O Incêndio do Eu – II

Por Mário Gerson

Dentro do peito

Como uma chama acesa,

Esse Nero de outras eras,

Esse errante marinheiro do eu,

Queimando-me por dentro

A chama opaca de meu fim…

Dentro da alma,

Vazia como o olhar de uma mulher na esquina,

Esse Nero hipócrita e medroso

Insiste em levar-me para além

De um instante mitigado de fantasmas…

Um Nero acende meu peito como uma fogueira

E me deixa a boiar na noite escura

Dentro de mim, como quem desnuda

Sua face sangrenta e covarde

Do que um dia me foi, incêndio e desastre.

Um Nero flameja no meu ser…

E apenas me igualo ao que não foi.

Sou parte do todo que se esvai,

Uma lembrança apenas e um depois…

Queimando sobre um corpo qualquer,

Esse Nero, que me abre o peito,

É também como o olhar daquela mulher.

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