O Incêndio do Eu – II

Por Mário Gerson

Dentro do peito

Como uma chama acesa,

Esse Nero de outras eras,

Esse errante marinheiro do eu,

Queimando-me por dentro

A chama opaca de meu fim…

Dentro da alma,

Vazia como o olhar de uma mulher na esquina,

Esse Nero hipócrita e medroso

Insiste em levar-me para além

De um instante mitigado de fantasmas…

Um Nero acende meu peito como uma fogueira

E me deixa a boiar na noite escura

Dentro de mim, como quem desnuda

Sua face sangrenta e covarde

Do que um dia me foi, incêndio e desastre.

Um Nero flameja no meu ser…

E apenas me igualo ao que não foi.

Sou parte do todo que se esvai,

Uma lembrança apenas e um depois…

Queimando sobre um corpo qualquer,

Esse Nero, que me abre o peito,

É também como o olhar daquela mulher.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Mário Gerson 24 de novembro de 2011 8:33

    Bom dia, Cláudia. Esse Nero me persegue como um mau hábito. Obrigado por sua generosa leitura nesses versos. Vamos enganando as coisas a cada dia e desnudando o véu, cheio de segredos e labirintos, onde se enconde a poesia.

  2. Cláudia Magalhães 23 de novembro de 2011 19:58

    Quantas vidas tem esse Nero que nos faz esconder a face nos dias claros? Ele brinca com a morte, se esconde da dor descansando no perigo…
    Belo poema, Mário!

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