O Golpe e a Cultura Brasileira

Recebi e repasso:

ABERTURA: V Colóquio de Literatura Brasileira: “O Golpe de 64 e a Cultura Brasileira – 50 anos”

Gostaria de agradecer a presença de todos e a compreensão pelas nossas condições precárias por estarmos realizando este evento numa situação de greve, o que dificulta muito o apoio em serviços e infra-estrutura.

A DERROTA DO GOLPE – É com muita satisfação que inicio aqui a programação de nosso V Colóquio da Área de Literatura Brasileira, que elegeu o seguinte tema: “O Golpe de 64 e a Cultura Brasileira – 50 anos”. Irei resumir rapidamente os seus dois objetivos principais, um macro e outro, como não poderia deixar de ser, micro, mas não menos importante. O primeiro e principal e sobre o qual nos debruçaremos nos próximos três dias será o de refletirmos sobre as repercussões que esse ato de brutalidade político-institucional, o golpe de 64, que feriu profundamente o nosso processo formativo como nação, teve sobre várias esferas da cultura e, ao mesmo tempo, as respostas que elas, diferentemente, souberam e puderam dar. Ao contrário do que se possa pensar, algumas delas não sofreram passivamente as suas conseqüências, reagiram também, muitas vezes com grande mestria e argúcia, à rusticidade das agressões sofridas, assim como à atmosfera funérea e negativa que a ferocidade humana derivada do golpe causou. Será esse o centro de nossas exposições e debates. Pensamos que, para não nos perdermos apenas em generalidades e ficarmos no já sabido, deveríamos organizar as mesas segundo as diferentes áreas, como teatro, cinema e tv, música, e os vários gêneros literários, que são as nossas especialidades, como romance, poesia, conto e novela, crônica. Achamos que com isso poderíamos dar tanto maior concretude e definição às nossas exposições, assim como estimularmos os participantes convidados a se debruçarem, pesquisarem e refletirem sobre essas repercussões e reações, de modo a trazerem também algo novo para o seu melhor conhecimento. Será o nosso intuito, por um lado, não deixarmos passar em branco o que significou para a nossa vida intelectual e literária esse ato arbitrário e autoritário, caprichoso e violento, e, por outro, tentarmos mostrar que, apesar de tudo, a vida e o espírito resistiram e sobreviveram aos desvarios da força bruta.

UMA POLÍTICA PARA A ÁREA – O segundo objetivo do Colóquio é mais restrito e tem em vista as relações internas da Área de Literatura Brasileira e a sua forma de participação nas da universidade, a USP, que vive um momento tão crítico. O que gostaríamos de ressaltar, é o fato dele ser resultado de um esforço coletivo, de toda a Área como um conjunto, seja na sua organização seja na participação para a formação e composição das mesas. Esteve ele desde o início aberto a todos. Para isso, tivemos que superar muitas cisões e indisposições que impediam a troca e cooperação entre o conjunto dos professores, o que dificultava uma nossa melhor convivência e coesão, para o empobrecimento e perda de todos. Isolados, podemos ser ou não ser o que imaginamos ser, mas, juntos, formamos, eu creio, o corpo de estudiosos da Literatura Brasileira mais numeroso do mundo! Não é exagero, onde mais se reúnem, contando os aposentados semi-ativos, quase trinta professores especializados e inteiramente dedicados ao estudo específico da Literatura Brasileira? Isso pode ser só uma vantagem numérica, mas se cada um de seus membros puder contribuir para melhorar o trabalho do outro, através da troca, da crítica e do diálogo, esse acúmulo poderá tornar-se em algo muito maior, é o “milagre” do trabalho cooperativo e não só competitivo, o que deveria ser a essência da própria vida universitária. Senão, qual seria a diferença entre produzirmos isolados em nossos gabinetes ou nos deslocarmos ao campus para coexistirmos com alunos, orientandos e outros colegas? Cumprir o ponto e justificarmos o nosso holerite? Pode parecer banal, mas isto é importante dizer, porque não foram assim os nossos primeiros colóquios; esta nova forma é a resultante da superação dos entraves enfrentados pelo menos pelos dois últimos. O trabalho em torno de um projeto também comum, como é o atual Colóquio, que preserve a autonomia individual, permitindo ao mesmo tempo que cada idiossincrasia possa estar junto ou ao lado das suas diferenças, como, por exemplo, aqueles voltados para o estudo das relações entre literatura e sociedade e os mais preocupados com a hermenêutica textual, acreditamos que possibilitará pelo menos o diálogo; porém, o que se tem em vista é o enriquecimento mútuo. Bom, isto já faz parte do capítulo das virtudes teologais, da fé, esperança e caridade. Olhando para o todo do programa do encontro poderemos ver como ele é amplo e plural, e foi essa a nossa intenção, a de tentarmos criar um espaço onde coubessem todos e fosse possível o embate de tendências de pensamentos diversos, para que o confronto e as dissensões ocorressem e não se dissimulassem, mas ficassem restritas ao debate de idéias. A maior esperança é a de plantarmos uma semente.

UM PROJETO PARA A USP – Talvez o que seja um pouco razão do nosso estado crítico, mas faz mais falta à nossa vida universitária atual – nem sempre foi assim, muitos ainda se lembram do que foi a velha FFLC (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências) da rua Maria Antônia –, é a ausência de espaços de convivência, encontros e trocas na nossa vida segmentada em prédios diferentes: como pátios comuns, anfiteatros, auditórios, cantinas, até algum bar, como foram o Redondo, a Quitanda, o Cientista. Depois do AI 5, quando se apressou a mudança da USP para a Cidade Universitária, o que se dizia, era que os militares pretendiam com isso dividir-nos e isolar cada um na sua esfera privada de saber, cuidando só da sua vidinha. Sem dúvida conseguiram, mas o pior é que nos resignamos a esse estado de serenidade espiritual. Imaginem vocês se a USP tivesse uma Praça Central (tendo no lugar de obelisco e relógio, árvores e bancos, sem dizer de uma fonte refrescante de águas claras) com cinema, teatro, auditório, livraria, galeria de exposição, cantina decente, cafés, algum bar, por onde a todos, professores, alunos e funcionários, de todas as áreas do conhecimento, fosse agradável e instrutivo passar. Melhor seria ainda se pudéssemos nos deslocar até ela pelas nossas boas ciclovias e calçadas largas bem sombreadas por árvores floridas! Ali então nos encontraríamos e conversaríamos, face a face na mesa do seminário ou do bar e não só no facebook. Aí sim, poderíamos dizer que tínhamos de fato uma existência universitária acompanhada de formação civil. Será isso utópico e precisaríamos de tanta verba para praça, ciclovia, calçadas e espaços comuns fora dos nossos feudos e nossas pirâmides particulares? Vou parar por aqui porque vivo sonhando acordado e acabo tendo idéias subversivas que só as praças públicas provocam e posso com isso dar margem a um novo golpe, como o de 64, a razão porque estamos aqui.

Luiz Roncari – 17/09/2014

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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