O guarda de Buckingham e suas maravilhosas piruetas

Num tempo em que as notícias sobre horrores de guerra, atos multiplicados de violência por nossas cidades, além de disseminadas doenças políticas e sociais de toda ordem, preenchem os jornais impressos, programas de rádio e as telas das TVs e computadores, confesso que assisti, extasiado e com a alma leve e lavada, às imagens veiculadas da coreografia improvisada em piruetas hilárias de um irreverente Guarda Real no, até então, sóbrio e muito solene Palácio de Buckingham, em Londres.

O guarda arretado, certamente de saco cheio e entediado com aquela ritualística – de repetitiva e enfadonha marcha no diminuto percurso entre as pequenas guaritas da parte frontal do Palácio – decidiu propiciar um largo e saboroso riso às crianças e adultos que filmavam a cena (dá para ouvir com nitidez as gargalhadas soltas nos vídeos espalhados pela internet).

A dona Rainha não estava presente, possivelmente “acampando” na Escócia ou no Castelo de Windsor, propriedade em que – nos arredores – cria vaquinhas (acabo de me lembrar de ter visto a celebrada vaca da rainha quando de uma viagem que fiz por lá em 2010). Mas, será que já ficou sabendo do acontecido? Parece que um alcaguete real já andou passando as imagens para o comando da sua guarda, estando o soldadinho de chumbo sob “grave” investigação, correndo o risco de ser punido até com a perda do cargo e da carga maçante.

O importante é que fica na retina a imagem da liberdade desobediente aos padrões engessados. Mesmo que não seja correto descumprir regras estabelecidas (e com as quais o guarda certamente havia concordado, expressa ou tacitamente) é essencial que haja alguns lampejos e até pequenos surtos de total irreverência, para não sermos esmagados por realidades impostas e, às vezes, pouco racionais. Algumas normas são mesmo para serem descumpridas, ao menos uma vez na vida e na história. E essa parece ter sido a primeira e única da saborosa espécie de desbunde e de um certo “direito alternativo” assumido por um guarda real, que brincou com a sacal realidade.

Tenho pra mim que a atitude do guarda de vermelho e com chapéu de urso esfolado foi uma das mais poeticamente revolucionárias dos últimos tempos, uma desobediência “paz-e-amor”, ou “peace and love”, como repete pelos quatro cantos o nosso emblemático artista visual Marcelus Bob; por sinal, um dos nossos maiores revolucionários simbólicos nesta província crescida e povoada por caçambas de entulhos e lixos ocupando as ruas que deveriam ser do povo.

É preciso mesmo pensar e agir diferente, nem que seja por átimos, nem que seja durante os poucos passos de uma dança divertida e aparentemente “nonsense”, mas que termina dando real sentido à existência. Não foram os ingleses, foram os franceses que consagraram a expressão “vive la différence”. Mas aí está o guarda londrino para repetir essa máxima, com seu gestual emblemático, reconheçamos todos. Espero que os seus superiores o perdoem (eu lhe daria uma nova tarefa, mais lúdica, e uma medalha!) e que Deus salve a rainha, mas salve antes o guarda maluco-beleza que deu de presente um sorriso às crianças defronte ao palácio e deu um sentido para a vida e para o mundo adoentado que aí está, por entre as grades dos vetustos palácios da realeza e de alguns castelos sombrios da realidade.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo