O esplendor racionalista

Por Orlando Margarido
Carta Capital

Em coletânea de ensaios, Giulio Carlo Argan evidencia a arte como um meio para a crítica

Se a Giulio Carlo Argan não interessava tanto a arte quanto a crítica a respeito dela, é legítimo que alguns condicionem uma visão artística não a escritos quaisquer, mas aos do pensador italiano, corroborando assim o ponto de vista. O contexto parece ser exemplar no caso de Bruno Contardi, discípulo dedicado ao mestre, cujo empenho pode ser medido, entre outras iniciativas, pela organização de uma volumosa coletânea com ensaios do historiador pela Companhia das Letras. Publicada em 1983, A Arte Moderna na Europa – De Hogarth a Picasso (808 págs., R$ 89) conjuga 40 textos elaborados a partir dos anos 40 até a data-limite do lançamento, arco temporal que propicia estreita ligação a outros trabalhos de Argan. Porque, se há independência na produção enfeixada no livro, no que concerne ao destino primeiro de publicações especializadas ou no ensino na sala de aula da universidade, é possível constatar, contudo, o vínculo dos estudos ao pensamento maior e às características fundamentais da herança intelectual arganiana.

Um espólio reverenciado não só pela pluralidade de ideias, mas pelo variado foco dado a elas. Até morrer, em 1992, aos 83 anos, Argan publicou cerca de 50 livros, além de textos esparsos como esses agora reunidos. Tratou do Renascimento à produção contemporânea, mas avançou para territórios até então evitados como a arquitetura, o design e o urbanismo. “Não foi ecletismo nem versatilidade”, adverte na apresentação do livro. “Para acompanhar o fio de um pensamento expresso em imagens, é preciso apanhá-lo onde, amiúde imprevisivelmente, ele emerge e se revela.” E prossegue. “As obras de arte eram para mim os objetos que mais se prestavam a exercer a crítica, porque, não sendo em si racionais, podiam e deviam ser racionalizados para subsistir e ter valor numa cultura fundamentalmente racional.”

Avaliação sucinta e definidora da qual emerge a referência central do pensamento do estudioso, aquela de seu racionalismo, tornada a linha de conduta de Contardi nesta coletânea. Diz este na introdução: “Para aquela geração, um racionalismo drástico e intransigente era ao mesmo tempo uma obrigação intelectual e uma rea-ção sadia à estupidez profunda e ao provincianismo mesquinho e retórico do regime fascista. Para um intelectual, acredito, ‘ser racionalista’ e ‘ser inteligente’ eram sinônimos imediatos (…)”. Ele anota o tributo aos mestres de Argan. Este se filiava primeiramente ao filósofo Benedetto Croce – a quem atribui um inicial sentimento de idealismo – e depois ao crítico Lionello Venturi, com quem aprendeu não haver “uma crítica meditativa e outra militante, apenas uma maneira crítica de pensar, que vale para o antigo e o moderno”.

Como lembra no posfácio o crítico Lorenzo Mammì, responsável pela tradução e pelas notas, esta antologia é a terceira organizada por Contardi com textos de seu professor, mas foi publicada antes de Clássico Anticlássico, dedicada ao Renascimento, e Imagem e Persuasão, sobre o Barroco. O terceiro livro veio à tona quando o autor não mais militava na crítica de arte e sim na vida política como senador e anteriormente prefeito de Roma, cargo exercido entre 1976 e 1979. A edição ganhava assim a incumbência de manter aceso o pensamento de Argan na ordem do dia e com a face até então mais atualizada – aquela da costura feita pelo organizador com ensaios sobre os séculos XVIII e XIX e o período das vanguardas artísticas, num ponto final em 1940 delimitado por Argan. Os textos sobre a arte mais recente seriam compilados pelo próprio Contardi, que morreu em 2000 sem realizar o projeto.

Antes papéis esquecidos na residência do crítico, a partir dos quais Contardi fez suas escolhas, os ensaios em questão podem não parecer totalmente inéditos a um leitor de Argan. E não estará equivocado quem considerar relações com outras publicações de sua autoria, como Arte Moderna, de 1970. “Enquanto esta se insere nos trabalhos de intervenção, pesquisa e reflexão, a seleção de Contardi debruça-se mais sobre textos de cunho didático, uma preocupação muito presente no autor”, diz Mammì em entrevista.

