O Engenho de Zé Lins em seu centenário

Em junho próximo o SPlural completa quatro anos e o escritor José Lins do Rego completaria 100 anos no dia 03, se vivo fosse. No ano do seu centenário, lembramos de um belo filme sobre a sua vida e amigos, e iniciamos as comemorações dessa importante efeméride literária.

“O menino é o pai do Homem”
M. de Assis, epígrafe do documentário.

O engenho de Zé Lins é um documentário para além de humano sobre a vida do escritor José Lins do Rego. Um escritor, na opinião dos entrevistados, injustiçado pela crítica literária brasileira. Zé Lins escreveu mais de uma dezena de clássicos da literatura brasileira. Uma de suas grandes revelações literárias foi o romance o Vermelho e o Negro de Stendhal, indicação de um amigo.

O filme traz depoimentos históricos de pessoas que tiveram uma estreita relação de amizade com ele. Para o escritor Heitor Cony o modernismo brasileiro começou no nordeste com Zé Lins, Raquel de Queiroz Jorge Amado e outros. Entre os grandes amigos de Zé Lins estava o escritor Gilberto Freyre. Um paralelo entre os dois escritores é esboçado com revelações surpreendentes. Edson Nery compara a relação entre eles como a amizade entre Montaigne e Boetie: Uma amizade amorosa. Para Ariano Suassuna Zé foi muito melhor escritor e romancista que Gilberto. Suassuna acrescenta; Gilberto só explorou bem o negro residente na casa grande.
O documentário é fiel á vida e obra de Zé Lins e mostra bem a vida nos engenhos de açúcar. Faz um apelo doído para o abandono a que foram submetidos essas grandes construções históricas. Engenhos que foram palcos da história brasileira e são partes de uma memória que precisaria ser preservada. Memória essa que os livros de Zé Lins ajudam a preservar. Doidinho é um dos romances de Lins muito autobiográficos. Fogo Morto e o Grande Sertão são os dois maiores livros da literatura brasileira, na opinião do escritor e diplomata Afonso Arinos filho. Pedra Bonita e Cangaceiro são outros grandes livros de Zé Lins. Glauber era um grande admirador de Lins e seu filme Deus e o Diabo cita de forma escancarada à “mãe do cangaceiro” de Zé Lins, comenta Walter Lima Junior, autor do belo filme Menino de Engenho. O documentário do competente e simpático Vladimir Carvalho é muito poético e faz várias citações ao filme de Walter Lima. São inserções muito apropriadas que valoriza o documentário e engrandece o filme de Walter lima tratando da mesma temática.
O homem Zé Lins tinha muitas oscilações de humor. Da alegria passava à melancolia. “Melancolia é assim como uma saudade de algo que não se teve”. Um acidente de infância portando uma arma de fogo vitimou um amigo de Zé Lins e essa culpa ele carregaria por toda a vida. O menino de engenho nascido na vida Pilar no estado da Paraíba era um flamenguista doente. O poeta Thiago de Melo foi um dos seus amigos mais próximos e presta depoimentos de muita humanidade. Ele declama e canta para Zé. Amigo na dor e tristeza. Na doença de Zé, Thiago teve que fazer sua higiene pessoal. João Conde, doido por um manuscrito, datilografava os textos de Zé. A confeitaria Colombo era um dos seus lugares preferidos no Rio de Janeiro. Na livraria José Olympio encontrava o velho Graça. Faleceu prematuramente aos 57 anos. No seu enterro estavam presentes os escritores e amigos Luis Jardim, Odilon Ribeiro Coutinho e Thiago de Melo. E a camisa do flamengo.
Um belo e revelador documentário sobre um dos maiores escritores brasileiro. Um filme que ajuda na compreensão da obra e vida de Jose Lins do Rego, um escritor injustamente pouco realçado pela crítica brasileira. Está de parabéns o Vladimir com mais esse belo documentário de uma vida esmiuçada e posta sobre a luz e foco das câmeras. Um escritor que precisar ser urgentemente ser resgatado do ostracismo e melhor conhecido pelos brasileiros.

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