O futuro do planeta

Por Hélio Schwartsman
FSP

Devemos celebrar ou lamentar a chegada do heptabilionésimo habitante da Terra? Colocando o problema em termos mais gerais, existe ou não uma bomba populacional que precisamos desarmar?

Sete bilhões é um bocado de gente e, no plano físico, sempre que nos sentimos apertados, com o espaço individual invadido, nosso impulso é o de tentar ampliar a área livre que nos circunda. Na esfera intelectual, o esquema é mais ou menos o mesmo e é por isso que, de tempos em tempos, surgem figuras como Thomas Malthus (1766-1834) que projetam cenários catastróficos, no qual boa parte da humanidade é dizimada pela fome. O fato de, até aqui, todos esses profetas do caos demográfico terem errado sistematicamente em seus vaticínios, não parece intimidar os novos adivinhos.

Eles têm, é certo, alguns pontos em seu favor. Antes de tudo, o excesso de pessoas de fato causa uma série de problemas, notadamente ambientais. O medo da escassez é um ponto fraco de nossos cérebros. As duras condições de vida durante o passado darwiniano fizeram com que sejamos descendentes daqueles que não hesitavam muito em sacrificar membros da comunidade que consumiam mais do que produziam, como velhos, inválidos e até bebês. É só levantar a carta do desabastecimento, para que toquem todos os sinais de alarme, o que nos torna presas fáceis das teorias malthusianas. Essas teses têm também um forte apelo racional: elas projetam para o futuro o que está acontecendo hoje (o que muitas vezes é a melhor ferramenta de previsão com que contamos), escancarando a insustentabilidade da situação.

O problema com o neomalthusianismo, as variantes da ideia de que o homem se reproduz de forma mais rápida do que a capacidade do planeta de se recompor, é que a realidade é bem mais complexa do que nossos modelos de previsão.

Quem trata bem disso é Dan Gardner, no livro “Future Babble” (balbucio sobre o futuro). Já o comentei na coluna “Previsões de especialistas, ou o engodo em que queremos acreditar”.

Para resumir a história, a dificuldade para adivinhar o futuro é de ordem física. Nós nos habituamos a ver a ciência antecipando com enorme precisão fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas simples ou, pelo menos, sistemas em que dinâmicas impostas pelo caos podem ser desprezadas. E, embora um bom número de fenômenos naturais seja simples, existem muitos que não o são. Quando o homem faz parte da equação, a complexidade é praticamente inafastável.

Mesmo a mais previsível das ciências sociais, a demografia vive a nos pregar peças. Tomemos o caso do Irã. Em 1975, a taxa de fecundidade no país era de fertilíssimos 6,4 filhos por mulher. Veio a revolução islâmica de 1979 e todos os programas de controle de natalidade foram abolidos. Em 1984, a fecundidade havia batido em 7. A essa altura, praticamente todos os especialistas apostavam na manutenção ou elevação das taxas, mas em 2006, o número de filhos por mulher havia despencado para 1,9. Os demógrafos estão até hoje tentando descobrir o que aconteceu.

Voltemos, porém, à hiperpopulação. Paul Ehrlich (1932), professor de biologia de Stanford e mais famoso dos neomalthusianos, em “A Bomba Populacional”, seu best-seller de 1968, escreveu: “A batalha para alimentar toda a humanidade acabou. Nos anos 70, o mundo passará por grandes fomes –centenas de milhões de pessoas morrerão de inanição”. Um rápido confronto da previsão com os fatos mostra que, entre 1961 e 2000, a população mundial dobrou, e a quantidade de calorias “per capita” aumentou em 24%. Não foi só. Passamos a viver mais tempo, padecer de menos mortes violentas e ficamos mais ricos, porque o valor das principais commodities caiu em termos reais.

Ehrlich, é claro, não era unanimidade. Havia muitos que não pensavam como ele. Uma fofoca dos meios acadêmicos dá concretude à controvérsia intelectual. Falo aqui da célebre aposta Ehrlich-Simon. Em 1980, o biólogo apostou com o economista Julian Simon (1932-1998) que o preço das commodities dispararia no contexto de carestia generalizada. Os dois concordaram em escolher uma cesta de cinco metais para conferir o que aconteceria com seus valores uma década depois. Simon ganhou fácil, pois todos os cinco produtos estavam mais baratos em 1990 do que em 1980.

Vale a pena, então, investigar por que Simon triunfou. A razão, no fundo, é que lidamos com sistemas complexos, nos quais indivíduos, Estados e empresas reagem às situações provocando desfechos bastante diferentes dos inicialmente estimados. Itens como o cobre ou o petróleo até podem um dia acabar. Mas, à medida que as pessoas percebem isso, surgem incentivos para buscar alternativas. Elas incluem o desenvolvimento de tecnologias de substituição, reciclagem, mudanças no padrão de consumo e tudo mais que se possa imaginar.

Para Simon, o que gera a riqueza, em última análise, são ideias. A imaginação humana, diz ele, é o recurso final – – e inexaurível. Mais gente no planeta, sustenta, só aumenta a probabilidade de surgirem ideias originais.

Outra característica vantajosa do crescimento populacional é que ele cria escala para que as invenções se paguem. Se eu moro numa comunidade de duas dúzias de pessoas que não se comunicam com o mundo exterior, mesmo que eu seja um Steve Jobs não vou perder meu tempo desenvolvendo computadores. Eu jamais ganharia dinheiro vendendo-os e provavelmente gastaria todo o meu tempo plantando e abatendo o meu jantar.

Como coloca o economista neossimoniano Bryan Caplan, em “Selfish Reasosn to Have More Kids” (razões egoístas para ter mais filhos), até misantropos pagam mais para viver numa cidade superpopulosa como Nova York. Fazem-no porque, apesar de odiarem pessoas, é a concentração de gente que torna a cidade interessante, ao povoá-la com um número quase ilimitado de opções de cultura, consumo, lazer, gastronomia etc.

Mais indivíduos nascendo também ajudam a garantir a viabilidade de sistemas previdenciários, entre outros benefícios.

É claro que nem tudo são rosas no crescimento populacional. Nem o otimismo quase panglossiano de Simon o fez deixar de perceber que mais gente sobre a Terra também cria uma série de dificuldades. Sem uma grande mudança tecnológica que por ora ninguém vislumbra, se uma fração pequena dos habitantes do Terceiro Mundo adquirir padrões de consumo próximos dos observados entre os norte-americanos, a pressão sobre o ambiente se tornará insuportável. Já hoje assistimos a uma taxa preocupante de extinção de espécies, em grande medida causada pela degradação que nossa simples presença provoca.

A questão é: qual a melhor forma de lidar com isso? Os neomalthusianos costumam apostar em medidas fortes de controle populacional, que não raro recendem a fascismo, como a política do filho único na China. Simonianos, por seu turno, tendem a exibir um excesso de despreocupação, confiando, talvez com razão, mas talvez não, que a criatividade humana aliada aos mecanismos de mercado dará um jeito em tudo.

Na dúvida, como lembra Caplan, podemos sempre instituir uma taxa sobre o carbono e tomar outras medidas que aumentem os incentivos para que trilhemos o que, hoje, parece ser a melhor rota. No embate entre profetas do caos e doutores Pangloss, os últimos têm levado a melhor, mas não há nenhuma garantia de que continuarão a fazê-lo. Dada a nossa ignorância essencial sobre o futuro de sistemas altamente complexos, vale a pena ficar longe dos cenários mais extremos, pela simples razão de que eles são em menor quantidade do que as alternativas intermediárias.

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