O fim das livrarias de Nova York e do JB

Por Gustavo Chacra
Estadão

Ontem falei de Iraque e Estados Unidos, amanhã será a vez de Israel e palestinos. Mas hoje escreverei de Nova York. Moro no bairro do Upper West Side, ao lado do Lincoln Center. Nesta semana, tem ópera no telão “open air” de graça para toda a população. Fui ver na segunda-feira. Em seguida, passei na tradicional Barnes & Noble, a gigantesca livraria da Broadway com rua 66.

Eles não tinham o livro que eu queria. Como já é costume para mim, pensei em comprar a edição virtual para o kindle ou iPad. Ou, até mesmo, encomendar uma versão impressa pela internet. Mais da metade dos americanos e dos habitantes do país agem da mesma forma. Sem falar que muitos dos que ainda compram em livrarias optam pelos estandes de livros de hipermercados como o Wall Mart.

No dia seguinte, pego o New York Times – ainda assino a versão impressa, apesar de passar o dia na app do mesmo jornal no iPad. E vejo a notícia de que justamente a gigantesca Barnes & Noble do Lincoln Center irá fechar. O lugar que eu e muitos outros moradores do Upper West visitam quase diariamente para tomar café e ver os recentes lançamentos não existirá mais a partir de janeiro. Será como os Jardins sem a Livraria Cultura, ou Pinheiros sem a Fnac. Já não temos mais as lojas de discos. Em breve, não teremos mais livrarias.

Não deu para deixar de lembrar do filme You’ve got mail, com a bela Meg Ryan nos anos 1990. Ela era dona de uma pequena livraria também no Upper West Side, mas passa a sofrer a concorrência de uma cadeia de livros que representaria justamente a Barnes & Noble. Pouco mais de uma década depois, nem as grandes livrarias têm sobrevivido.

O livro impresso não deve acabar, pelo menos tão cedo. Mas a livraria terá cada vez mais cara de “Amazon” do que de Barnes & Noble. Algumas pequenas ainda sobrevivem em Nova York, mas há poucos meses fechou uma das minhas preferidas, de biografias, no West Village. Será reformada e transformada em mais uma loja do Marc Jacobs, que já ocupa duas outras esquinas na mesma rua.

O kindle, o iPad e o Nook (fabricado justamente pela Barnes & Noble) tem vantagens, especialmente para os estudantes. Conforme lembrou um amigo meu, imagine poder ter todos os livros de faculdade dentro de um kindle? Em breve, aqui nos EUA, isso irá acontecer.

As coisas se movimentam tão rápido que descobri que a nova geração de alunos calouros nas universidades americanas não usa email. É muito demorado. Eles preferem mensagem de texto, whatsaap e bbm. Um avanço em relação à geração anterior, que já havia deixado de lado as mensagens de voz no celular. Nenhum destes dois grupos, obviamente, gosta de ler notícias e livros no papel.

Ironicamente, o fim da Barnes & Noble do Lincoln Center ocorre praticamente no mesmo dia da última edição impressa do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

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