O Índio Cor de Rosa contra a Fera Invisível: A peleja de Noel Nutels

“A essa hora alguém está matando um índio”.

(Noel Nutels)

Em O índio cor de rosa contra a fera invisível: a peleja de Noel Nutels (2020), presente na programação do forumdoc.bh 2020, o diretor Tiago Carvalho registra a atuação do médico sanitarista Noel Nutels junto aos povos originários “do” Brasil, entre os anos 1940-1970.

Para além do trabalho orgânico com materiais de arquivo, onde os registros feitos com uma câmera 16 mm pelo personagem são a própria base do documentário e não recurso acessório, Tiago Carvalho conduz sua obra de modo compartilhado com o seu personagem, como se estivéssemos no campo de uma coautoria indireta – se assim pudéssemos delinear. É que Noel Nutels se espalha por quase todos os domínios do filme – exceto, naturalmente, a montagem. E, aos poucos, vai se constituindo em uma espécie de personagem-autor, que é mais do que o sujeito – parcialmente – biografado ou tema de um dado documentário.

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Com exceção dos registros feitos pelo Major Luiz Thomaz Reis, no âmbito da Seção de Cinematografia e Fotografia da Comissão Rondon, a partir de 1912, praticamente, 100% das imagens de arquivo de O índio cor de rosa contra a fera invisível são de Noel Nutels – em um filme em que a quase totalidade do material é composta de imagens de arquivo. No período em que atuou como médico nas aldeias, produziu uma série de registros sobre as comunidades indígenas e, por extensão, um acervo imprescindível para a memória da história do Brasil  – ou, em palavras mais precisas, da memória do genocídio indígena já seis vezes secular: “A essa hora alguém está matando um índio”. Acrescente-se ainda a forma como Carvalho transfere para Nutels o papel de narrador em off, a partir do áudio recuperado do depoimento contundente que deu à CPI do Índio, na Câmara dos Deputados, em Brasília, em 1968, e que se torna o fio narrativo de onde emanam as reflexões sobre a história dos povos indígenas e o trabalho dele como médico.

Noel Nutels, portanto, é cinegrafista, narrador e personagem.

Se muitas vezes certo cinema documental emprestou – aparente – protagonismo aos personagens para, ao cabo, anulá-los, como se apenas entregar a câmera ao Outro fosse o suficiente para elevá-los a condição de sujeitos, Tiago Carvalho segue em outra direção. Tem sequências magistrais com o médico Noel Nutels comentando as próprias imagens – especialmente as do segmento que, na ocasião da sua presença na Câmara dos Deputados, foi projetado aos membros da CPI para melhor fundamentar o seu relato. O que registra-se com esse segmento é o horror da fome que assolava as aldeias “do” Brasil naquela época e que havia lhe chegado como uma desconhecida doença, que dizimou quase todos os membros de uma etnia.

Nessa sequência, além do tempo da sequência no filme coincidir também com o do depoimento de Noel à CPI, no momento exato da projeção dos seus registros para melhor embasar o que falava, cinema e história se encontram imbricados como um corpo indivisível. É que Tiago Carvalho abre assim espaço para o personagem, internamente, “assumir” a montagem, se pudéssemos colocar dessa forma, pois o que passamos a ver é justamente o segmento que o médico sanitarista Noel Nutels nos avisa que veremos (mas que, primeiramente, anunciou aos membros da CPI quando do seu depoimento seguido pela projeção em 1968 desse fragmento específico) e, consequentemente, entrará daquele ponto em diante no documentário que acompanhamos 50 anos depois.

Uma outra faceta desses comentários internos sobre as imagens, um expediente recorrente no cinema documental contemporâneo brasileiro (No intenso agora, Santiago, Democracia em vertigem, A flecha e a farda), é a analise da fabricação das próprias imagens. É o que o relato de Noel Nutels, nesse segmento específico, desenvolve, a partir do plano de um indígena cadavérico escorado em uma cruz. Comenta que aquele plano/ângulo estava naturalmente carregado de intenções do cinegrafista, que, simbolicamente, figura o lugar dos missionários religiosos na miséria humana que se abateu sobre os povos originários. Nesse momento, O índio cor de rosa contra a fera invisível dobra-se sobre si mesmo, a partir de um movimento reflexivo em que o filme pensa o próprio filme e o mundo histórico para o qual as suas lentes se voltam – considerando o personagem como sujeito das imagens e da história.

* Publicado originalmente em Histórias de Cinema, página no Facebook administrada pelo crítico Cássio Starling Carlos.

Marcos Aurélio Felipe é professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro “Ensaios sobre cinema indígena no Brasil e outros espelhos pós-coloniais” (Ed. Sulina, 2020). [ Ver todos os artigos ]

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