O Footing Book:

Por Inês Rosa Bueno
(Enviado por Chico Guedes)

Quando eu era criança, a gente passava as férias de julho na cidade interiorana paulista de Serra Negra… uma delícia… meu pai alugava uma casa para nós e a gente, os filhos todos, passávamos o mês inteiro lá com minha mãe, enquanto ele continuava trabalhando e vinha nos finais de semana.

Tinha muita coisa legal… as caminhadas pelas lojas de artesanato com minha mãe, numa das quais ela comprou o par de sapatos mais amado que já tive na minha vida, que era todo de couro de vaca com o pelo marrom e branco gostosinho de passar a mão, bico redondo e cordão de amarrar… as fontes de água mineral onde a gente ia de noite espiar escondido-namorados- namorando- escondido… para noticiar no dia seguinte, com quem que a Maria Sete Cores tinha se encontrado na noite da véspera lá na Fonte Santo Antonio… os trocados que meu pai dava nos finais de semana quando chegava, para a gente ir até a sorveteria onde conhecemos a Milu, cachorrinha vira lata de rua que futuramente deixaria herdeiros viajando pelo mundo com a gente… “Quero de pistache!” Casquinha de uma bola! Que vc não podia apertar muito senão furava e o sorvete começava a escorrer pelo buraco… maior meleca…sujava tudo… As caminhadas até o morro do Cristo que, de braços e olhos abertos sobre a cidadezinha, abençoava moradores e turistas de inverno… As charretes e cavalos que vinham pegar a gente antes de amanhecer para levar até algum sítio tomar leite tirado na hora… As caminhadas com minha mãe cortando trilhas pelas roças, onde ela ia mostrando as plantas que conhecia… “isso aqui é Flor de São João”… “mas por que que chama Flor de São João?”… “criança não pergunta ‘por quê’”… “por que criança não pergunta ‘por quê’?” Os trotes que a gente fazia, como colocar esterco de cavalos em caixas de sapato embrulhadas com papel de presente e ficar escondido para ver algum passageiro da calçada olhar para todos os lados para verificar se tinha alguém assistindo e depois esconder o presente de algum jeito junto ao corpo e prosseguir na sua viagem… a gente ria demais! Tinha a velhinha que morava sozinha num casarão meio caindo aos pedaços, cheio de pombas, que, depois que minha mãe brincou que queria uma pomba para fazer de almoço, passou a presentear chuchus todos os dias, para minha mãe não ter que passar fome nem matar um dos seus pombos…

Talvez o mais divertido fosse ir à noite à praça, encontrar outras crianças para brincar de Passa Anel e umas brincadeiras que eu não me lembro como chamavam… uma por exemplo, onde tinha que adivinhar os gostos de alguém sobre marca de cigarro, marca de carro, refrigerante etc… se vc adivinhava, formava par com essa pessoa… sempre tinha uns namoriquinhos embutidos… e sempre com mais de um… lembro de um julho, por exemplo, que eu era escolhida e escolhia nas brincadeiras o tal do Júnior e o tal do Expedito… era bom porque como eram filhos de pessoas que estavam ali de férias, então, quando a família de um ia embora, restava o outro… até que ia todo mundo embora e apesar do sotaque caipira, a gente começava a namoricar os nativos da terra… era só brincar junto, mas de vez em quando minha mãe aparecia com uma varinha de não sei o quê na mão (ainda bem que ela jamais usou!) para mandar ir embora prá casa já. “Rápido, ligeiro!”, como dizia meu irmãozinho antes de sair correndo…

