O fazedor de vento e a chave

“Deixa-me crer que uma dessas estrelas guia a minha vida pelo obscuro mistério”
(R. Tagore)

Ele tem estatura mediana, idade meã e tudo o mais na média entre tudo e nada. Ou seja, é um Zé Ninguém. Carrega sempre uma bolsa, chaves e livros. Certo dia, além de tudo isso, transportava um fazedor de vento. Coisas para fazer, pesquisar, pensar e decorar que não têm fim. Sua casa–biblioteca é uma extensão do trabalho, ou uma coisa se confunde com outra. Códigos e chaves querem governar o mundo.

O número de escaninhos do cérebro é limitado e o Homem não é livre. A chave? Perdeu! Será que não foi naquele lixão onde o carro costuma estacionar junto. Melhor olhar. Na saída do carro, com tantas bolsas e chaves, pode ter caído dentro.
No outro dia, munido de forças, azougue e de uma só determinação enfrenta o lixão. Começa a retirar uma a uma as peças de um lixo pós – festa. Quem passava dizia uma piada e via aquele homem confundido com o lixo. Tá reciclando lixo? Dizia um. Tá procurando jornal velho para recortar notícias, pilheriava outro. Mas “os jornais de cabeça para baixo”, como pode?! “E mole!”. Dormiu só e ninguém sabia que seus pensamentos e sonhos era uma chave.

Se a chave pelo menos abrisse a porta do céu, mas o céu não tem dono. Melhor olhar para o céu e ver como é lindo! Começa a se formar uma roda de colegas e estranhar aquele procedimento. Eles riam, riam muito, pois o riso é a melhor saída quando não se conhece uma coisa. Seres normais e equilibrados deixam-se possuir de sentimentos mesquinhos e precisam rir dos que se não lhes igualam. Pessoas que não conhecem o segredo da chave e do encantamento passavam por ele e sorriam. Ficou maluco! Coitado, porque estudar tanto? Vai ver são aqueles mesmos livros que deixou mole os miolos de um outro fidalgo.

O que encontrar não é novidade: garrafas secas, copos descartáveis, jornais velhos, restos de comida e uma camisa-de-vênus. A festa foi animada. Melhor não mexer com os mitos venusianos. Que diferença daquele outro lixo onde ele aprendeu muita coisa de fulana: os seus costumes, o que comia e até pedaços de cartas e bilhetes. Fulana nem sabe dele e ele sabe tanto de fulana através do lixo. Os bilhetes – tudo ele lia – fulana remetia para a avó que morava em outra cidade. Fulana deve estudar durante a noite. Que vontade de conversar com ela e indicar alguns livros, quem sabe ela participaria do seu mundo.

Os livros eram mesmo a perdição daquele homem. Eles ensinam muita coisa e o lixo diz tudo, mas não resolve o problema do encantamento das chaves. Ou pior, esconde. Melhor relaxar, ligar o ventilador e chamar o vento. Trocar a fechadura é uma solução muito óbvia. Ao ligar o ventilador ele ouve um grande barulho. A chave repousa nas pás do fazedor de vento.

E roda as pás do ventilador. Entrou na porta da sala, saiu nas asas do tempo. O lixo pode ser uma revelação ou impossibilidade. “Ele fala de mim e de você”, mas não pergunte onde está a chave. A resposta meu amigo, dizia Bob Dylan, “is blowin’ In the wind”.

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Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 12 de julho de 2011 9:43

    Opa. Amiga. vamos ler o grande Tagore. Lembra que a gente lia muito.
    Tempo do templário ali na Rio Branco. Vou escrever sobre ele.. Bjs. saudades.

  2. edjane linhares 12 de julho de 2011 7:09

    João, jornal mole ninguém merece. Um bom escritor é um bom contador de histórias. E esta está ótima. Gostaria de reler Tagore. Um abraço.

  3. João da Mata 11 de julho de 2011 15:06

    Beleza de comentário, amigo. Muito obrigado
    Vamos, sim, tomar uma no canto do mangue.
    Ultima vez que estive la foi com Ivan e Abimael.

  4. jose saddock de albuquerque 11 de julho de 2011 14:52

    Meu amigo João da Matta.

    Dia desses recebi o seu convite: “Zé Saddock,Vamos tomar uma no canto do mangue e homenagear nosso amigo Benito…” Estou aguardando o dia … Hoje, parabenizo-lhe pelo artigo: “O fazedor de vento e a chave”. Penso mesmo que o encantamento está na simplicidade das coisas e da vida… Diante de minha insensatez, o mundo as vezes segue levado pelo nada, solto na leveza fantasmagórica do meu sentir. Parece que há em tudo uma cumplicidade que me desgarra de mim para depois refazer-me no movimento das coisas… A sala de palavras esquecidas inunda-se de vazio e o vento me tortura com vozes adormecidas. Penso caminhar à luz das velas; por um fio, as vezes, não caio em mim; bem na hora, já que estou fora e a chave, não a porta, não quer abrir… Nada mais sinto, pois o tempo e o vento não estão mais ali… Exceto a palavra que surge presa ao texto frio e indolente, o resto, aos poucos, vai volvendo ao seu estado primitivo, porque a palavra não está apenas no texto, no livro, mas também no vento, nas coisas passantes, em suas múltiplas formas… assim, como dizia o nosso amigo Bob Dylan, “está soprando no vento”. Abraço Fraterno. Saddock

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