O futebol explica o Brasil?

Por Mary Del Priore
O Globo

O que é o que é: que o vencedor comemora e o perdedor justifica? Que enche o céu de fogos, dia ou noite? Que faz cantar o Hino Nacional, de peito cheio? Acertou quem respondeu: o futebol. Paixão nacional, considerada tão mais excitante quanto se aproxima a abertura da Copa do Mundo, essa modalidade esportiva é apresentada como a encarnação de uma visão atual do planeta, de um ideal democrático ou ainda de afirmação de símbolos coletivos. A bola parece impor seus valores e códigos ao mundo social, político e econômico. Daí a pergunta: o futebol seria um fenômeno total, na definição do antropólogo Marcel Mauss?

Com exceção de alguns que o consideram “o ópio do povo”, o resto da humanidade ama o futebol. As cifras servem para convencer qualquer birrento: dois bilhões de telespectadores, em 213 países, assistirão aos espetáculos nos gramados da África do Sul! Já se foi o tempo em que se assistia ao futebol na televisão porque não havia filme bom. As coisas mudaram. Um jogo se prepara, as pessoas vestem a camisa do time, pintam a cara, vão torcer com amigos ou familiares. Mais do que um esporte de regras fáceis, sem equipamento especial e praticado em qualquer canto, o futebol se tornou matéria para as Ciências Humanas. E vem ganhando cada vez mais espaço nas universidades. Há quem diga, como o sociólogo Christian Bromberger, que ele é metáfora da condição humana, uma síntese de fenômenos de sociedade que relacionam o universal e o singular, a gestão das emoções ou das afirmações identitárias.

Fenômeno antropológico, econômico e histórico

Por tudo isso e mais um pouco, o complexo fenômeno do futebol suscita interesses de quem quer estudá-lo sob o ponto de vista econômico, antropológico ou histórico. Mas isso, hoje. Pois durante décadas foi assunto marginal. A primeira obra veio em 1947 com Mário Rodrigues Filho: “O negro no futebol brasileiro”. Inspirado em Gilberto Freyre, Mário Filho descreve como o futebol se apropriou de elementos de origem africana, como o samba e a capoeira, subvertendo as raízes britânicas e se materializando numa instituição nacional. Também preocupado com a questão da miscigenação, ele propõe uma interpretação da história do futebol como instrumento capaz de integrar o negro à sociedade, deixando o racismo para trás. Nunca é demais lembrar que, poucos anos antes, negros eram um cisco no olho de Hitler e afroamericanos eram linchados pela Ku Klux Klan.

Quarenta anos depois, o antropólogo Roberto DaMatta retomou o assunto. Ele foi pioneiro em apontar os aspectos rituais do esporte e entre eles, a questão da dramatização do rito, sem a qual relações, valores e ideologias que formam a vida social não poderiam ser isolados das rotinas diárias. O futebol, explica DaMatta, permite expressar as formas pelas quais os brasileiros se percebem ou se representam nos momentos de liberdade. Numa abordagem comparativa entre Estados Unidos, por seu papel econômico e político, Inglaterra, por ser berço do esporte e Brasil, ele apresenta conclusões: aqui, o futebol teria herdado muito dos “jogos de azar” com a força da crença na sorte ou na falta dela, que eram comuns no século XIX. Olha aí o papel da Loteria Esportiva! A modalidade também funcionaria para acalmar tensões sociais. Empregados que jogassem bola nos quintais das fábricas faziam menos greve. E se o nosso futebol brasileiro traz a marca da improvisação e individualidade, o gramado é o altar no qual o destino pessoal se une ao coletivo.

Na mesma década, estudiosos europeus e americanos se debruçaram sobre a questão, produzindo inúmeros textos: Pierre Bourdieu, Norbert Elias, Richard Giulianotti, Allen Guttmann, Roy Porter, para ficar nos mais conhecidos, tiveram seus trabalhos traduzidos e lidos, inspirando nossos talentos acadêmicos.

