‘O fracasso da cultura oficial’, por Franklin Jorge

O jornalista Franklin Jorge, editor de cultura do Novo jornal, publicou na edição deste domingo uma pensata sobre a cultura do RN, motivado pelo Cultura em Debate, promovido esta semana na Casa da Ribeira.

É sempre bom prestar atenção às palavras de alguém como Franklin, que, como ele mesmo afirma, tem mais de 40 anos de atuação na área. O estilo ácido do escritor, que tem se mostrado bastante equivocado em suas análises sobre o guia eleitoral, cai como uma luva para o assunto.

Como sou assinante virtual do NJ, tomei a liberdade de reproduzir aqui o texto para quem não tem acesso. Espero não ser processado por Cassiano Arruda.

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JÁ NA RETA final da campanha eleitoral, quando a Cultura jazia esquecida ou dormitava nas gavetas dos candidatos ao Governo do Estado, eis que o tema se tornou objeto de debate em encontro realizado na última quarta-feira, às 19h30, na Casa da Ribeira. Artistas de diversos segmentos se fizeram presentes. Dos três candidatos que se acham melhor avaliados pelos eleitores, apenas o governador Iberê Ferreira de Souza (PSB) não compareceu nem deu satisfações da sua ausência, o que pegou muito mal e, mais do que isso, confirmou a ojeriza do wilmismo à Cultura, um fato já amplamente denunciado e debatido pela imprensa local. No ano passado,
o atual governo deu calote nos artistas e foi alvo de contundentes manifestações abraçadas pela opinião pública que julgou severamente
o pauperismo da chamada ‘cultura oficial’, representada entre nós por órgãos como a Fundação José Augusto, Fundação de Apoio à Pesquisa (FAPERN) e Fundação Capitania das Artes.
Independentemente do encontro ter sido uma iniciativa de assessores da campanha de Carlos Eduardo, ligados à publicação virtual Catorze, e da pouca representatividade dos interlocutores escolhidos, não se sabe com
quais critérios, valeu pelo pioneirismo. Pela primeira vez tivemos a cultura debatida em público e vimos candidatos ao governo do estado ouvindo a classe artística e assumindo compromissos que tiveram testemunhas e ficaram definitivamente documentados, inclusive na Internet, pelo menos por Carlos Eduardo, que prometeu postar em seu site de campanha o Plano Estadual de Cultura.

Não ouvi nenhum artista para colher a repercussão da sabatina. Falo por mim mesmo, como alguém que há mais de quarenta anos atua nessa área, sempre à margem do oficialismo e como um critico do oficialismo que tem se mostrado improdutivo e sem projetos, entra governo e sai governo, como se vê agora, no âmbito do município e do estado. Dois desastres sem remissão.
Um desastre, sim, como bem o disse o ator Henrique Fontes, que tocou num ponto que geralmente passa despercebido: a má qualidade dos conselhos de cultura, colegiados formados de maneira graciosa que seria inconseqüente
se não tivesse conseqüências sumamente negativas sobre a saúde da cultura.

Afinal, embora não pareça, os conselhos são instancias privilegiadas que já funcionaram, pelo menos em alguns estados e municípios, como órgãos consultivos importantes, integrados por pessoas de notável cultura e saber, o que não ocorre aqui, pelo menos a partir da ascensão dos Maia, Melo e Faria ao governo do estado. Garibaldi Alves, como prefeito e governador, também deve ser incluído nessa trinca, pois como disse Alexandre Dumas, em todo triângulo há sempre um quarto elemento que às vezes passa despercebido,
mas tem papel negativamente significativo.

Aqui, já foi assim, embora ao longo do tempo tenha sofrido deturpações e se transformado em clubes fechados, como o Conselho Estadual de Cultura, por anos e anos sob a tutela de áulicos que se limitaram à usufruição venturosa de jetons sem nenhuma contrapartida que justificasse a sua existência. até porque, ao que parece, não funcionam como instancias consultivas dos governantes, em questões especificas de cultura. Nossos conselhos, em sua atual escalação, não têm nível. Se o estadual, onde pontificam ‘intelectuais’ como Nelson Patriota e Isaura Amélia Rosado Maia, deixa a desejar,  imaginem o nível do Conselho Municipal de Cultura! Instituído por Wilma de Faria, se não me engano em seu segundo mandato de prefeita de Natal, está atualmente constituído em sua maioria por gente anônima e desqualificada
para o desempenho de função tão relevante. Seu presidente, por exemplo, é um promotor de eventos, simpático mas inadequado para a função que por sua natureza exige um sólido repertório cultural.
O caso da professora aposentada Isaura Amélia Rosado Maia – até agora a unica contribuição de Iberê ao segmento – é exemplar dessa cultura, já estratificada, que Henrique Fontes pôs em cheque diante de uma platéia
– melhor diria, de uma dupla claque – formada pelo séquito dos candidatos que se fizeram presentes, Rosalba Ciarlini e Carlos Eduardo. O governador Iberê Ferreira de Souza fugiu ao debate, evidentemente por temer algum
tipo de constrangimento, por representar a política de um partido que tem sido, em Natal e no Rio Grande do Norte, o carrasco da cultura e o tormento dos artistas que se afadigam em ganhar o pão com trabalho e dignidade, ao contrário da maioria dos gestores que apenas se aproveitam dos cargos para
exercer um poder discricionário e improdutivo, ou, para a autopromoção como o correu com um pseudo literato, como Dácio Galvão, que foi o braço forte do ex-prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves. Esperto, alugou vários
jornalistas para incensá-lo e não satisfeito importou escritores do segundo time, como Zuenir Ventura, de quem Caetano Veloso traçou um impiedoso obituário moral.

Ora, está provado que nenhum governo, por mais bem intencionado, tem mostrado competência para estabelecer políticas culturais sem o concurso de quem é do ramo e, em sendo do ramo tenha também a necessária humildade de consultar quem sabe fazer com seriedade e competência. Sem oba oba, como temos visto aqui, onde os governos subsidiam não a cultura
que é conhecimento, mas a cultura produzida pela indústria cultural sob o signo da descartabilidade. Despreparados, confundem cultura e lazer e aí está o fracasso como resultado; o estado financiando carnatais e rega-bofes que agradam ao ego dos gestores, mas não deixam nenhum substrato digno da nossa consideração.

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Apenas senti falta de uma avaliação tão criteriosa da gestão de Rosalba Ciarlini no setor durante a passagem dela pela prefeitura de Mossoró. Afinal, Franklin morou vários anos lá.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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