Isso não significa, ressalva, a ausência no livro do caráter militante, de tom “áspero”, quando Argan sai em defesa de nomes como Picasso ou de instituições, a exemplo da Bauhaus e seu fundador Walter Gropius. Mais, são inovadores os ensaios em que o estudioso chama atenção à importância do pintor e gravador inglês William Hogarth, ou relaciona o design de Marcel Breuer à pintura de Paul Klee. “Depois dessa sacada genial ficou impossível olhar a cadeira de Breuer e não ver Klee”, diz Mammì.

É por dar coesão ao espírito racional de Argan que a coletânea se impõe. E isso se demonstra no início com o ensaio A Pintura do Iluminismo na Inglaterra, em que Argan parte do contexto geral do século XVIII para se fixar em Hogarth. Dele sabemos que é um arguto satirista da sociedade e seus valores. Mas Argan nos esclarece que como um dos nomes centrais da escola pictórica inglesa do período ele também- deu origem à noção de pintura burguesa, figurativa, e com ela a contrapartida no estímulo a um primeiro “criticismo específico e ativo”. A crítica deixava então de ser “diletante, virtuosa ou amadora”. Hogarth funda uma escola pública de pintura em 1749, mudando o eixo de valorização da arte adquirida pelos nobres no continente para uma produção genuína na Inglaterra.

Esse texto de 1963 abre o volume como a apontar que Argan trata um mesmo tema em vários momentos. Encerrado o ciclo Hogarth, em mais três textos, Argan se manterá próximo a ele ao se debruçar sobre os nomes que influenciaria e lhe seriam imediatos, como Joshua Reynolds, presidente da Royal Academy of Arts. Ou, na situação de oposição, William Turner, que em A Luz de Turner é aproximado de Hogarth apenas na semelhança de processo, numa pintura “revivida ou recordada”. O talento do primeiro se revelaria no sublime, o do segundo, no wit, na argúcia.

Esse vaivém no tempo terá ainda espaço nos temas do neoclassicismo, abordado de forma genérica e também específica nos casos do pintor francês Jacques-Louis David e de Antonio Canova, pintor, escultor e arquiteto italiano. A mesma ampla “cobertura” é dada ao Cubismo, “revolução que não tem igual na história da arte desde o Renascimento”, e aos seus fundadores, Georges Braque e Pablo Picasso. Correntes artísticas como o Cubismo não eram revolucionárias, “mas participavam do desenvolvimento natural da tradição figurativa e pertenciam com pleno direito à história da visão”. Picasso, merecedor de quatro textos, tem na análise de sua escultura por Argan um dos pontos mais debatidos. Mammì diz ser surpreendente o estudioso dedicar pouco espaço às esculturas cubistas, como Guitarra, o que pode ser explicado, acredita, por uma leitura ética do artista, em seu tempo um herói político. Não por acaso Argan trabalhará o caso Guernica com obsessão nos demais ensaios.

Não deve ser considerada também mera coincidência que, ao elaborar sua Introdução a Gropius, em 1954, Argan um ano antes tenha contemplado o conterrâneo Umberto Boccioni e suas “muitas e diferentes experiências artísticas antes da adesão ao futurismo de Marinetti”. Demonstrava estar atento às novidades e reações significativas na arte ocorridas nas primeiras décadas do século XX, especialmente no que tange ao abandono de um modo artesanal, do qual Picasso foi um dos últimos representantes ao recuperá-lo do passado, por um conceito de produção industrial. Em Gropius e sua escola de arte Bauhaus, Argan vê muito de seu próprio ideal de racionalidade e de sua crença num mundo melhor, razão que o leva a se envolver pessoalmente no urbanismo na figura de prefeito de Roma. Não só por abordar a obra do arquiteto alemão, mas também do colaborador constante deste, o também designer húngaro Marcel Breuer, além do americano Frank Lloyd Wright, Argan amplia o conceito do estudo da arte. Era impelido pelo dever de debater novas teorias para a reconstrução das cidades no pós-guerra. Pensava mais uma vez racionalmente, como disse que faria até o fim da vida.

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