O FEIJÃO DO PRÍNCIPE – Escrita e sobrevivência de Othoniel Menezes*

Cláudio Galvão é historiador e professor da UFRN. Ele tem publicado importantes livros sobre a cultura norte-rio-grandense, destacando-se biografias: Osvaldo de Souza – O canto do nordeste (1988); A desfolhar saudades – Uma biografia de Tonheca Dantas (1998); Zila Mamede em sonhos navegando (2005); e O céu era o limite – Uma biografia de Oriano de Almeida (2010). Predominam os campos musical e literário em suas escolhas, frutífera persistência, a que a tese de doutorado Alguns compassos – Câmara Cascudo e a música, defendida por Galvão na FFLCH/USP em 2011, deu seqüência. O recente Príncipe plebeu – Uma biografia do poeta Othoniel Menezes (2010) faz parte desse trajeto.

Além de contar com os depoimentos de parentes de Othoniel (irmão, primeira esposa e filho), Cláudio demonstra bom conhecimento da obra do biografado e de bibliografia sobre Cultura e Literatura potiguares, mais documentação complementar. A pesquisa arquivística fundamenta suas afirmações (instituições públicas e acervo de família), incluindo Imprensa e documentos governamentais, cartoriais e privados. E o cuidado interpretativo ultrapassa uma memória piedosa que pouco conseguiria explicar. A ênfase em limitações financeiras e expectativa por cargos públicos que não vieram ou demoraram a vir, comum em muitos materiais dedicados a esse autor, apagaria uma personalidade altiva que fez opções e se recusou ao conformismo. Apenas vitimizá-lo seria negar sua liberdade. O feijão do príncipe é sua sobrevivência cotidiana e também sua capacidade de produção poética. A biografia que Cláudio nos apresenta vai muito além daqueles limites piedosos e, involuntariamente, desqualificativos.

Othoniel é um poeta querido em seu estado apesar de maus-tratos que sofreu. Foi escolhido “Príncipe dos Poetas Potiguares” em 1925, título que o próprio escritor, segundo Galvão, não ostentava. Seu poema “Serenata do pescador (Praieira)”, musicado por Eduardo Medeiros, é um hino natalense informal, aliás, formalizado como “canção tradicional da cidade” pelo decreto municipal 12, de 22 de novembro de 1971. Poetas potiguares posteriores (Newton Navarro, Berilo Wanderley, Sanderson Negreiros e Myriam Coeli da Silveira, dentre outros) fizeram referências favoráveis a sua escrita, sem esquecer do grande apreço literário que Luís da Câmara Cascudo sempre lhe dedicou. A bibliografia apresentada por Cláudio indica 97 textos sobre Othoniel, produzidos por nomes expressivos da cultura potiguar. E o escritor recebeu elogios até de um crítico severo como Esmeraldo Siqueira (1908/1987), seu amigo querido. Mas enfrentou dificuldades de sobrevivência (houve momento em que nem conseguia pagar despesas com remédios), dependendo de empregos inseguros e insatisfatórios nos planos financeiro e intelectual.

Estudar sua vida é também compreender dimensões do fazer literário no Rio Grande do Norte e de níveis de pobreza que o poeta foi obrigado a experimentar, embora integrasse uma família de classe média bem situada na burocracia da província, durante o império, e, depois, do estado republicano – avô materno funcionário na Prefeitura de Nova Cruz, avô paterno ocupando cargo de autoridade municipal, pai Administrador da Mesa de Rendas e delegado em Jardim do Seridó, irmão Escrivão na Mesa de Rendas de Macau e, depois, Juiz de Direito em Canguaretama, ele próprio alto funcionário do governo estadual quando jovem adulto (primeiro oficial na Secretaria de Estado), caído em desgraça por ato de boêmia (disparou tiros contra a iluminação pública durante bebedeira) e, em seguida, perseguição política que o associava ao levante comunista de 1935.

