nesse livro o elogio do amor comum, “(ordinaire love”) enquanto chama a atenção para a sua relação frouxa com o sexo, o que a coloca em reta de colisão com postulados “sexistas” do feminismo contemporâneo.

Madura, feições pouco comuns para uma britânica de nome e sobrenome italiano, o que sua origem polonesa ajuda a explicar, crescida entre a França e a ilha dos bretões, Lisa é diretora do Museu Freud de Londres. E aí se fecham outras conexões entre a escritora e o amor comum, em oposição aos amores incomuns, incluídas as suas modalidades patológicas, algumas das quais profundamente estudadas pelo pai da psicanálise.

Lisa prefere, porém, não adentrar as vias abertas pelo médico vienense na patologia dos afetos. Não agora. Prefere partir de portos familiares, embora admita que num futuro livro tratará do tema. A preocupação que a absorve atualmente parece ser a de propagar as virtudes de um amor do qual não se espere demais, por ser essencialmente comum, o que lhe confere uma margem de erros mais razoável do que as que cercam as expectativas mais ansiadas, no que têm de angustiantes.

Por essa razão, a abordagem de Lisa dispensa os pares opostos, sem abrir mão de fracionar o seu próprio objeto de análise, como quando opõe o amor comum ao patológico (uma modalidade do “amor incomum”, com certeza). Mas é evidente que há outros pontos de vista em jogo, sobretudo na semana em que ainda se ouvem os ecos das festividades de mais um dia internacional da mulher.

A data, aliás, não passou incógnita pelo olhar atento de Arnaldo Jabor. Conhecido pelo pendor que nutre pelos antípodas, o colunista não poupou exemplos dessa modalidade, o mais célebre dos quais retirou da gaveta de surpresas de Lacan, o “Freud gaulês”, sempre contundente e sentencioso: “A mulher não existe”. A razão, segundo ele, seria a falta de “algo que as una”.

Na verdade, a frase de Lacan é apenas um pretexto para Jabor debulhar clichês sobre a mulher, como: “A mulher não é um enigma”, ou “As mulheres têm uma queda pelo canalha”, “as mulheres querem ser decifradas por nós, mas nunca acertamos no alvo”, entre outras. O defeito desse tipo de sentença é que, passado o impacto da sua leitura, se recai de imediato no sem-sentido.

Lisa prefere enveredar por outras vias. Uma delas a leva a constatar que “o sexo é uma mercadoria mais fácil de achar do que o amor”. Mas longe de constituir um obstáculo, ela sugere que essa é uma boa razão para que se persevere na busca do amor, alvo mais difícil e, por isso, mais desejável, independentemente de que lado se esteja do espectro dos gêneros. No fundo, ela quer dizer que não se deve desistir da ideia de que podemos amar e ser amados, embora o sexo esteja aí, cada vez mais ao nosso alcance.

Voltando então ao jogo das dicotomias, é possível dizer que o amor é uma busca incerta, ou, lançando mão de uma frase consagrada por Jabor numa canção de Rita Lee, que “amor é sorte”. A contraparte é igualmente imprevisível: “sexo é escolha”. O colunista e a roqueira sabiam exatamente do que falavam ao escrever essa canção, candidamente intitulada “Amor e sexo”. O sexo é óbvio; do amor, sabemos pouco e mal.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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