O Estado palestino na ONU

Por Paulo Moreira Leite
NA ÉPOCA

Um dos traços marcantes da política do Estado de Israel é a capacidade de gerar adversários à sua volta.

Numa resposta humanitária aos horrores da Segunda Guerra Mundial, a ONU decidiu oferecer aos judeus uma fatia de território na Palestina. Não foi uma decisão simples.

A população palestina estava instalada no local e tinha a menor responsabilidade pelo holocausto. Os governos árabes da região consideravam o novo Estado uma interferencia indesejável e a criação de Israel teve de ser votada duas vezes.

Numa primeira deliberação, a criação de Israel foi derrotada. Só numa segunda votação, liderada pelo chanceler brasileiro Oswaldo Aranha, é que a idéia de criar o novo Estado conseguiu os votos necessários.

Nascido numa situação bastante original, de fora para dentro, o Estado de Israel enfrentou guerras e adversidades produzidas por seus vizinhos mas também não deixou de dar uma grande contribuição para elevar a tensão na região a partir de uma política expansionista de conquista de territórios.

Boa parte da população palestina foi retirada de suas moradias e obrigada a deixar o país para nunca mais voltar. Em nome da segurança de Israel, o país controla, hoje, mais de dois terços território original da Palestina. Pela decisão da ONU, lhe cabia pouco mais da metade. Alimentados pelo governo, colonos extremistas mantém enclaves estratégicos no que resta do território palestino.

Apresentando-se como porta-voz do que seriam valores ocidentais na região, o atual governo quer que Israel seja reconhecido como um “estado judeu”, embora a noção de Estado laico seja uma das conquistas elementares de todo avanço democrático ocorrido no planeta desde a revoução francesa, em 1789. (Além disso, um quinto da população israelense é formada por árabes).

Neste ambiente, não é de surpreender que o governo de Israel mantenha numa linha de firme oposição a criação de um Estado palestino, que será debatido nos próximos dias pela ONU. Além das causas históricas, há uma razão conjuntural. O país enfrenta sua mais grave crise interna, o descontentamento popular tem produzido os maiores protestos da história. Nessa situação, o espantalho externo é um personagem mais do que conveniente.

Tem-se como improvável que a iniciativa palestina tenha sucesso. A maioria dos países está convencida de que os paletinos tem direito a seu Estado. A União Européia, a Russia, a China, pensam assim. (O Brasil também). A diferença, como se sabe, encontra-se no governo americano e apenas nele, em função do poder de voto no Conselho de Segurança.

Numa avaliação que diz muito sobre o grau de privatização das campanhas eleitorais americanas, onde a força economica dos aliados de Israel é considerada por todos os estudiosos como um elemento decisivo para qualquer partido, não se acredita que a diplomacia de Barack Obama deixará de auxiliar o governo israelense. Num trabalho eficiente no Congresso, que implica não só ajuda financeira, mas até no lançamento de contra-candidatos em locais onde os interesses da politica israelense podem ser prejudicados, entidades de lobistas asseguram um apoio superior a 90% dos votos para suas causas.

Será lamentável se esta previsão confirmar-se. Há muito o direito palestino a um Estado nacional deixou de ser uma questão de opinião ou uma reivindicação extremista. É um fato reconhecido pela ONU, a mesma que deu nascimento a Israel. O debate, aí, talvez seja reciprocidade.

Toda vez que trabalha para impedir que os direitos palestinos sejam reconhecidos, o governo de Israel oferece alimento para a revolta e a indignação contra seus próprios direitos. A postura irredutível numa situação insustentável apenas fortalece seus inimigos.

Caso o governo americano venha desperdiçar, mais uma vez, aquela alternativa que se apresenta como a única hipótese concreta de paz, deixará o caminho aberto para a opção que, cedo ou tarde, conduz os homens para a treva, a morte, o sofrimento — a guerra.

Como ensinava o Barão Carl von Calusewitz, a guerra é apenas a política por outros meios.

Comentários

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  1. Anchieta Rolim 18 de setembro de 2011 22:42

    Para Israel gerar adversários em sua volta é algo comum e corriqueiro, principalmente por ter como parceiro os EUA, onde tudo gira em torno de poder e cobiça. Já a ONU que piada…lembrei-me agora mesmo das injustiças cometidas ao povo da Somália. São piratas é? Quem são os verdadeiros piratas da Somália…

    Ótima matéria, Parabéns!!!

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