O escritor

Por Madame Cabaret
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De suas ruínas, o suntuoso vocábulo ressoa a leveza do vento quando toca as rabiolas suspensas ao ar.

Como abandonar uma história sem deixar parte de si ao gozo do esquecimento. Não poderia escurecer o dia afim de não refletir seu rosto em minha mente. Apenas, com a neblina, deixar a visão turva e o coração perdido.

Mas estaria traindo a melhor parte de mim.

Marco Villena, o escritor boliviano mais belo que conheci. Seus escorridos cabelos negros, seus olhos repuxados, sua boca, seu pecado.

Marco não era falador. Contido em suas poucas palavras, era sempre belo ouvi-lo. Vê-lo.

É constrangedor imaginar que tal ser humano não era replicado em número suficiente para ser distribuído aos corações ausentes de um homem como o meu escritor.

Não o resumo à beleza que lhe era perfeitamente esculpida pela vaidade que com o molde de seu corpo jurou atingir a perfeição, mas sim às suas idéias que revolucionam vidas.

Certa vez, enquanto embebedávamos para por fim cedermos à carne, Marco me confidenciou o que, na visão dele, era ser escritor.

“Eu não sou um artista. Artista são filhos da vaidade, reféns de sua própria arte. Escritores não são artistas. Aqueles que dizem o contrário provavelmente não desfrutam da verdadeira vocação de se procriar histórias.

Então quem somos nós, os escritores? Nós somos o próprio deus em todo o seu poderio.”

Marco morreu de câncer aos vinte e três anos sem nunca ter publicado nenhum dos seus doze manuscritos. Como último desejo, ele pediu a sua esposa porto riquenha, de quem agora não me recordo o nome, que queimasse toda a sua obra.

Como amante, não tive nenhum poder sobre os textos que arderam em chamas, mas segundo o seu autor: a minha mortalidade demarca o fim da minha obra. Ainda que ela viva imortalmente, eu para sempre serei uma breve expressão daquilo que está contido ali.

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