O encontro em seu último dia

Como prognostiquei em meus textos anteriores, o I Encontro de Escritores de Língua Portuguesa terminou, ontem, deixando saudades e um saldo extremamente positivo no que diz respeito à qualidade dos debates e programação correlata, além da íntima interação entre escritores e público.

Na mesa de ontem a conversação elevada se fez num ritmo dinâmico, quase frenético, com sofreguidão, face ao estilo impresso pelo mediador Tácito Costa, que correu todos os riscos possíveis pela posição “hiperativa” e, aí sim, um pouco pirotécnica, que foi eleita, e, mesmo assim, saiu incólume e vitorioso. Seu estilo, inclusive, lembrou a forma como conduz este SPlural, às vezes permitindo impressões levianas e irresponsáveis, mas sempre centrando o foco no calor e na qualidade dos debates.

Esse estilo permitiu, inclusive, que no evento de ontem fosse dada a palavra a um estudante que, de forma extremamente agressiva contra a organização do evento, chegou a proferir insultos a esmo e, na maior parte das vezes, injustos. Imediatamente após esse momento, Tácito acreditou ser o melhor caminho dar a palavra à organização para responder.  Rodrigues Neto, Presidente da Funcarte, tomou a melhor posição: sugeriu o prosseguimento do debate.

Voltando-nos ao debate em si, acredito que quase todos tiveram um desempenho brilhante. Os debatedores prenderam a plateia de maneira competente e inteligente.

Agualusa chegou a ler, de forma inédita, um capítulo de seu mais recente livro, que – afirmou – foi terminado durante o voo até Natal. Foi surpreendentemente satisfatório saber que no livro, um romance em que conta a história de nossa língua, aparecem personagens que nos são caros e íntimos, como Felipe Camarão. Ah! Percebi, também, uma claque feminina em torno de Agualusa, que deixou Tácito em certa dificuldade num dos momentos do debate em que havia solicitado o fim da fala do escritor.

Ondjaki foi o que provocou mais risos e descontração, com histórias engraçadas de sua avó e de outros parentes em torno da tecnologia e da internet. Fez, também, algumas outras boas análises sobre os temas postos. Jogou bem para o público.

Pablo fez uma profunda análise, permeando sua visão sobre as novas tecnologias através de uma certa investigação filosófica, inclusive propondo uma revisão ética dos instrumentos da rede, propugnando por códigos de conduta para que não se tranforme o ambiente virtual numa verdadeira selva. Será que é possível?

Jorge Salomão se saiu relativamente bem, trazendo um lado poético ao debate, apesar de sua análise ter tangenciado um pouco a linha e o tema propostos.

Paulo Markun mostrou toda sua experiência de jornalista e escritor das antigas e, evidentemente, sua atuação à frente do Roda Viva da TVE. Todas suas intervenções foram oportunas e certeiras, ilustrando os assuntos debatidos com exemplos palpitantes e frescos. Falou, com conhecimento de causa, acerca da novas tecnologias, principalmente acerca da televisão digital que já está aí, na crista da onda.

Paulo Araújo, convidado de última hora, surpreendeu com sua sensibilidade e acuidade intelectual, mostrando as experiências que teve no período em que viveu em Angola e dando contornos curiosos e encaixados ao debate, como quando leu uma mensagem recebida naquele momento no seu celular e que se tratava de um e-mail poético enviado expontaneamente de uma amiga que estava chegando em Angola. Paulo agradou.

Enfim, assim como se passou nos dois dias anteriores, nessa sexta-feira pudemos nos deliciar, mais uma vez, com um nível excelente de debates sobre a língua portuguesa e os temas que pertinem dentro dessa especial relação com os escritores. Graças a Deus, não houve desistências, retrocessos, nem sequer listas negras (por sinal, uma expressão politicamente incorreta). De parabéns, pois, a organização, os mediadores, os conferencistas, os debatedores, os artistas e músicos, os jornalistas de boa-fé, e, evidentemente, o público. Parabéns a Natal e parabéns especiais à língua portuguesa.

E que nos retorne, agora, o ENE!!!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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