O ex-mágico Murilo Rubião!

Por Marcel Lúcio

O escritor mineiro Murilo Rubião (1916-1991) viveu em período conturbado da história nacional e universal. Nasceu sob o signo da Primeira Guerra Mundial; durante a adolescência, presenciou a Segunda Guerra Mundial e o Estado Novo; e na idade adulta, esteve sob o jugo de um período de mais de vinte anos de Ditadura Militar.

Mesmo nesses tempos difíceis, Rubião conseguiu viver dignamente: graduou-se em Direito, dividiu sua atuação profissional entre a atividade jornalística e o trabalho burocrático em cargos estaduais e diplomáticos. Diante da realidade que batia a sua porta, foi um homem comedido, viveu discretamente, solitário. Uma sombra.

Fato marcante em sua atuação jornalística foi a criação do Suplemento literário, jornal da imprensa oficial de Minas Gerais dedicado exclusivamente à literatura. Ainda em circulação, esse caderno de literatura tem grande repercussão, influencia e estimula escritores de Minas e de todo o país. Confira no link: http://www.cultura.mg.gov.br/imprensa/publicacoes/suplemento-literario

Apesar da discrição, era reconhecido no meio intelectual mineiro. Nos meses de setembro e outubro de 1991, a Secretaria de Cultura de Minas Gerais decidiu homenageá-lo através de uma série de exposições de sua obra. Avesso às luzes, quatro dias antes do início das homenagens, o escritor faleceu.

Deixou publicados sete livros: O ex-mágico (1947), A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias (1974), O convidado (1974), A casa do girassol vermelho (1978), O homem do boné cinzento e outras histórias (1990). Em 1998, a editora Ática agrupou os trinta e três contos de Rubião, dentre estes um inédito, no volume Contos reunidos. Em 2010, a Companhia das Letras, lançou, em edição em formato de bolso, a obra completa do autor.

Murilo Rubião estreou relativamente tarde na carreira literária, tinha 31 anos quando lançou a modesta tiragem de 200 exemplares de seu primeiro livro, O ex-mágico. Este trazia quinze contos, um dos quais era O ex-mágico da Taberna Minhota, que serve como inspiração para o título do livro. Uma das características que chama a atenção na obra do escritor mineiro é o eterno processo de reescritura a que submetia seus contos. Assim, a maioria de seus livros apresenta contos de publicações anteriores reescritos, às vezes com alterações significativas.

O conto O ex-mágico da Taberna Minhota, por exemplo, foi publicado pela primeira vez no citado livro de 1947 e reescrito nos livros: Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias (1974), O homem do boné cinzento e outras histórias (1990). Da primeira versão para a última, passaram-se quarenta cinco anos. Daí, notamos a importância que Rubião atribui ao processo de reescritura. De modo que, apesar de sua obra ser composta por apenas trinta e três contos, uma produção reduzida em termo de quantidade para um grande autor, podemos entender que estes foram trabalhados e aprimorados intensamente ao longo de sua vida.

O ex-mágico da Taberna Minhota foi um dos contos mais republicados por Rubião e, como falado antes, nomeou seu primeiro livro. Podemos, portanto, especular que o escritor possuía uma predileção pelo referido texto. E, além dos aspectos elencados, é nesse conto, dentre toda a sua obra, que o embate entre os elementos fantásticos e o real está acentuadamente mais visível.

A narrativa, em primeira pessoa, conta a história de um indivíduo que, sem mais nem menos, foi lançado à vida. Quando se deu conta estava na Taberna Minhota tirando o dono do estabelecimento de seu bolso. Não entendia sua presença no mundo, sabia apenas que estava cansado e entediado. Divertiu as pessoas com sua mágica na taberna, no entanto, dentre seus truques, passou a distribuir comida para as pessoas. Foi demitido. Seu próximo trabalho foi no circo. Mas era totalmente indiferente aos aplausos e manifestações do público. Com o passar do tempo, perdeu o controle de seu poder. Todo gesto, toda expressão se transformavam em passes mágicos.

Desconsolado, buscava uma solução para o seu problema e a encontrou: a morte daria um jeito em sua vida desmedida. Por isso, com a ajuda de seus poderes, tentou várias vezes o suicídio: não conseguiu. Um dia, ouviu na rua que ser funcionário público era morrer aos poucos. Não teve dúvida, tornou-se funcionário público.

Logo, constatou que ser funcionário público era pior que ser mágico: era forçado a atender diretamente as pessoas e, mesmo assim, passava horas e horas de ócio. Para completar, apaixonou-se pela datilógrafa, mas não foi correspondido. Teve ainda sua profissão ameaçada por questões políticas. Uma vida infernal. E, por causa do excesso de burocracia, teve sua faculdade de realizar mágicas anulada. Assim, o ex-mágico, no final do conto, está arrependido por não haver criado um mundo fantástico e colorido quando era possível.

Cabem aqui três observações.

Os contos de Rubião, em sua predominância, são precedidos por epígrafes retiradas de trechos da Bíblia. As epígrafes dialogam de modo efetivo com os contos. No caso do ex-mágico, a epígrafe é originária dos Salmos: “Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque sou desvalido e pobre”.

A partir da ideia de desolação transmitida pela epígrafe e pelo enredo do conto, constatamos que O ex-mágico da Taberna Minhota é uma espécie de lamento dividido em duas partes. Pois, inicialmente existia a mágica capaz de mudar a realidade cinza, mas não havia o entendimento do poder que tinha em mãos; posteriormente havia a compreensão da necessidade de mudar, porém não existia mais a capacidade mágica, totalmente destruída pelo trabalho mecanizado e irracional. Por isso, o crítico Davi Arriguci Júnior aponta como elemento central do conto o sentimento de impotência. O ex-mágico, com poderes ou sem, é absurdamente impotente diante da realidade!

Apesar de, em princípio, se distanciarem do realismo artístico convencional, os contos de Rubião possuem alegorias que são associáveis à sociedade capitalista. E nesse ponto, reside a maior riqueza das narrativas do escritor mineiro, pois, por meio de elementos fantásticos aparentemente distanciados do real, os contos conseguem dialogar e criticar de modo profundo a realidade circundante.

Vale a pena ler Murilo Rubião! Recomendo adquirir os livros e comparar as versões. Para contato imediato com a obra de Rubião, sugiro os seguintes sites: www.murilorubiao.com.br e http://www.releituras.com/mrubiao_menu.asp.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × 4 =

ao topo