O gênio esquivo de João

Por João Paulo
VIA CONTEÚDO LIVRE

João Gilberto, violão e microfone: uma revolução suave que mudou a cara da música popular em todo o mundo

Recentemente o cantor João Gilberto voltou à cena por motivos equivocados. O maior cantor popular do mundo foi considerado fujão, enqrenquinha e doido. Tudo porque desmarcou shows por razões de saúde, processou uma multinacional que estuprou sua obra e prefere o retiro a posar para a revista Caras. Malhar João Gilberto é uma forma de se esquivar da comparação com ele. Como o artista é considerado louco, não vale falar de sua arte sublime e cobrar de outros cantores e músicos a mesma dedicação.

Mas nem só de detratores apressados se faz a fama do cantor. No mundo todo ele é admirado e celebrado pela criação da bossa nova – invenção que divide com Tom Jobim – e pelas interpretações únicas de canções brasileiras, francesas, americanas, italianas e espanholas. Com poucos discos e um volume reduzido de canções ele mudou a cara da música popular, revolucionou a arte do canto e a forma de tocar violão. Há o antes e o depois de João Gilberto.

Livro de um jornalista alemão, Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto é um presente para os fãs do cantor, que já conhecem todas as suas histórias, uma introdução inteligente ao personagem e seu significado cultural e uma aula de jornalismo literário. O autor, Marc Fischer, morreu ano passado, aos 40 anos, sem ver o livro lançado. Com dois romances e reportagens publicadas em revistas e jornais de seu país, ele se suicidou sem deixar razões. O livro sobre João Gilberto, em um capítulo, chega a falar do suicídio imotivado de um estrangeiro no Rio de Janeiro. Caminhos cruzados.

Todo estudante de jornalismo já leu a reportagem de Gay Talese sobre Frank Sinatra, considerada um clássico. O repórter não conseguiu entrevistar o ídolo americano e decide comer pelas beiradas, ouvindo gente em torno do artista, com o uso de técnicas literárias que dão sabor ao texto. Marc Fischer, em sua reportagem sobre João Gilberto, parece usar o mesmo método. Mas, cá pra nós, Ho-ba-la-lá é melhor que Frank Sinatra está gripado.

O livro tem uma trama: Marc escuta a canção Ho-ba-la-lá, apresentada por um amigo japonês, e se apaixona pela música. Decide procurar o cantor e pedir que ele toque a canção em um pequeno violão centenário (que ele ganhou na adolescência), como se fosse a única forma de decifrar o mistério. Vem para o Brasil, se cerca de uma ajudante e passa, como um detetive meio atrapalhado, a seguir pistas que o levem até João.

O enredo é narrado como uma história policial, sua amiga é chamada de Watson e ele mesmo ganha o apelido de Sherlock. Como chegar até João Gilberto (um homem que não sai do lugar) é mais difícil do que ele pensava, estabelece um método de aproximações sucessivas, conversando com amigos, inimigos, conhecidos, parentes e até com o cozinheiro Garrincha, que por muitos anos preparou o jantar do cantor, sempre o mesmo cardápio: steak no sal grosso. Que Marc come e aprova.

No banheiro Sua busca o leva ainda a Diamantina e à casa da irmã de João Gilberto nos anos 1950, onde, possivelmente sentado no vaso, o artista descobriu sua arte. Marc Fischer não resiste, pede para usar o banheiro, testa a acústica e depois se alivia e dá descarga. O humor que perpassa toda a reportagem é feito desses momentos de engano e descoberta.

O repórter é eficiente em suas entrevistas com nomes como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Marcos Valle e João Donato. Deste, leva de presente um cigarro de maconha que depois embala e manda de presente para JG para amaciar sua alma. Além dos músicos, Fischer tem uma conversa interessante com Miúcha, que foi mulher do cantor e com quem teve a filha Bebel Gilberto, e um papo revelador com Claudia Faissol, que hoje parece ser a única ligação de João com o mundo, por meio de Lulu, filha temporã do cantor, que fala com o jornalista em inglês.

Além dos nomes mais conhecidos, surgem outros personagens no caminho de Marc, como Anselmo, um homem que canta e toca exatamente como João Gilberto: “Anselmo é uma encarnação de João: a ligação existe. E João nem precisou encontrar aquele homem para contaminá-lo. Bastou enviar-lhe esporos invisíveis que se implantaram em Anselmo mais profundamente do que qualquer outra pessoa. Suave veneno”. Ser como João parece ser mais fácil que ser o próprio João. Há o imponderável além das notas das canções.

O livro de Marc Fischer tem muitas boas sacadas literárias, alguns mistérios e enigmas (uma noite o autor recebe um telefonema e do outro lado da linha escuta alguém cantando Ho-ba-la-lá) que ele costura com graça. Mas há também o excelente trabalho jornalístico, com informações sempre seguras sobre o Brasil, seja no campo da política, da arte ou do comportamento.

Escrevendo para alemães, Marc Fischer não cai nunca em exotismos e generalizações. Independentemente do método escolhido (reportagem-confessional-detetivesca-afetiva), seu livro é uma biografia de alto nível e um ótimo estudo sobre o significado da bossa nova para a cultura pop da segunda metade do século passado. E tão bom de ler como um samba na voz de João.

Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto

• De Marc Fischer

• Editora Companhia das Letras l 184 páginas, R$ 34

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