Mas, a gente era rodeado de namoricos… a praça era para isso… era o lugar onde as pessoas iam, principalmente nas noites de final de semana… para ver quem estava por lá… paquerar um bocadinho…Enfim, fazer o que se conhecia por “footing”… andar à toa na praça, encontrando amigos e relacionamentos de namoro… os mais velhos iam em outros horários, falar de política e negócios… às vezes tinha banda de música, perseguida nas ruas da cidade por toda a criançada, que terminava ali, tocando no coreto… Numa das esquinas da praça, as carrocinhas de bode ou de carneiros pintados em diversas cores esperando fregueses para dar uma voltinha de “quinze minutos”… ou das mais caras e demoradas… as pessoas sentavam ou andavam por ali na praça, para ver quem passava, quem chegava, reatualizar mais uma vez de forma mais centralizada, as conversas já atualizadas entre vizinhos… “Vc viu o helicóptero do prefeito de Amparo?” “ Eu vi… estava conversando com a Kátia e a Socorro, quando o helicóptero começou a avoar perto do campo e nós saímos correndo prá lá…” “Dizem que foi camarão estragado… que ele comeu camarão estragado… não sabia que estava estragado… “ “Ontem de noite, lá prá meia noite, a minha vizinha gritou: ‘Tem uma coruja sentada em cima da mesa!’” “Aí, os vizinhos logo começaram a responder: ‘Aviso de morte!’… ‘Aviso de morte!’”. “Pena, não é? Homem tão novo, morrer assim… quando é prefeito…deixando família com filhos…” “Mas, final de semana passado, o filho dele estava naquele grupo que bateu nos nossos de Serra Negra que foram para lá para o baile deles, só porque o Cláudio foi conversar com uma moça de Amparo que estava namorando! Foi castigo de Deus!” “É… mas quero ver eles aparecerem em algum baile por aqui! Vão levar o troco também!” “E esse prefeito também tinha mania de pegar os cachorros loucos de Amparo e jogar tudo aqui em Serra Negra!” “Os cachorros e os mendingos!”

Tinha lá umas regras não muito explícitas ou fixas… mas geralmente as mocinhas sentavam nos bancos, ou ficavam circulando, em grupinhos de três ou quatro, conversando baixinho e dando risinhos e os rapazes ficavam ali meio parados, em pé ou sentados nos encostos dos bancos, em grupinhos um pouco maiores, vendo as meninas passarem com seus olhares mais ostensivos sobre olhares mais furtivos… comentários em tom um pouco mais alto… e risadas mais irônicas. Geralmente, os risinhos e risadas eram posteriores às trocas de olhares furtivos e ostensivos. Tinha também as cotoveladas e os beliscões.

Era bom, o elemento surpresa, porque vc nunca sabia exatamente quem poderia estar na praça. De qualquer forma, todos passavam horas diante do espelho, escolhendo suas melhores roupas e caprichando na maquiagem, para ir à praça…

Bem, esse gosto por cidades do interior me acompanha até hoje, e tenho visto esse costume se perpetuando por muitas delas, com algumas modificações… por exemplo, hoje em dia os grupinhos que se formam são maiores um pouco e as turmas são mixtas… de homens e mulheres… embora ainda persista bastante aquela velha e frutífera separação entre os sexos e gêneros. Claro que bebe-se mais… bebe-se muito! E a música não é mais a da banda que, depois de percorrer alegremente as ruas da cidade, chega ao coreto… raramente ocorre… mas os sons dos carros estacionados por ali tocam no último volume… e à medida que as coisas vão se modernizando e evoluindo… há sempre por ali também algum traficantezinho de plantão, e num canto mais obscuro, as rodinhas de fumo. Os namoros também são mais audazes, a ponto do Padre Joel lá em Pirenópolis decidir marretar os bancos da praça tudo para o povo parar de namorar na porta da Matriz, porque, como dizia o beato, “gente não é cachorro prá ficar namorando na frente de todo mundo!” Saiu até na Globo! Vc não viu, não?

Então, é isso, né… continua… mas muita gente hoje em dia tem medo de sair de casa… a grande maioria… que aliás hoje em dia, essa grande maioria, já não mora nessas cidadezinhas mas, sim, nas grandes ou médias cidades… onde a praça é geralmente lugar tido como meio perigoso… quem é que quer atravessar a Praça da República em São Paulo de noite? Só quem tem algum negócio a resolver ali dentro. E os PMs pisando grosso para poder cobrar seu quinhão.

