O futuro do livro

Por João Luiz Rosa, Heloísa Magalhães e Cibelle Bouças
Em Valor Econômico

Mercado editorial está preocupado com o avanço de empresas de tecnologia como Apple, Amazon e Sony

Em uma sequência de “Cleópatra”, o filme de 1963, a soberana egípcia interpretada por Elizabeth Taylor invade a sala onde está Júlio César e desafia, aos gritos, o ditador romano. “Como você ousa destruir a minha biblioteca?”, pergunta a rainha, enquanto vê arder, a distância, a Biblioteca de Alexandria. Hollywood não costuma ser muito fiel à história e a cena não foge à regra. Para muitos historiadores, a versão segundo a qual Júlio César incendiou acidentalmente a mais famosa biblioteca da Antiguidade não passa de mito. A eficácia da cena, porém, é inquestionável. Sem muitos rodeios, egípcios e romanos são postos em campos opostos. Os primeiros, sugere o roteiro, formam uma civilização antiga, guardiã da sabedoria da época, embora politicamente instável. Já os romanos são os senhores do mundo – detêm o poder político e militar -, mas não passam de brutos.

Milênios depois, parece que a biblioteca está pegando fogo novamente. Claro, em sentido figurado. Editoras, livrarias e autores – os principais elos da cadeia editorial – estão preocupados com o avanço de companhias de tecnologia como Apple, Amazon e Sony, ávidas em lucrar com seus leitores eletrônicos de livros. Para os pessimistas, essas empresas seriam os novos bárbaros, capazes de colocar abaixo o edifício ao minar as bases que há muito tempo sustentam negócio. Os mais otimistas veem exagero nisso tudo, mas concordam que os atores tradicionais do setor terão de mudar seu script para não sair de cena. Nos dois lados, prevalece a dúvida: afinal, qual será o futuro do livro?

“Vai haver uma coexistência. [O meio digital] é uma evolução natural do livro. Os consumidores dos livros físicos e dos digitais continuarão existindo porque são tipos de leitura diferentes”, diz Eduardo Mendes, diretor-executivo da Câmara Brasileira do Livro (CBL). “O público é que vai definir com que intensidade consumirá um tipo ou outro.” O tema ganhou tanta importância que o órgão organizou nesta semana, em São Paulo, o I Congresso Internacional do Livro Digital.

Não é de hoje que os livros em papel têm sido desafiados. Nos últimos tempos surgiram, por exemplo, os “audiobooks” – textos gravados em CD ou arquivos digitais, prontos para ser ouvidos no carro ou no tocador de MP3 – e a impressão sob demanda, que permite publicar um único exemplar, se o autor desejar. Mas nos dois casos as novidades foram consideradas uma extensão do mercado principal, voltadas para um público específico e, portanto, sem força suficiente para alterar as regras de negócio vigentes.

Com os leitores digitais, a história é diferente. No ano passado, enquanto a indústria do livro nos Estados Unidos apresentou aumento de 4,1%, os e-books deram salto de 176,6%, com vendas de US$ 169,5 milhões no período. De uma participação insignificante, de 0,05% em 2002, os livros eletrônicos passaram a responder por 3,31% do mercado de livros nos EUA em 2009, segundo dados da Association of American Publishers (AAP). Com incentivos como o iPad, da Apple, que chega às lojas americanas neste sábado, e a adesão crescente das editoras ao formato, há previsões de que os e-books possam chegar a 10% do mercado neste ano.

Trata-se, portanto, de um mercado de massa e, como tal, capaz de desequilibrar as forças no setor. A questão principal é quem define o preço do Livro digital. Editoras e livrarias querem evitar o que ocorreu na indústria fonográfica. Na música, empresas de tecnologia passaram a fixar o valor das faixas – no caso da Apple, quase todas vendidas a US$ 0,99 -, tirando esse poder das mãos das gravadoras.

Esse ponto tem arrastado as negociações das editoras brasileiras com uma principais novas forças do setor: a Amazon. Segundo um editor, que prefere não se identificar, os termos propostos pela maior livraria on-line do mundo incluiria uma divisão de receita draconiana: a Amazon ficaria com 65% do valor da venda, deixando às editoras 35%.

O valor unitário proposto pela Amazon, considerado baixo, seria outro ponto de discórdia. Nos EUA, a companhia definiu como preço único ao consumidor o valor de US$ 9,90. Dependendo do caso, ela paga à editora um valor maior, arcando com a diferença. Esse seria o modelo proposto no Brasil. “A Amazon tem musculatura para vender com prejuízo para ganhar mercado. O problema é que futuramente ela pode determinar, por exemplo, que US$ 9,90 é o valor a ser pago a todas as editoras por obra, não deixando que o preço seja definido pelo varejo”, diz Sônia Machado Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

A Panda Books não foi abordada pela Amazon, mas procurou conhecer as condições oferecidas. “Achamos o contrato selvagem, tanto na divisão de receita como na tentativa de fixar os preços”, afirma Marcelo Coelho, fundador da editora. O empresário, que pediu para não ser identificado, também se mostrou reticente. “Eu nem pensaria em negociar agora. Não acho que seja o momento.” O ideal, diz ele, seria algo parecido com o que a Apple vem oferecendo nos EUA, com 70% para a editora. Procurada pelo Valor, a Amazon não retornou os pedidos de entrevista.