Um dos primeiros foi Leonardo Pereira, autor de “Footballmania — Uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938”. Num texto admirável, ele visita a passagem do “fidalgo sport” da juventude refinada às camadas pobres da população, a emergência de órgãos dirigentes do “orgulho nacional”, as discussões entre Coelho Neto, defensor do “esporte das multidões”, e Lima Barreto, crítico do esporte. Mas, sobretudo, analisa a transformação do futebol em “orgulho da nação” com a diminuição dos “branquelas” e o brilho dos jogadores negros em campo. Pouco depois, Francisco Carlos Teixeira da Silva e Ricardo Pinto organizam “Memória Social dos Esportes”. A questão que norteia a pesquisa é: como se constrói a identidade nacional a partir do futebol? A história do Vasco da Gama, primeiro clube a romper com o modelo elitista da Liga Metropolitana de Desportos aceitando negros em seus quadros, abriu espaço para um esporte popular que reproduziu as disputas dos últimos anos da República Velha entre um modelo excludente e outro popular, sintetizado pela aceitação de assalariados e operários nos times.

Na mesma época, Gilberto Agostinho publicou “Vencer ou Morrer, Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional” que analisa os diversos momentos de interação entre esporte e política: o do futebol marcado por regimes autoritários e, depois, pela reconstrução democrática, e os diversos usos que os políticos fizeram dos escretes e jogadores em diferentes momentos. Outra obra importante é a de Hilário Franco Júnior, “A dança dos deuses”. Peladeiro de fim de semana, o renomado medievalista reflete sobre o futebol como “caixa de ressonância de acontecimentos mais amplos”. Dos primórdios na Inglaterra, quando tratava de “forjar elites aptas a governar”, à violência dos estádios contemporâneos, Franco Júnior aborda o jogo nos seus aspectos ritualísticos, de uma quase religião laica com deuses e ídolos. “Reescrever periodicamente o script da vida, só é possível no futebol”, diz o historiador.

Copa do Mundo é chance para reatar laços sociais perdidos

Uma explosão de talentos ampliou o tema. Victor A. Melo, por exemplo, o articulou com a história do cinema em “Futebol por todo o mundo”, em parceria com Marcos Alvito e depois, em “Cinema e Esporte”. Já Maurício Drummond analisou o esporte sob o prisma da propaganda política em Vargas e Perón, no seu “Nações em jogo”. Sem contar excelentes nomes e títulos como o de José Moraes Netto e seu “Visões de jogo: primórdios do futebol no Brasil”; João Máximo, dublê de esportista e pesquisador, com “Maracanã, meio século de paixão”; Edileuza Soares e “A Bola no ar: o rádio esportivo em São Paulo”; José Renato Santiago Jr. e “Os arquivos dos campeonatos brasileiros”; André Ribeiro e a história da imprensa esportiva com “Donos do espetáculo”; o geógrafo Gilmar Mascarenhas, com vários artigos sobre futebol e globalização ou racismo e futebol, Simoni Guedes, estudiosa da relação entre esporte e identidade nacional, entre tantos outros

Sabemos, tudo tem história. Afinal o football ou ludopédio chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX, virou paixão nacional e conquistou o mundo. Um evento como a Copa é ocasião para as pessoas refazerem os laços sociais — aqueles que lamentamos perder no cotidiano — com seus cantos, festas e heróis nacionais. É momento para ignoramos diferenças às quais estamos habituados — pobres e ricos, velhos e jovens — focando no que conta: o balé das jogadas ou a rapidez de um ataque. Mas também é tempo de se conhecer a excelente produção historiográfica sobre a matéria, enquanto se torce pelo “Brasiiilll”!

*MARY DEL PRIORE é sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e coordenou junto com Victor A. Melo “História dos Esportes no Brasil” (Unesp)

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