Suas graves dificuldades financeiras e a expectativa por nomeações para cargos públicos que não vieram – ou demoraram abusivamente a vir, e numa escala muito abaixo de suas potencialidades – evidenciam a ausência de horizontes de profissionalização até para um escritor prestigiado, além de poderes discricionários de autoridades governamentais em suas políticas de emprego. A concepção do poeta como ser especial, protegido por governantes (cf. os comentários de Constância Duarte e Diva Cunha, no livro Literatura do Rio Grande do Norte / Antologia – p 218 dessa coletânea), finda configurando uma dependência em relação a déspotas mais ou menos esclarecidos que, quase sempre, foram apenas déspotas bem instalados em trevas.

Apesar disso, algumas ocupações humildes que Othoniel teve que assumir para se sustentar, como o trabalho na Base Aérea de Parnamirim, sob gestão norte-americana, não se situavam no extremo inferior da sociedade potiguar: muitos pobres do Rio Grande do Norte, conforme narrativa de meu pai (um deles), ansiavam por uma oportunidade ali, que não puderam desfrutar por diferentes motivos – escolaridade, saúde, documentação pessoal irregular etc. E contra o descaso governamental, vozes influentes da intelectualidade potiguar se levantaram em defesa do escritor, como foi o caso de Veríssimo de Melo e outros que deram declarações a seu favor, encampados pela Imprensa local. Sem esquecer de prêmios concedidos ou prometidos por instituições como Lions Club e Rotary Club. Mais uma pensão estadual jamais paga e uma pensão municipal de baixo valor, todavia implantada.

Cláudio Galvão apresenta a infância de Othoniel em Jardim do Seridó – secas e enchentes, namoricos iniciais -, sua alfabetização (com o próprio pai, depois ampliada com professor particular) e a vinda para Natal a fim de dar continuidade aos estudos. O futuro poeta revelou-se aluno dedicado e laureado em mais de uma ocasião. Um breve período como militar foi sucedido pela experiência jornalística em Macau, onde também desempenhou a bem remunerada função de Promotor Público Interino. E depois, em 1918, tornou-se segundo oficial na Secretaria de Estado, logo ascendendo para a posição de primeiro oficial, de 1919 a 1926.

Nessa época, seu prestígio literário incluiu a realização de um “Festival do Poeta Othoniel Menezes” no Teatro Carlos Gomes (hoje, Teatro Alberto Maranhão), em 1922. Os livros Gérmen (1918), Jardim tropical (1923) e, bem mais tarde, Sertão de espinho e de flor (1952) e A canção da montanha (1955) mereceram apoio oficial para serem publicados. E o Rio Grande do Norte foi governado, entre 1924 e 1927, por José Augusto Bezerra de Medeiros, primo de Celsa Fernandes de Melo (seus sobrenomes de solteira eram Bezerra de Araújo Fernandes – p 38), madrasta de Othoniel. Em 1925, por ocasião da 6ª Reunião da Universidade Popular do RN, criada por José Augusto, Menezes dedicou ao governador o poema “Mensagem ao homem essencial do meu povo”. Suas relações com o público leitor e ouvinte (de serestas, onde seus poemas, musicados, eram cantados com sucesso) local e o governo estadual, portanto, chegaram a ser até harmoniosas.

A Poesia de Othoniel possui singularidades estilísticas e históricas.

No primeiro momento (os livros Gérmen e Jardim tropical), há um recorte formal ainda parnasiano, voltado para as peculiaridades da natureza e do meio social potiguares. Menezes, nessa etapa, elabora uma Modernidade própria que não se confunde com o Modernismo – na verdade, no primeiro livro, o antecede. Há vestígios de Romantismo em sua poética idealizada, mesclados a elementos do Naturalismo – uma materialidade que perturba aquelas idealizações. Nesse sentido, ele se aproxima (sem qualquer imitação) de alguns parnasianos heterodoxos como Vicente de Carvalho e o próprio Olavo Bilac. Sua originalidade foi percebida de imediato por Luís da Câmara Cascudo, que o incluiu em Alma patrícia, livro de 1921.

