O estado do Estado no Departamento de Trânsito

Sempre que preciso usar o serviço burocrático nacional termino com sensação de impotência. Isso porque não adianta sentir raiva ou procurar direitos. Existem tantos códigos e leis neste país que nos sentimos num oito, como se fôssemos um cão caçando o próprio rabo.

É bonito ver o país das propagandas governamentais, mas é tão duro conviver com ele diariamente. Chegamos a pensar que vivemos em pátrias diferentes: uma imaginária, utópica, que atravessa um crescimento chinês. A outra, real, tão palpável que se torna triste, lenta e fatídica.

No poema “Sobre a Lógica Divina” devo ter pensado nisso tudo para me referir ao cansaço que me seca todo dia. Digo isso porque é o que me ocorre neste momento: o meu poema: “Vejo sempre o que não quero/ouço sempre o que me dão”. Mas é nos últimos versos que me encontro assim como hoje, tão deprimido que não tenho outra saída se não falar de mim mesmo e de minha parca poesia. Afinal “vida que é vida não quer dizer nada”.

Não sou um suicida em potencial. Não por medo da morte ou do pecado, mas pela falta de talento para jovem Werther. Não gosto de dramatizações além das alucinações diárias dessa vida medíocre que nos ensinaram a ter. Uma vida cara e imprecisa que sempre esbarra nas filas dos bancos ou nos bancos do Departamento Nacional de Trânsito. Não sei qual dos dois lucra mais, nem qual tem menos interesse em seus clientes. Muito menos qual deles pinta melhor a verdadeira face desse torrão que teima em se manter sob as ceroulas de Dom João.

Recordo-me das aulas de filosofia do direito e de como eu estava certo em me aliar a Marx e a sua teoria da contradição. Ao contrário do que pensou Hegel, o Estado sempre estará do lado do mais forte e nunca garantirá ao indivíduo os direitos e liberdades inalienáveis. Porque no contrato social dois assinam, mas apenas um usufrui.

Isso tudo me traz à lembrança outro poema que nunca mostrei por falta de ocasião. Como esta ainda não é a desejada, destaco apenas os primeiros versos e faço deles uma homenagem ao marxismo e ao nixonicídio de Neruda. Apenas uma referência a nossa degradante necessidade estrangeira.

Estado do Estado

O Estado não está no Estado
Nem no meu estado de solidão
Mas encontro o Estado
Por eu ter estado na contramão.

Óbvio que o jogo de palavras e a metáfora não dizem desse um poema clássico, mas quem disse que o fiz para sê-lo? O fiz para dizê-lo do estado que está o Estado em que piso e cuspo. Talvez todos os poemas políticos devessem ser enquadrados num gênero definido como “Urina de Rato” e todos os seus poetas fossem levados aos cadafalsos toda vez que não rimassem amor com dor ou que trocassem flor e beija-flor pelas reclamações políticas.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 14 de novembro de 2011 19:40

    Gostei do desabafo J. Paiva e concordo com você.

  2. Regiane de Paiva 14 de novembro de 2011 18:05

    Sabe de uma coisa, marido, seu texto é o reflexo de um filho despatriado,sem pai, sem mãe, sem NADA. E é exatamente assim que tantos de nós se sente diante do fracasso do nosso Estado. Os que contribuem com os impostos enfrentam filas e abusos dos funcionários públicos (com raras exceções), os que enfiam as gorjetas por debaixo dos panos se sobrassaem dominando seus cajados ornados de ouro enquanto vomitam sobre nossas cabeças.Na verdade, querido, quem tem andado na contramão, não sou eu nem você, mas esse Estado que está longe se sê-lo. Ótimo texto!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo