O gênio da raça

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Se você quer ser culto e bem informado, veja novelas – dizia o subtexto de uma campanha publicitária da TV Globo. É o sinal verde para mim. Agora, posso revelar minha verdadeira formação cultural. Confesso que além da fastidiosa literatura romântica brasileira, recebi uma verdadeira lavagem cerebral das novelas de rádio. Não podia ser diferente. Depois de ter lido os poucos livros da Biblioteca Municipal do Crato, quase todos sobre vidas exemplares de santos, sobrou-me o rádio, já que eu era péssimo no futebol e nunca acertei rodar um pião de ponteira.

Meu pai iniciou-me no vício. Ele levou o primeiro rádio para o Sertão dos Inhamuns, onde nasci. Um Philips alimentado à bateria de carro. Vinha gente de toda a redondeza conferir a caixa mágica, falante e cantante. Ninguém se atrevia a dizer mal de meu pai, com medo que as intrigas fossem captadas no nosso aparelho. Eu ouvia e declamava feito um papagaio tudo o que o rádio transmitia. Cheguei a ganhar dinheiro para repetir os reclames do sabonete Palmolive e do comprimido Melhoral.

E as novelas? Viciei-me cedo, quando fomos morar no Crato. Sintonizávamos a Rádio Clube de Pernambuco, a Difusora do Maranhão, a Rádio Nacional. Lembro as músicas de abertura, diálogos inteiros e os títulos mirabolantes: Brumas do passado, Ódio que mata, Ângela – a moreninha de Ânzio, O Xeique de Agadir, Eu compro essa mulher, O direito de nascer, Jerônimo, O herói do sertão, A vingança do infeliz e por aí afora. Só agora descubro que atirei para um baú velho e esquecido o melhor conteúdo da minha formação: as novelas.

No sítio de minha avó, onde eu costumava passar as férias, só existia um rádio. Quando as pilhas estavam fracas, elegiam uma pessoa para escutar a novela, com o ouvido colado à caixa de som. O eleito transmitia para os outros os acontecimentos mais importantes da trama. Minha prima era sempre a escolhida. Talvez ela tivesse as orelhas maiores do que as minhas. Com voz acelerada ela passava o enredo para minha tia, que passava para minha avó, que gritava para mim. Era uma técnica precária. As vozes se misturavam, eu não conseguia compor os cenários, minha avó berrava feito uma louca, o rádio emudecia.

As novelas mal ouvidas e os livros parcialmente comidos pelas traças são o meu esteio cultural. A dramaturgia italiana, a francesa e a inglesa se construíram sobre uma dramaturgia menor, de origem popular, ou melhor dizendo, popularesca. O maior de todos os gênios, Shakespeare, criava seus textos às pressas, colando tramas de domínio público ou reescrevendo peças de vários dramaturgos, esquecidos pela história. Hábito comum, num tempo em que não se falava em plágio e direito autoral. O teatro elisabetano não se encenava apenas para a nobreza e intelectuais. O público que assistia os espetáculos de pé, na platéia, era formado de comerciantes, artesãos e da plebe de Londres. A poesia shakespeariana também foi escrita para o povo.

Goldoni, em Veneza, quebrou os modelos rígidos do teatro de commedia dell’arte, em que o texto é mero pretexto para os improvisos de Pantaleão, Arlequim, Pierrô e Capitão, inaugurando uma escrita que tem como lastro uma dramaturgia tipicamente popular e italiana mais autoral. O mesmo fez Molière na França, partindo de um modelo italiano adaptado pelos franceses.

No Brasil, não tratamos com seriedade a dramaturgia construída no rádio e na televisão. Os intelectuais torcem o nariz para o produto mais popularmente brasileiro: as novelas. Ninguém consegue ser gênio escrevendo trinta laudas diárias, durante nove meses, num esforço sobre-humano e supra-artístico. Os tempos são outros, a linguagem é outra, os meios são outros. Guardadas as proporções, há alguma semelhança entre a feérica produção veneziana, que tinha por único fim o entretenimento de uma burguesia consumidora de teatro, e o que é produzido na televisão brasileira.

O que emergirá do meio dessa torrente de falas e personagens criados para a televisão? Não esperemos um Shakespeare, nem um Goldoni, nem um Molière. Mas será que um dia, ao molde do teatro elisabetano, teremos a reescrita dessa dramaturgia caótica, onde uma cultura brasileira subjacente ameaça insinuar-se? Ou esta já é a nossa dramaturgia final? Será mesmo que Manoel Carlos é o nosso gênio da raça?

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