O Erro de Benjamin

Kosta-Gavras,

aí vai o conto que deu título ao livro, que segue esta semana para a editora. Agradeço o incentivo dos leitores maravilhosos do SP, em especial os que comentaram, a quem faço questão de agradecer a um por um, declinando aqui, como reconhecimento e homenagem, os seus nomes: Aldo Lopes, Nabuco Pessoa, Chico Guedes, Rilke Vieira, Catarina Bezerra, Charles Phelan, Carmen Vasconcelos, Jarbas Martins, Anchella Monte, Denise Araújo, Tânia Costa, Edjane Linhares, Carlos de Souza, Laélio, Sávio, Vianês Júnior, todos contemplados com o beneplácito da riqueza intelectual. Perdão aos que não me lembrei do nome, mas que são igualmente merecedores do reconhecimento e homenagem.  O conto ¨O Erro de Benjamin¨dá título ao livro, e foi sugerido por você, que considero um talentoso entitulador, o maior dos potigures, entre outros talentos. O livro, escrito em 6 meses, é devedor da boa acolhida que os contos tiveram nesta revista virtual, sempre elaborada com paixão e esmero.

Um abraço do amigo de sempre, Demétrio.

********

Por Demétrio Diniz

Cazuza estava sentado por trás do balcão, numa dessas tardes modorrentas em que nenhum freguês aparecia. Uma pessoa, cuja identidade ele nunca revelou, o fez levantar-se como se tivesse levado um tiro:

– O seu filho está sustentando Péu – disse.

O menino estaria roubando dinheiro do pai para um tal de Péu, que se aproveitava da boa fé das crianças. Queria garantir uma vaga no time de futebol do vagabundo.

Cazuza vinha de uma batalha grande, suando para alimentar onze bocas, mais a mulher e uma aleijadinha sem braços que morava com eles. Havia outro filho, Canindé, vivendo por conta própria como caixeiro-viajante. Cazuza não pode acreditar no que ouvia.

Fechou a loja e veio para casa arrastando o filho pela orelha. No caminho passou entre os bodegueiros que conversavam sentados na calçada, esperando a hora de comprar o pão e irem embora.

Atingidos pela brutalidade, os irmãos espalharam choro e alvoroço pela casa, enquanto o cinturão estalava nas costas de Benjamin, o quinto na escadinha dos doze. O louro Nicomedes, na confusão, corria nervoso pelos corredores. Com mais de cem anos e cego de um olho, esbarrava nas paredes, desequilibrava-se, e saía torto pelo chão.

– Confesse, se não te mato – berrou o pai, jogando-o no chiqueiro do porco.

A resistência dele, fraca aos doze anos, cedeu e apontou para o banheiro que ficava no fundo do quintal.

Cazuza o largou na lama, e começou a revirar o telhado. Então era verdade. Roubava dinheiro e o escondia ali, socado entre as telhas. As cédulas apareceram, juntamente com papel de carteiras de cigarro, que também formavam notas. Não era muito dinheiro, muito mais papel que dinheiro, mas o suficiente para um bom castigo.

Chamou os filhos pelo nome, um a um, e com o seu costumeiro sotaque bíblico confirmou a sentença, segurando o menino pelo cós da calça:

– Este aqui é indigno de nossa morada. Vai dormir no chiqueiro do porco, e comerá uma vez por dia.

Todavia, como o leite da generosidade sempre foi o materno, a mãe aproveitou a noite para armar uma rede nas estacas do chiqueiro, levar uns sequilhos de goma e um copo d´água, e pedir paciência a Benjamin. Recitou os bálsamos para os aperreios da vida: não há nada como um dia atrás do outro, quando a janela de Nossa Senhora fecha, abre a de Jesus Cristo, ou uma boa calmaria se sucede à tempestade.

Usando artifícios de mulher, conseguiu do marido a mudança de Benjamin para a despensa. Ali ficou trancado por um mês. Deitado numa rede, mirando as réstias de sol que entravam pela cumeeira, esperava pela mãe, que, sob o pretexto de abrir o baú das bananas, vinha vê-lo algumas vezes no dia.

O primogênito Dorian foi o primeiro a se incomodar com o papagaio Nicomedes a chamar pelo vagabundo:

– Péu?

O louro a cada instante repetia o chamamento, trazia de volta a lembrança daquela tarde de humilhação, a parolice pelos corredores batendo nos nervos. A fala do papagaio ficava mais dolorida por lembrar a atualidade do sofrimento: o irmão isolado na despensa, onde os gabirus só não devoravam os queijos porque guardados no jirau, uma tábua suspensa por arames amarrados nos caibros.

Os irmãos não tiveram coragem de dar sumiço ao louro, soltá-lo no mato, onde, muito velho, na certa morreria. Afinal de contas era um herói: tinha sobrevivido a cinco gerações, merecia ser poupado. Dorian pegou ao pé da letra o provérbio chinês que lera numa louça branca na casa do rábula: ¨Se queres uma vida longa, corta a língua¨. Preferiram fazer isso a vê-lo morrer de fome.

Com o passar dos dias, porém, se impacientaram com o silêncio pelos vãos da casa. Incessante vinha à tona a brutalidade do pai, o erro de Benjamin, e estranhamente uma sensação de culpa, por terem roubado a voz ao único ser vivente, não humano, contemplado com o benefício da fala.

Já não comiam direito. Começaram por rejeitar a fressura – que contém língua e outras vísceras – de um cabrito abatido pelo pai na véspera, e carnes amarronzadas, e por aí foram se tornando esquisitos. Três deles acordavam de noite, no primo canto do galo, dando chutes violentos na rede, implorando por remédio para aliviar a dor de cabeça.

Foi Canindé, que acabara de chegar, depois de fazer a praça de São Gonçalo e Antenor Navarro, quem os tirou da crise. Apareceu em casa com uma radiola de pilha e um long-play debaixo do braço. A radiola tocava o dia inteiro Marinês e sua Gente, um conjunto de forró que fazia sucesso. A partir dessa data abafaram com o som alto as lembranças e o remorso.

O louro Nicomedes passou a gostar de aluá de abacaxi, que o deixava de porre, e descartava a mágoa com a mutilação dançando de asas abertas no poleiro.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Aldo Lopes de Araújo 7 de setembro de 2011 17:06

    Sempre vi a Bíblia como a mãe de todos os realismos mágicos e não-mágicos. O seu conto que dá título ao livro – esse comboio fuderoso do qual você é arrieiro e providenciador – tem o tempero das tópicas bíblicas, sem deixar de lado o agridoce da agilidade e da densidade dramática, que são elementos vitais para a boa realização contística.
    Mas penso que seu maior mérito aqui foi contar uma mera história de papagaio e transformá-la num excelente conto, sem resvalar para o “causo”, o caipirismo, o pitoresco, que só deforma e amesquinha o homem, o homem interiorano, sertanejo, sobretudo nesses tempos de carecas neo-nazistas e fundamentalistas islâmicos e cristãos, sem falar numa certa crítica equivocada e epigonista que insiste em discursar acerca de uma certa literatura nordestina. Vivemos na região mais genuinamente brasileira. Somos mais universais. Woden Madruga concorda comigo, um monte de gente, tenho certeza.

  2. Charles M. Phelan 7 de setembro de 2011 10:24

    Quero ver esse livro. Parabéns,

    Charles

  3. Carmen Vasconcelos 6 de setembro de 2011 16:37

    Excelente notícia essa do livro, Demétrio. Estou esperando.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo