O futuro do mercado editorial: um pedaço de tripa

Audrey Hepburn (Fonte: O Silêncio dos Livros)

Por Homero Gomes
PÁGINA CULTURAL

Em média a Sextante vende 60.000 exemplares por título e, em sua trajetória, já vendeu mais de 30 milhões de livros (2 milhões e 500 mil livros por ano, em média). Em 2009, essa média aumentou: a Sextante vendeu mais de 7 milhões, ela e sua coligada Intríseca, venderam juntas mais de 10 milhões de exemplares – fenômeno Crepúsculo e A Cabana? Talvez. O que se sabe é que as duas venderam mais do que qualquer outra editora do país.

Podemos inferir desses dados que livros vendem muito no Brasil; os números acima não dizem outra coisa. Visto objetivamente, os dados acima impedem qualquer acusador de plantão de afirmar que o brasileiro não compra livros. Subjetivamente, regionalmente e considerando os gêneros literários, o buraco é bem mais embaixo (sobre isso leia o polêmico artigo Literatura não vende, Rogers Silva). Principalmente, porque devemos considerar essas informações como exceções à regra, pois fazem referência a apenas uma editora entre tantas. E a menor entre as grandes. Não dá pra generalizar, mas também não dá pra fechar os olhos diante dos fatos.

Essa inferência nos leva a entender o que buscam as editoras e a entendem como está o mercado editorial. Tomás Pereira, também sócio da Sextante, afirma que “um livro se torna um Best-seller fundamentalmente por sua força própria, que gera o boca-a-boca. Mas ajuda ter um preço acessível, uma boa distribuição”. Ou seja, o livro quando é bom vende-se sozinho, gerando evangelismo literário automaticamente. Nesse ponto, é interessante perceber que além da mensagem chegar ao leitor, o livro também precisa estar à disposição.

Entretanto, raramente vemos autores brasileiros nas listas dos mais vendidos; e mais, raramente vemos anúncios a respeito de suas publicações. Novos nomes de escritores brasileiros estão surgindo, mas não os vemos nas listas de qualquer dessas revistas semanais. Isso é um fenômeno à parte ao mercado editorial, ou seja, não depende dele; é uma questão cultural.

Ícones culturais existem desde o fim da crise de 29, eles tornam-se guias das massas que se dessujeitam-se por vontade própria para sentir que fazem parte de algo maior, de uma comunidade. Isso explicaria a busca empreendida por literatura estrangeira, basicamente americana; questão de dominação econômica. Para obter o galardão de ícone cultural, portanto, o artista precisa ter nascido no centro do mundo – na nação que domina economicamente as outras. A cultura de massa, por isso mesmo, sustenta-se no mecanismo de dominação econômica imperialista, que se reflete na dominação cultural, artística, literária etc. de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, como o nosso. Foi assim no Brasil colônia, que beijava a mão do soberano cultural português; foi assim no século XIX, no Brasil que bebia da França; e foi assim no Brasil do século XX.

Entretanto, será assim neste século que se inicia? Estamos passando por uma revolução tecno-cultural, explicitada por gadgets como o iPad e os smartphones. Porém, iniciada muito antes com a internet. Nem imaginávamos a existência dela até os fins dos anos 90 e hoje, desligamos a televisão para assistir vídeos pelo You Tube, para ler artigos marcados como favoritos por nossos conhecidos, enquanto ouvimos música baixada diretamente dela. Estamos fazendo a cultura de massa morrer.

Entretanto isso vai além da tendência do mercado de nichos. Não trata-se aqui de especialização de mercado, mas de um mercado onde as empresas poderão vender de tudo, pois haverá sempre um indivíduo disposto a comprar. Estamos resgatando o indivíduo perdido no passado.

Dentro de um mercado baseado na cultura de massa encontra-se a fórmula do 80/20 que, conforme Chris Anderson, diz que “20% dos produtos respondem por 80% das vendas (e geralmente por 100% dos lucros)”. Mas tendo uma livraria virtual de e-books em mente, em que não há necessidade de distribuição nem de estoque, pode-se colocar milhares de livros à disposição do leitor, deixando que ele mesmo faça suas escolhas – como ocorre com o You Tube. Portanto, não há como essa antiga regra continuar em vigor nas próximas décadas, pois além da mentalidade das pessoas estar mudando, do leitor ir se acostumando aos poucos com textos digitais (como você, agora, leitor, que está lendo um texto que nunca foi impresso) e, também, com a possibilidade das editoras possuírem catálogos cada vez mais diversificados, a regra só pode ir se transformando em outra. E Chris Anderson a batizou de regra dos 98%. Nada fica encalhado ou no estoque, pois não há estoque. Tudo ou quase tudo é vendido, mesmo que em pequenas quantidades.

O leitor, portanto, pode olhar para tudo e escolher de tudo o que está a sua disposição, não precisando seguir o que mídias massificantes determinam como o ícone cultural de uma geração. Essa é a lógica do excesso. Nela, não é preciso escolher um produto para ser o “carro chefe” dos demais; ou por escassez de espaço, empilhar dezenas de livros para se conseguir obter lucro. Basta que editoras e livrarias digitais possuam títulos diversos, pois o espaço é infinito. Hoje, o leitor volta a ser indivíduo e não parte de uma massa informe e sem vontade.

Portanto, leitor, tiramos duas conclusões disso:

Primeira, sinta-se à vontade para ler o que quiser, pois é isso o que você faz quando baixa seus MP3, ou quando navega em algum portal de informação. Não se acanhe, ler é um prazer e deve continuar a ser visto assim. Você não é mais obrigado a seguir a massa; faça o seu caminho. O caminho que você está percorrendo, agora, na web só você está fazendo.

Segunda, leitor-escritor, não se preocupe com listas dos mais vendidos, o seu território está garantido, pois sempre haverá alguém disposto a ler o que você escreve. Você não venderá milhões de exemplares – talvez nem esgote a tiragem inicial –, só não desanime por isso. Pois os picos de vendas, em um futuro muito próximo, também não alegrarão mais os corações dos empresários, a satisfação virá das pequenas vendas dos milhares de produtos à disposição. O gráfico disso é chamado de Cauda Longa, pois nunca chega a zero. Ou seja, vocês venderão pedaços de tripas, mas venderão.

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