Apesar da resistência, algumas editoras brasileiras já fecharam com a Amazon. A GS&MD oferece cinco livros digitais na loja on-line desde janeiro e pretende oferecer mais seis para o Kindle, o leitor eletrônico da Amazon, ainda este ano. Preço não foi o principal fator considerado para fechar a parceria. “Acredito que ainda haverá muita evolução nesse mercado, mas entendemos que era preciso experimentar, começar a trilhar esse caminho”, diz Renato Muller, gerente de publicações da editora.

A Ediouro associou-se à Amazon em outubro, ao mesmo tempo em que fechou com a Sony e a Apple. Dona de um catálogo de 10 mil títulos, a empresa pretende fazer 100 lançamentos pela Amazon até o fim do mês. A expectativa é de chegar ao fim do ano com 3 mil obras em versões digitais compatíveis com o Kindle, o Sony Reader e o iPhone, da Apple. No caso da Amazon, as negociações foram facilitadas pelo fato de a Ediouro manter uma joint venture com a editora americana Thomas Nelson, pela qual já vendia livros físicos na loja on-line. “A Amazon trabalha com um modelo rígido de negócios, mas como já trabalhávamos com ela, a negociação dos e-books foi tranquila”, afirma Newton Neto, diretor-executivo da Singular, braço digital da Ediouro.

Mas quem acha que o futuro do livro aponta de maneira inexorável para uma terra de gigantes, precisa conhecer Carlos Eduardo Ernanny. Há um ano, ele fundou a livraria on-line Gato Sabido. Hoje com mil clientes, o site oferece 100 mil títulos em inglês, mas apenas 850 em português, desequilíbrio que Ernanny planeja corrigir. “As editoras [brasileiras] estão na velocidade de uma tartaruga. Estão demorando para aderir a essa nova forma de vender livros, enquanto nos Estados Unidos esse mercado não para de crescer.”

Ernanny trabalhou por alguns anos no mercado financeiro, mas decidiu procurar algo mais desafiador. Passou a acompanhar a trajetória das livrarias on-line no exterior e logo percebeu que, no Brasil, seria necessário oferecer um leitor eletrônico mais barato. Viajou para conhecer fabricantes diferentes e encontrou o fornecedor ideal na Inglaterra. Agora, a Gato Sabido oferece um equipamento a R$ 750. A Academia Brasileira de Letras, diz Ernanny, está testando o produto.

Os livros vendidos pela Gato Sabido também estão disponíveis para outros sistemas, além do leitor eletrônico da editora. Ernanny já fechou parcerias com as editoras Zahar e Lumen Jurism, esta última especializada em livros jurídicos. A Globo Livros, que está em negociações com a Amazon, também já acertou um acordo com a Gato Sabido e iniciou conversações com as livrarias Cultura e Saraiva. A primeira lançou um serviço para vender livros digitais nesta semana e a segunda pretende fazer o mesmo neste mês. “A meta é fazer todas as parcerias possíveis para que os livros esteja disponíveis em todos os formatos, independentemente do dispositivo que o consumidor vier a escolher”, afirma Mauro Palermo, diretor da Globo Livros.

Apesar dos desafios, a esperança das editoras e livrarias é de que o e-book ajude a resolver o que é visto como o principal problema do mercado editorial brasileiro: o pequeno número de leitores. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, eles seriam 95 milhões, uma conta na qual entram pessoas que leram pelo menos um livro nos últimos três meses. A limitação, diz Mendes, da CBL, é cultural e não financeira. Um levantamento feito com os chamados não leitores mostra que apenas 7% deles disseram não ler por falta de dinheiro.

“O livro digital vai, sim, ajudar a criar um novo tipo de leitor”, diz Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. “Achava-se que o DVD mataria o cinema, mas um potencializou o outro”, compara o executivo. A aposta é de que, com novos recursos, como vídeo e música, o público mais jovem, acostumado à internet e aos videoclipes, poderá aproximar-se mais facilmente da literatura. A Imprensa Oficial já pôs na internet todos os 200 títulos de sua coleção de biografias Aplauso, com 50 mil downloads registrados.

O impacto mais forte, porém, é esperado no campo dos livros didáticos. É nesse segmento, diz Alquéres, que os recursos de interatividade, como a possibilidade de consultar mapas e fazer pesquisas on-line, vai mudar mais rapidamente o mercado. É um ponto com o qual muitos editores concordam. Pudera. Imagine abrir seu livro de história e encontrar, no capítulo sobre o Egito, um vídeo iluminado pelos olhos violeta de Liz Taylor.

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