O governo, o banco e o povo

TC

Não posto aqui muita notícia ou artigo sobre economia, prefiro usar o Twitter para isso. Mas entre sexta-feira e ontem, postei uns três a quatro textos sobre a decisão do BC de baixar os juros, algo que incomodou sobremaneira partidos como o DEM e o PSDB e colunistas como Miriam Leitão.

Eu comecei a ficar puto logo de manhã, enquanto atualizava o SP a TV estava ligada na Globo e fui obrigado a ouvir Leitão criticar a decisão. Que jornalista agourenta da bexiga! Na verdade, ela e outros teriam criticado qualquer que fosse a decisão.

Meu desconforto aumentou no decorrer daquela sexta-feira, quando a maioria dos “analistas” da grande mídia saiu em campo para dizer que a decisão fora fruto de pressões da presidenta da república. E lá no Twitter eu soltei os meus cachorros.

Ora, só existiam indícios de que de fato ocorreu pressão. No entanto, na minha visão, se houve trata-se de algo legítimo. O BC é um aparelho de estado. Estado que tem uma política e representantes legitimamente eleitos para geri-lo. Uma decisão do banco mexe com a vida do país de forma direta.

Então, somente um governo muito incompetente, marionete do mercado, da mídia, pode ignorar o que o seu Banco Central faz. Se o mandatário não pode influir em decisões que interferem na vida da população que o elegeu, frise-se enfaticamente isso, então é esperar as próximas eleições para mandá-lo embora.

Não é o BC que deve mandar no governo, apesar da autonomia que, creio, rege suas decisões.

O banco argumentou que a decisão, a primeira em anos que contrariou Deus, digo, o mercado, se deveu a piora na economia internacional. Pois bem, hoje no insuspeito Estadão, está a notícia dando conta de que o “FMI alerta para uma desaceleração global ‘em espiral’ (aqui)

Sempre me horroriza, embora seja tão antiga e recorrente, a posição de grande parte da elite em favor dos mais ricos, dos que aplicam e ganham fortunas no mercado financeiro.

Curioso é que a grande mídia (vamos nominá-la, Veja, FSP, Rede Globo, Estadão etc) sempre defendeu ardorosamente a “autonomia” do BC perante o governo, mas jamais falou na autonomia que o banco deve ter com relação ao mercado.

Felizmente, tudo indica que essa autonomia chegou.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Varela Cavalcanti 4 de setembro de 2011 20:18

    Feito Marcos, eu também achei as decisões tomadas óbvias.

    Um dia antes, conversando com uma companheira do movimento sindical, eu disse que haveria queda. Ela disse, “como amanhã haverá reunião para aumentar os juros, faremos manifestação em frente ao BC em São Paulo”. Chato, corrigi, “você quer dizer, reunião para definição da nova taxa da selic, não é? Se é para mais, ou para menos, é outra coisa.”

    Ela também achava o mesmo, mas é interessante como as coisas viram uma “lei”. A reunião do BC é reunião para aumentar a taxa de juros, o BC é autonomo para aumentar, o BC é estatal, mas o governo não tem nada a ver, o BC define o juro, mas o mercado é quem diz se é bom ou mal…E a sociedade, não tem nada a ver com isso?

    Bastava ler a política e a economia, mas, de repente, não mais que de repente, tudo pareceu uma surpresa. Estranho? Não, os humores tocados, os interesses mexidos, o Banco Central não cometeu nenhum ato de heroísmo, nenhum gesto insano, mas, para a banca, para Míriam Leitão (a prova absoluta da mediocridade da televisão brasileira – e não só), pro mercado que só quer autonomia em seu próprio benefício, tudo soa muito estranho quando não ecoa suas próprias teses.

    A queda era uma obviedade (econômica e política) que se cantava e anunciava (e se pedia) faz algum tempo, mas que a imprensa comprometida com o tal mercado – porque, afinal, faz parte do tal mercado, investe no tal mercado, vive do tal mercado, não é nada de quarto poder coisa nenhuma (o mito dos mitos da imprensa, cada vez mais roto) – fazia de conta (não é o termo adequado) que não seria assim, ou fazia de conta que não queria assim.

    A quem interessar possa, uma sugestão, o livro Os Cabeças de Planilha, de Luis Nassif, não lembro a editora.

  2. Marcos Silva 4 de setembro de 2011 18:04

    Considerei as medidas tomadas óbvias. A grita de certa Imprensa e certas entidades empresariais dá a impressão de que foi até mais.
    Não tenho entusiasmo pelo governo Dilma. Infelizmente, a oposição mais formalizada e visível consegue ser ainda pior que o governo.

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