O genial Enrique Vila-Matas

Por Pedro Justino Alves
DIÁRIO DIGITAL

Um novo livro de Enrique Vila-Matas é sempre um acontecimento, tudo devido a sua invejável carreira literária. Em «Dublinesca», editado pela Teorema, mais uma vez não saímos desiludidos. Desta vez, a própria literatura é o tema central da labiríntica trama, ao mesmo tempo que o espanhol homeageia «Ulisses», de James Joyce, para muitos a grande obra de todos os tempos.

Um dos grandes nomes da literatura espanhola, Vila-Matas tem uma legião de admiradores no seu país e cada vez mais no Mundo. Uma admiração compreensível, já que as suas obras retratam como ninguém os problemas e as reflexões de todos, transportando como ninguém a vida diária para as suas palavras. «Dublinesca» marca a primeira obra do espanhol na Seix Barral, abandonando deste modo a Anagrama, editora onde construiu em muito o seu nome.

Nome que também construiu Samuel Riba, que considera-se o último editor literário do Mundo, agora reformado. Depois de um sonho, parte com uns amigos para Dublin, tendo como objectivo percorrer as páginas de «Ulisses» (o livro acaba por se transformar numa personagem em si), mas também com o intuito de descobrir se passou ao lado de uma vida profissional como escritor e realizar o funeral da Era Gutenberg, contrária as seduções da era digital.

A genialidade, e a ironia, de Vila-Matas é bem visível no conteúdo de «Dublinesca», já que Riba, depois de ler de tudo um pouco ao longo da vida devido a sua profissão, tanto o bom mas também o mal, acaba por ler em Dublin a sua própria vida. As referências literárias são inúmeras (Eliott, Beckett e Auster, por exemplo), o que torna esta nova obra de Vila-Matas uma espantosa homenagem a literatura em termos globais.

Mas «Dublinesca» também olha para o interior do meio literário, não se poupando a inúmeras críticas de um meio que não se cansa de olhar para o seu próprio umbigo, ao mesmo tempo que Vila-Matas reflecte como a edição mudou ao longo dos últimos anos.

«Dublinesca» não é de leitura fácil, exige atenção e dedicação, mas as suas páginas merecem ser lidas com carinho, já que reflectem a dificuldade que é começar uma nova vida quando deixamos de fazer o que mais apreciamos. Mais cedo ou mais tarde, esse caminho chega a todos, inclusive na literatura…

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