Na maturidade do poeta (Sertão de espinho e de flor e A canção da montanha), há um reforço modernizante -ritmos diversificados, ausência de rimas, certo coloquialismo – que é também surpreendente, considerando que, naquele momento, ele era contemporâneo de ou pouco posterior a poetas hostis ao Modernismo – a chamada “Geração de 1945”. Cláudio menciona uma “Noite parnasiana” natalense em 1959, que contou com o apoio de Othoniel e Esmeraldo. Mas os dois não eram propriamente parnasianos, embora representassem modernos muito específicos, classicizantes…

O episódio boêmio de 1926 (destruição a tiros de iluminação pública, junto com dois outros companheiros de bebedeira – José Janini e Antonio Damasceno Bezerra) gerou processo por destruição de patrimônio público e punição funcional – redução pela metade dos vencimentos e, em janeiro de 1929, desligamento do cargo. Diante dessa situação, Othoniel optou por retornar à vida militar e participou da repressão à Coluna Prestes, no Piauí, com o batalhão natalense comandado por Luís Tavares Guerreiro.

Cláudio, talentoso narrador, apela para um recurso quase romanesco (sem demérito algum) ao dizer: “Pensando na família que ficava, o poeta mal ouvia as aclamações que se avolumavam à medida em que se aproximavam do cais do porto.” (p 129). Não é possível identificar fonte documental para o comentário, esse sentimento é uma bela digressão imaginária do próprio historiador. Em sentido paralelo, Galvão fala do tenente Victoriano de Medeiros, “boêmio e seresteiro”, amigo de Othoniel, no batalhão que combatia a Coluna Prestes, “a cantar saudosas modinhas, como se protestasse contra aquela guerra inútil, contraponto ao estrepitar da fuzilaria a suave harmonia de um frágil violão” (p 130). É uma bonita passagem literária, interpretação de Galvão (a partir de narrativa do filho de Othoniel, segundo informação pessoal do biógrafo que, todavia, não consta do livro) e expressão da escrita historiográfica, tão importante no ofício de Clio pois estabelece vínculos entre pesquisa e análise teórico-documental, por um lado, e leitura, por outro. A História se revela também Meta-Literatura.

Quando ocorreu a revolta comunista de 1935, Othoniel trabalhava na Imprensa Oficial do estado como um dos redatores do jornal A República. Ele e Gastão Correia prepararam a edição do jornal A Liberdade, possivelmente esboçado pelos revoltosos mas formatado textual e graficamente por aqueles profissionais. Derrotado o movimento, o poeta foi demitido, fugiu de Natal e findou preso em Recife, reconduzido para a cidade de origem e julgado apenas em 1938. A recepção nesse difícil regresso é narrada por Claudio a partir de rememoração de Esmeraldo Siqueira (cujo irmão era chefe da Polícia norte-rio-grandense naquele momento), conforme registro de seu filho Juliano, com toques épicos: “Esmeraldo Siqueira, muito tempo depois, ainda demonstrava sua revolta. ‘Ele, meu filho, como um bandido, conduzido em meio à tropa… Cruzei os fuzis e o abracei!’ E, mais reservadamente: ‘Fique tranqüilo, poeta’, disse ao amigo, abrindo o paletó e mostrando um punhal de bom tamanho” (p 154).

Não fica claro se existem outras narrativas a respeito do mesmo episódio – Cláudio informou pessoalmente que não. Nem cabe duvidar da palavra de Esmeraldo, rigoroso intelectual, ou do registro de seu filho. A História Oral nos ensinou: cada narrador impõe um regime de verdade que não deve ser negado pelo historiador (cf. PORTELLI, Alessandro. “História Oral como gênero”. Projeto História. 22: 9/36, jun 2001). Como toda verdade existe na condição de experiência social – por princípio, coletiva -, é enriquecedor para quem pesquisa e para seus leitores o contato com outras verdades, ampliando a compreensão do tema, sem que isso se confunda com qualquer Relativismo. Quando não existem mais versões, vale realçar o caráter único daquela apresentada – e é esse o caso.

