O governo e a vergonha

Por Francisco Duarte Guimarães

Quando eu era pequeno, o meu avô, Severino Cândido Guimarães, de feliz memória, sempre dizia que não tinha entrado para a política, apesar da insistência dos amigos, porque para ser político o homem precisava perder a vergonha.

Para não perder a vergonha, então, preferiu não ingressar em um mundo no qual se vê todos os dias denúncias de malversação de dinheiro público, desvios de funções, hipocrisia.

Agora mesmo o governador Iberê Ferreira foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral por fazer propaganda pessoal com recursos públicos. A multa aplicada foi de R$ 5 mil. Parece-me ainda muito pouco diante da ousadia e do estrago já feito.

Ele vem também utilizando o poder de governador para achacar, segundo denúncia formulada pelo deputado estadual José Dias, os deputados da oposição que se negavam a aprovar o remanejamento (esta palavra já diz tudo) de recursos públicos para usar como quiser nos próximos meses – exatamente os meses que antecedem à eleição.

De acordo com o deputado oposicionista, o próprio Iberê ligou para os parlamentares da oposição e ameaçou despudoradamente não liberar verbas para os municípios que fazem parte da base eleitoral desses deputados caso não se decidissem pela matéria.

Resultado: os deputados aprovaram o projeto como o governador queria. Com recursos da ordem de milhões de reais para ser usado como bem quiser em pleno período eleitoral.

E tudo isso com o apoio do “ético” Partido dos Trabalhadores. Aliás, nem mesmo o deputado Dias resistiu à pressão: votou a favor do aumento do remanejamento de 5% para 11%; de um crédito suplementar de 6,85% “amarrados” a determinados gastos; e deixando de fora dessa “amarração” cerca de R$ 100 milhões referente a contrapartidas para convênios federais, sendo esta última uma proposta do próprio deputado petista – que apóia Iberê – Fernando Mineiro; assim também como ficaram de foram outros milhões de reais advindos de outras fontes, como os royalties da Petrobras, que poderão ser utilizados como o governo bem quiser nos próximos meses.

Em suma: trata-se de um governo e de deputados que não zelam por aquilo que dá dignidade aos poderes Executivo e Legislativo, aos cargos que ocupam e à cidadania norte-rio-grandense. Dentre vários outros atos flagrantemente do uso da máquina e do falseamento no passado, estes, desta semana, quais sejam, aquele que gerou a multa aplicada pelo TRE, as manobras pessoais do governador e a submissão, quem sabe até financeira, dos deputados da AL, caracterizam bem que na política do Rio Grande do Norte ainda há muita carência de vergonha. Aquela mesma que o meu avô não quis perder a ter que ingressar num mundo que tem às vezes uma política assim, infecta e conspurcada.

Comments

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  1. Tião Carneiro 19 de Junho de 2010 22:16

    Caríssimo Duarte, quando Seu Severino dizia essas coisas, ele o fazia de forma descontraída, informal, acho eu. Entendo que há políticos com vergonha, sim. Ou não? Será que política partidária e vergonha na cara formam um “dois” antagônico, a exemplo de ódio e amor, doença e saúde e descrença e esperança? Tenho certeza, amigo velho, que você pode desmentir o “velho”. Elega-se – que tal a vereador – e mostre que mandato popular e integridade de caráter podem muito bem formar outro tipo de “dois”. O “dois” complementar. “Dois” da natureza de amizade/amor, saúde/bem-estar e esperança/realização. Faça isso, cara, e seu avô, lá do cantino dele, irá se sentir o mais feliz dos desmentidos. Tão feliz que dirá: “Ah, moleque, você é o cara.”
    Dois abraços pra você, meu vereador.
    Tião

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