O esquema de Sampaio

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Em algum dos anos de 1990, não me lembro qual, fui convidado pela Embratel para fazer uma conferência em rede, sobre “Macunaíma”, para os funcionários da empresa. Era curioso, àquela altura, que a palestra fosse acompanhada simultaneamente nas agências espalhadas pelo país, que as pessoas mandassem comentários e perguntas, e que esse fato duplicasse em outro nível de tecnologia a famosa onipresença do “herói de nossa gente”, capaz de se deslocar magicamente, em registro folclórico e rapsódico, pelo Brasil afora e adentro. Se a matéria-prima de “Macunaíma” são os mitos da cultural oral, e se Mário de Andrade convertia essa tecnologia oral em tecnologia escrita, literária, estávamos às voltas, ali, com a cultura informática e midiática, onde o livro morreria se não ganhasse nova vida. Minha surpresa maior foi perceber depois que a situação tinha sido arquitetada pelo vice-presidente da empresa, Luiz Sergio Coelho de Sampaio, com fins ao mesmo tempo gerenciais, pedagógicos, políticos e filosóficos.

Sampaio me deu uns vídeos onde expunha uma original e ambiciosa teoria da cultura universal. Segundo esta, todas as culturas operam com uma espécie de chave-mestra de natureza lógica. Essas chaves se reduzem à combinação de dois elementos primordiais, a Identidade e a Diferença. O monoteísmo judaico coincide com a criação de uma lógica da Identidade, enquanto o politeísmo trágico grego, com sua conflagração de forças cósmicas superiores e ínferas, é uma apoteose da lógica da Diferença. A cultura cristã, que nasce de uma relação entre essas duas, engendra uma lógica dialética em que coabitam Identidade e Diferença, o divino e o humano, o Uno e o Trino. E a cultura moderna, baseada na lógica clássica, aristotélica, do “terceiro excluído”, é o império da dupla Diferença, a diferença em estado puro, sem recurso a nenhuma Identidade transcendente: a lógica relacional absoluta que operou a redução digital de tudo quanto existe à diferença 0/1, vazia de conteúdos.

Mais interessante e desconcertante ainda do que essa primeira redução de grandes parcelas da história humana a uma espécie de caleidoscópio dançante de lógicas é a afirmação de que as culturas travam entre elas, e consigo mesmas, relações complexas de desejo recalcado, de fingimento e de superação. Assim, a cultura moderna, contemporânea do capitalismo tecnológico em sua forma plena, movido pela lógica da dupla diferença, mantém como desejo recalcado a religião que a precedeu, desejo explorado agora no campo da física, enquanto disfarça o fato de constituir-se ela mesma numa religião, a do mercado universal. Seu fingimento de superação se desenrola na forma da biopirotecnia, irradiado em apoteose publicitária. Mas a sua real superação se dá através do engendramento de uma nova lógica, a lógica hiperdialética. Nesta se combina o que há de necessário na lógica da Identidade (o recurso a um princípio unificador), da Diferença (o caráter equívoco, deslizante, paradoxal, de tudo), da Dialética (o questionamento das parcialidades e das totalidades) e da Dupla Diferença (a manipulação diferencial e intensiva de todos os fatores em jogo através da tecnociência).

O efeito imediato para quem se vê diante dessa formulação totalizante, reduzida a esquemas simples que se dispõem a abarcar tudo, é o de que o autor é um maluco machadiano movido pela ideia fixa, aviando a fórmula do Emplasto Brás Cubas. No caso, uma panaceia lógica para alívio da nossa melancólica e enlouquecida Humanidade. Ainda bem que eu não costumo parar nessa primeira impressão, embora confessando que, com raríssimas exceções, não consegui ao longo desse tempo interessar meus amigos interlocutores por essa incrível fabulação antropológico-filosófica. No meio acadêmico, então, nem pensar. Para complicar, Sampaio usa fórmulas matêmicas, onde as quatro lógicas aparecem como I, D, I/D, D/D, o que dá a suas exposições um aspecto ao mesmo tempo esotérico e paracientífico, abstrato e delirante, que afugenta seus leitores, quando não se sentem diante de uma espécie de “fenomenologia do espírito” de algibeira.

Para mim, trata-se de uma elucubração filosófica que só poderia vir de um autodidata genial, livre de constrangimentos universitários, que se arrisca, por isso mesmo, a pensar fora dos esquadros, com resultados reveladores, estimulantes e de grandes consequências, se desenvolvidas. Sampaio (que faleceu em 2003) acreditava que o Brasil, na impossibilidade de instaurar alguma das quatro lógicas, tinha vocação para a lógica das lógicas, a hiperdialética, a quinta (que dá forma, por exemplo, diria eu, à obra de Guimarães Rosa, que por isso mesmo atrai todas as correntes críticas e é irredutível a qualquer delas).

Acho que uma razão mais profunda para a recusa a acompanhar o grão de loucura do pensamento de Sampaio é que cada uma das lógicas prefere ficar fechada em si mesma do que se admitir como parte de uma lógica maior.

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