Tem as praças de alimentação dos shoppings, mas essas são para os cinco por cento da população brasileira dos quais eu não faço parte e os encontros por ali são anônimos… o objetivo é comprar comida franquiada, ingresso para o cinema, pipoca e copo descartável de meio litro de Coca Cola. Então…

Então, as pessoas vão ficando assim, dentro de casa, dentro do apartamento, dentro do barraco e as conversas da praça passaram a ser as dos personages das novelas… que a gente senta num sofá com o prato na mão e assiste. Nó! A primeira tv na minha casa chegou quando eu tinha seis anos e demorava uns minutos até ela ligar, depois de acender aquele pontinho de luz no meio da tela gigante que ia crescendo, crescendo, enquanto o tubo da tv fazia uuuuuuuuummmmmmm e depois chiava… depois disso era só ajustar o vertical, ou em último caso, mexer na antena… e não sei não, mas acho que a programação começava meio tarde e acabava meio cedo… não sei porque também nem me deixavam assistir… só depois das cinco e só por uma hora… e a primeira novela que me permitiram ver foi “As Pupilas do Senhor Reitor” na recém inaugurada TV Cultura, onde minha mãe tirou o diploma de madureza do colegial… ou do ginásio… não lembro bem. Os fascículos das apostilas vendiam na banca de jornal e eu gostava porque tinham também os capítulos das “Pupilas do Senhor Reitor” e eu podia ficar torcendo pela Margarida. Na cena do primeiro beijo dela no Pedro, fiz um galo na cabeça porque dei um pulo de emoção sentada na cama de baixo da beliche.

Finalmente, chegaram essas páginas de relacionamento…ORKUT, Limão, Pera, Maçã… fui rejeitando, rejeitando.. . chegou o Facebook… Todo mundo… “vc precisa ter um Facebook!”… e eu só naquela…”Facebook é financiado pela CIA… já não tenho tempo nem prá e-mail!”… Até que não teve jeito, começaram a chantagear: prá ver fotos de amigos, acabei cedendo e abri meu Facebook… mas quando entrava naquele trem, não entendia nada: “que suruba é essa aqui?… um monte de gente falando de um monte de assuntos em público!” “Não, mas vc pode clicar na opção ‘amigos’”… “Ah! Dá prá cochicar?”…e como é que eu chego nas mensagens que realmente me interessam, se está tudo enfileirado infinitamente?”… “Eles mandam uma mensagem no seu e-mail com o link!”

Comecei aos poucos, timidamente tentando descobrir como é que o trem funciona, a encaminhar uma ou outra mensagenzinha e me indignei porque percebi que as mesmas pessoas que jamais respondiam meus e-mails, ali respondiam… mas, a isca estava lançada e acabei mordendo o anzol. Até que finalmente entendi: o Facebook é o Footing Book. E de repente, vi que estava inserida numa rede globalizada de intrigas e fofocas: começo a ler uma notícia na página do Yahoo e aparece do lado que eles estão avisando todos os meus “amigos” que eu li aquela notícia… caí na boca do Footing Book! Tem mais jeito!

Eu, por exemplo, que sou uma free lance desempregada, ou desempregada free lance, ou seja – trabalho sozinha em casa – descobri que quando estou de saco cheio de trabalhar e quero dar uma distraída, jogar conversa fora um pouco, basta conectar no Facebook e ir ali, rolando as últimas postagens, curtir algumas, comentar outras, compartilhar as mais interessantes… postar as minhas… aí vem um, comenta.. vem outro conhecido de não sei quem que vc não conhece e mete a colher torta também… reencontra um velho amigo que nunca mais tinha ouvido falar… um amigo manda uma mensagem pasteurizada para teorizar sobre o valor do abraço…. virtualizar sobre a inestimável afetividade da verdadeira amizade… analisar os efeitos benéficos sobre a saúde do beijo na boca… fazer revolução e defender todas as causas pendentes na sua caixa de entrada…meter o pau e o cacete no chinês lá de Pequim que deixou o gato dele dormir sem comida… uma hora qualquer, infalivelmente, vc vê que um amigo esquecido entrou no messenger e te mandou uma mensagem inútil qualquer: “E aí? Por onde anda?” “Por aqui.” Agora, já posso responder: “Por onde ando? Ando por aqui… fazendo footing no Facebook.”

Portanto, olha, se quiser me encontrar: pode me aceitar no seu Facebook.

Beijos e abraços virtuais a todos, da Inês… aquela que ainda não preencheu o seu perfil no Facebook!

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