O futuro digital do livro – o que você sabe até agora?

Por Josélia Aguiar
FSP

Daí que estamos todos – editores, livreiros, jornalistas especializados– no 2º Congresso Internacional do Livro Digital, realizado pela Câmara Brasileira do Livro hoje e amanhã, em São Paulo.

Vou postar por partes – não é o que gostaria de fazer, claro, preferia escrever um só post com mais análise e conclusão, mas isso vai demorar, e já vi que o tempo de um blog deve ser um pouco mais rapidinho.

A primeira e grande coisa que chama muita atenção é ver como tudo acontece mais rapidamente nos EUA. Os números, os achados e os problemas lá são de outra monta. Enquanto Bill Stein, do Instituto para o Futuro do Livro, fala de nuvens para compartilhar leitura, aqui editores se preocupam bastante com a pirataria, como se pôde constatar pela quantidade de perguntas na mesa que mais provocou debate na plateia, aquela que tratava justamente de lei de direitos autorais e DRM.

A coisa aqui é muito mais lenta. Editores que investem no negócio ainda não têm retorno, só despesa. E por isso preferem gastar pouco nisso. Daí que as complicações já começam a aparecer. Num dos intervalos, uma editora brasileira me contou o seguinte: a compra de direitos autorais no exterior já inclui versão em e-book, o que pode dobrar o custo de um contrato. De US$ 2 mil, passar, por exemplo, para US$ 4 mil. E não adianta o editor brasileiro argumentar: “mas aqui o e-book ainda não pegou”.

Outros dois editores brasileiros se surpreenderam com a pesquisa do Book Industry Study Group sobre perfil de quem compra e-book nos EUA. Achava-se que os livros de não ficção, ou mesmo didáticos, seriam os primeiros a ser adotados por usuários das novas tecnologias. Não. Quem mais está lendo por e-book está baixando a chamada “ficção comercial” (conceito criado em oposição ao de “ficção literária” ou, como chamamos aqui, “alta literatura”).

Então vamos a alguns resuminhos do dia.

Jurgen Boos, presidente da Feira do Livro de Frankfurt, disse o seguinte na abertura do evento:

Editores devem dar preferência a comprar direitos autorais de livros que não estão em língua inglesa. Por quê? Porque muita gente que tem aparelhos para baixar livros digitais já consegue ler em inglês. É mais rápido, prático e barato. Editores devem preferir obras em francês, italiano ou qualquer outro idioma. Isso aumenta as oportunidades para autores que antes estavam na periferia. Quem podia prever que um sueco, Stieg Larsson, ia vender tanto? O próximo best-seller mundial, disse Boos, pode sair de qualquer país, inclusive do Brasil.

Bob Stein, diretor do Instituto para o Futuro do Livro, foi o mais visionário:

Lojas físicas vão ser coisa do passado, disse ele. E até o modelo de loja que a Amazon criou pode já já se tornar obsoleto. Editores do futuro não serão meros “impressores de livros”, como definiu, provocativo; vão descobrir onde estão as ideias para distribuí-las em rede. A leitura será cada vez mais uma experiência em comunidade: leitores vão compartilhar grifos e comentários por meio de um novo modelo de livraria, como sua “SocialBook Store”, projeto que apresentou na conferência.

Se internautas não pagam por conteúdo, vão pagar por contexto e comunidade, prevê Stein. O futuro, portanto, não será “só fazer e-books, mas repensar todo o ecossistema”, explica. Daí decorre a ideia de “social reading”, experiência de leitura que será compartilhada por meio de nuvens. “As obras vão aparecer no brownser, não em apps”, acrescenta. Dessa nuvem, vão até poder participar autores e especialistas nos temas. Editores terão, assim, outro papel, o de construir a tal rede de leitores. “Não se trata de uma questão técnica, mas de uma nova concepção”.

Dominique Raccah, da Source Books, divulgou uma pesquisa sobre perfil dos leitores de e-books feita pelo Book Industry Study Group:

Quem compra e-books comerciais (“trade”, como se referem os americanos)? Mulheres, têm em média 44 anos, lêem predominantemente ficção. O Kindle, da Amazon, domina o mercado, com cerca de 40% (dados de janeiro deste ano). Depois, leitores preferem o Nook, com 15%. Em seguida, iPad, 10%, e iPhone, com 5%.

E quem compra textbooks (livro-texto, ou seja, livro usado para fins didáticos)? Homens, com 23 anos em média, estudantes de graduação ou fazem educação à distância. Em geral pirateiam, pois só compram 17% do que consomem. De onde pirateiam? De fontes variadas. O formato de preferência é o livro impresso, com 75%.

Num dos intervalos, conversei com Pieter Swinkels, diretor da Kobo, rede de varejo digital canadense que concorre com a Amazon e já começou a se preparar para aportar no Brasil, como antecipei na “Painel das Letras” de 2/07/2011 (aqui, se assinante do UOL ou da Folha).

“Sim, temos planos para o Brasil, mas não podemos contar por enquanto”, me disse Swinkels. Afirmou que “não deve ser este ano” e que, quando chegar a hora, será com operação montada localmente, tal como começou a fazer em outros países. A Kobo já chegou à Alemanha. Até o final do ano já estará na Espanha, França, Itália e Holanda. Para Swinkels, o Brasil é um mercado tão promissor quando o da Índia. São países que, segundo avalia, “crescem e têm leitores a conquistar”.

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