Ser preso político, acusado de comunismo, numa ditadura para-fascista é algo efetivamente assustador. Galvão relata, surpreendentemente, licença para Othoniel dormir em casa e até dormir na prisão com uma pistola (!). Cláudio menciona também as dificuldades de sobrevivência da esposa e dos filhos do escritor na época em que ele esteve preso, com o sustento de todos às custas do pai e do sogro de Othoniel, mais a produção de “doces, tapiocas e outras comidas típicas” por Maria (a esposa), atividade que o biógrafo definiu como “vexame” (p 159). Tratava-se, todavia, de ocupação digna de pobres em busca de sobrevivência, como pude registrar na narrativa de Dona Nazaré de Souza sobre sua infância e juventude (v. o texto “Era e é – Para continuar a ter beleza”, incluído em meu livro Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia.). Estamos diante da família de um escritor de renome, originário de classe média, em condição de pobreza naquele duro momento. Cláudio Galvão lembra ainda o apoio financeiro de amigos do poeta, incluindo Sérgio Severo, que era integralista.

Saindo da prisão, Othoniel trabalhou no combate à malária, em Assu, realizou festivais de poesia e seresta e manteve relações até cordiais, na medida do possível, com interventores estadonovistas. Em 1942, começou a trabalhar na Base Aérea de Natal. E em 1951, foi indicado para cargo no Instituto Nacional do Sal.

A etapa final de vida do escritor, pobre, envelhecido e doente, ocorreu no Rio de Janeiro, num clima de exílio em relaçãoà terra que não o tratou com a devida atenção.

Vivendo num país que adotou agressivas políticas anticomunistas durante décadas (desde os anos 20 do século passado, passando pelo Estado Novo, mais a ilegalidade do PCB na suposta “redemocratização” e a ditadura explícita pós-64), Othoniel sofreu conseqüências dolorosas devido àquela identificação que se lhe atribuiu em relação ao movimento de 1935. Isso se misturou com seu caráter inquieto, a boemia juvenil, a angústia em relação aos limites burocráticos dos empregos corriqueiros e o exercício do poder por governantes que oprimiam diferentes categorias sociais, inclusive poetas de renome, como se lhes fizessem o Bem.

Apesar de tudo isso, a Literatura venceu – a obra do poeta está aí.

Uma observação final sobre a materialidade do livro, que não depende de seu autor. É muito bom que o governo estadual do Rio Grande do Norte e a Fundação de Apoio à Pesquisa do mesmo estado patrocinem a publicação de um livro como esse – tema importante, pesquisa e escrita de qualidade. Algumas das opções gráficas (tipo de papel em tonalidade escura, tinta esmaecida, iconografia prejudicada pelas escolhas de impressão, perda das cores originais usadas por Dorian Gray para a capa) são lastimáveis e merecem superação quando a obra for, com justiça, reeditada.

FONTE DA FOTO: aqui

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 12 de maio de 2011 17:24

    Querido amigo:

    Gosto muito das Marias – Maria Madalena dos Anzóis Pereira, Maria Moita, Maria o teu nome principia… Devia haver um ano das Marias.
    Abraços:

  2. João da Mata 12 de maio de 2011 16:48

    Caro Marcos,

    Gostei da resenha do livro – biografia com ênfase numa historiografia.
    Livro escrito por um historiador elegantemente elogiado por você em todo o corpo do texto. Na sua resenha muito feijão (ou falta). Humildade, dificuldades, etc
    A análise literária da obra de Othoniel ainda precisa ser feita

    Gostei muito do livro e destaco a dificuldade de sua leitura devido ao papel e tonalidade da letra. Coisa que você destaca ao final de sua oportuna resenha ampliada. A impressão podia ser melhor para um livro de tamanha envergadura e título feliz.

    Destaco também o belo prefácio escrito pelo filho do poeta Othoniel, que teve um papel fundamental na feitura e conteúdo desse livro. Alguns filhos são importantes como guardiões da memória. Laélio é para Othoniel o que Panqueca foi para Lourival Açucena.

    Muitas das informadas dadas por Cascudo foram fornecidas pelo Panqueca.
    Muito do que sabemos sobre Othoniel veio do glosador e também poeta Laélio.

    Com um forte abraço no mês das Marias.

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